quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Do pelado e do nu

Se quiséssemos falar um filosofês, poderíamos começar pela distinção heideggeriana entre Ser, ente e Pre-sença (o famoso Dasein). O primeiro é "o conceito mais universal e dispensa definição", ou seja é a evidência de que as coisas são. Mas são o quê? Quando se responde a essa pergunta (de)cai-se no ente, que é um modo de Ser. E o Ser só comparece, enquanto tal, como ente, logo é o ser do ente que pode levar à compreensão sobre o Ser em geral; em especial, um ente chamado Pre-sença (Dasein). A Pre-sença é que pode apreender o Ser enquanto um eterno devir: “Se o ser deve ser apreendido a partir do tempo e os diversos modos e derivados do ser só são de fato compreensíveis em suas modificações e derivações na perspectiva do tempo e com referência a ele, o que então se mostra é o próprio ser, e não apenas o ente, enquanto sendo e estando “no tempo”, em seu caráter “temporal”.” Ou seja, a Pre-sença pode apreender o Ser porque ela é um tipo de ente especial que manifesta em si não apenas uma "entidade", mas uma "Serdade", quer dizer, manifesta em si o Ser.

Assim, o Ser é (o) vazio de essência, de definição, precedidas que são pela mera existência - o Ser como eterno devir da existência. O ente é modo de existência do Ser. A pre-sença é O ente no qual o Ser se manifesta enquanto tal, pré-ontologicamente: "este ser-ontológico da presença deve significar pré-ontológico. Isso, no entanto, não significa simplesmente sendo um ente, mas sendo no modo de compreensão do ser". 

Então é o seguinte: estar pelado é o mesmo que estar nu?

Somos animais que 'vestem' coisas (ou seja, modos de Ser) chamadas 'roupas'. Temos roupas de todos os tipos: de médico, de bombeiro, de punk, de advogado, de despreocupado, etc. Quando tiramos as roupas, ficamos todos 'iguais', por estarmos despojados de nossas 'roupas', simbólicas que são, e nos expomos enquanto mero corpo sem esses indicadores simbólicos. Assim estamos pelados: o corpo sem roupas. 

No entanto, mesmo pelados, não estamos nus. Isso porque podemos, sim, tirar as roupas que simbolizam o que achamos que somos. Mas quando estamos pelados, ainda estamos vestindo as roupas das identificações simbólicas com as quais nos constituímos. O rei pode até estar nu, mas ele ainda acha que é rei: a roupagem simbólica (e não a roupa que simboliza essa roupagem) ainda o cobre em seu próprio ser, que é-feito desse símbolo que a coroa simboliza: a realeza, ou melhor, o real. Na verdade, o rei não está nu: está pelado. De modo que estar pelado (fisicamente) não é estar despojado dos atributos simbólicos que pensamos possuir, e com os quais vestimos nossa Pre-sença: não é estar nu. Estar nu, realmente, é quando se está de frente ao espelho e ele te reflete ao contrário: nesse momento, é-se apenas o espelho, nem mesmo as imagens. Estar nu é testemunhar esse desmoronamento dos entes - vestes que constituem o ser de nossa Pre-sença - dar lugar à insustentável nudez do Ser. O Ser é a nudez que os entes cobrem, e a pre-sença é o ente que vê a própria mudez no espelho.  Por isso, o verdadeiro nu é o Nada, quer dizer, o próprio Ser, que não veste quaisquer roupas simbólicas, não veste quaisquer entes: a nudez é pré-ontológica. E só a pre-sença pode ficar nua.

Por isso são comédias os médicos que protestam de jaleco: não basta apenas que eles pensem que SÃO 'douto(re)s', querem ainda que os outros o pensem também, desfilando para os olhos dos outros verem a roupa física (já que a simbólica é invisível, a não ser que se a diga) com que eles se cobrem - e nos cobrem de vergonha... Eles não exercem pre-sença, mas, antes, au-sência....

Melhor estar nu do que pelado por uma roupa idiota: toda roupagem será castigada.

(Citações retiradas de: http://www.academia.edu/1086899/Fichamento_de_Ser_e_tempo_de_Heidegger)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Eu, meu carro, minha bicicleta e o perspectivismo ameríndio

Assisti a uma palestra ministrada por ninguém menos que Idelber Avelar, um dos grandes pensadores deste início de século, sobre o perspectivismo ameríndio, direitos não-humanos e sustentabilidade. 

O perspectivismo ameríndio é um modo de pensar a relação homem/não-homem de uma maneira inversa à do antropocentrismo, que infectou o século 20 com a ideia de que o homem é separado da natureza, por ser um ser de cultura, de linguagem, e tudo que o ser humano faz não é natural. Avelar mostra, através de trabalhos de geólogos, que estamos vivendo uma era planetária na qual a destruição que o homem tem feito na natureza equivale o de uma era glacial inteira, por exemplo. Só que ao contrário, pois todo o lixo que a cultura produz aquece o planeta. Tanto que tem alguns geólogos que propõem chamar nossa era geológica de 'antropoceno', ou seja, o homem funcionando tão eficazmente na mudança geológica quanto a própria natureza. 

Avelar defende que o estrago que temos causado à natureza é um tiro no pé causado pelo antropocentrismo da cultura ocidental, que, desde Aristóteles, tem colocado distinções entre o que é humano e o que é não humano. Assim, as coisas não humanas servem apenas para servir o homem, o qual dispõe de todos esses recursos para usar como quiser. Um exemplo disso são os animais, que tradicionalmente, nem sentimentos tinham (vide as Meditações de Descartes). É o exemplo típico da postura ocidental: nós, os humanos aqui, e o resto, lá. Fronteiras rígidas.

E são essas fronteiras que o perspectivismo ameríndio (ou seja, de índios da américa) borram. Em seus mitos, eles pensam o contrário do que o ocidental: eles partem do princípio de que todos os animais eram humanos, mas que após uma falha, um tropeção, viraram animais. Um mito citado foi o do javali: ele era um humano, mas ao ter que atravessar um rio, o fez na canoa errada e virou animal, perdendo o contato com os humanos. No entanto, para ele mesmo, o javali, ele é humano. Não é reconhecido como tal por outros humanos. Mas o próprio javali se sentindo humano, encara os humanos como presas. Assim, os ameríndios espelham a noção de 'humano' para todas as coisas que existem: tudo é humano. Isso é o contrário do ocidente, que separa nitidamente o que é humano do que é não humano. Para os ameríndios, não há não-humano. Quer dizer, não há diferença ontológica entre humanos e não-humanos: tudo dentro do mesmo saco. Na wikipédia, temos: "É importante enfatizar que o perspectivismo se diferencia do relativismo cultural assim como do universalismo, opondo-se de modo ortogonal a essa dicotomia. Isso porque o perspectivismo, ao contrario dos outros dois, não pode ser pensado a partir de categorias analíticas presas ao binarismo natureza/cultura, como: universal/particular; objetivo/subjetivo; imanência/transcendência; corpo/espírito; animalidade/humanidade; etc. A compreensão de cosmologias não-ocidentais exige que ponhamos em suspeição as categorias com que organizamos o nosso pensamento e tornamos a realidade inteligível."

Assim, o perspectivismo homogeneíza existência humanas e não-humanas - homogeneíza oposições -, desse modo dando direito de inviolabilidade a terras, plantas, e animais. Isso é o fundamento do que se chama de direitos não-humanos, no qual a Índia é pioneira: golfinhos foram considerados neste ano, por lei, como 'pessoas não-humanas'. Isso implica que animais agora são sujeitos de direitos, tanto quanto os humanos. Esse direito lhes foi outorgado após vários protestos contra a criação de parques aquáticos que subjugam os animais e os maltratam. Temos leis na Bolívia também, que dão direitos a terras, ao ar, etc. 

A lição do perspectivismo é que não há distinção entre 'coisas naturais' e 'coisas culturais' (poderíamos pensar na res cogitans e res extensa, se quisermos zoar Descartes). Matar a natureza é matar o humano, a cultura, e matar a cultura (como temos visto por aí com o capitalismo selvagem, que consome toda a natureza, que some com toda a natureza) é matar a natureza (que, por sua vez é também matar a cultura). Assim, a questão da sustentabilidade parece depender, nesse momento, de um pensamento mais 'indígena', ou seja, mais perspectivista, ou seja, mais indiferente quanto à oposição homem/não-homem. Enquanto o homem tiver uma perspectiva antropocêntrica, apartado da natureza, continuaremos a explorá-la até que se esgote, simplesmente por não vermos que nós somos a natureza, ou seja, tudo é humano, pois o o humano precisa do natural pra ser humano. A natureza faz parte da própria humanidade. O limite de nosso corpo é infinito, inclui o ar que respiramos, a água que bebemos, os animais que produzem o que comemos, etc - mas esses recursos, que compõem nosso próprio corpo, são finitos. Wiki de novo: "Com a perspectiva relativista, a antropologia iniciou um importante e contínuo movimento no questionamento do etnocentrismo. Um dos desdobramentos do relativismo na antropologia foi o multiculturalismo, que rompe com o ideal evolucionista, afirmando que todos os grupos humanos compartilham de uma mesma natureza biológica, não havendo um escalonamento possível que classifique intelectualmente ou culturalmente as sociedades. Autores como Eduardo Viveiros de Castro, contudo, defendem que mesmo esse ponto de vista continua sendo etnocêntrico, na medida em que ainda impõe a dicotomia natureza/cultura para classificar os sujeitos sociais. Isso porque, enquanto trabalhamos com a obviedade da ideia de multiculturalismo, muitas sociedades ameríndias desenvolvem-se sob a lógica de um multinaturalismo. Ou seja, enquanto a sociedade ocidental considera que todos os povos possuem uma mesma natureza (ou biologia) e se diferenciam em suas culturas (ou essências), a maioria das sociedades indígenas da América possui uma concepção contrária: suas sociedades são compostas por seres que partilham uma espiritualidade (cultura/essência), mas que se diferenciam em seus corpos (natureza/biologia)." Ou seja: quando você atira na testa de alguém a bala atinge sua própria nuca. 

Assim, a ideia essencial do perspectivismo é a de que tudo é humano, artificial, quer dizer: a própria natureza é humana, artificial; logo, tudo o que é humano é natural também. Tudo tem sentimento, comunica-se entre si e é interdependente: tudo existe entre si. "Importa apreender aqui que se no multiculturalismo temos o corpo como um elemento universal e a cultura como um particular; no multinaturalismo a cultura converte-se num constante, enquanto que o corpo é diverso." A cultura é a multinatureza. Idelber Avelar é enfático: "uma vez que tudo pode ser humano [antropomorfismo, no jargão], ser humano já não é algo lá tão especial...". Em outras palavras, a própria estrutura da existência é humana: "Recordemos sobretudo que, se há uma noção virtualmente universal no pensamento ameríndio, é aquela de um estado original de indiferenciação entre os humanos e os animais, descrito pela mitologia6. Os mitos são povoados de seres cuja forma, nome e comportamento misturam inextricavelmente atributos humanos e animais, em um contexto comum de intercomunicabilidade idêntico ao que define o mundo intra-humano atual. A diferenciação entre "cultura" e "natureza", que Lévi-Strauss mostrou ser o tema maior da mitologia ameríndia, não é um processo de diferenciação do humano a partir do animal, como em nossa cosmologia evolucionista. A condição original comum aos humanos e animais não é a animalidade, mas a humanidade. A grande divisão mítica mostra menos a cultura se distinguindo da natureza que a natureza se afastando da cultura: os mitos contam como os animais perderam os atributos herdados ou mantidos pelos humanos. Os humanos são aqueles que continuaram iguais a si mesmos: os animais são ex-humanos, e não os humanos exanimais7. Em suma, "o referencial comum a todos os seres da natureza não é o homem enquanto espécie, mas a humanidade enquanto condição" (Descola 1986:120)." (isso é de Viveiros de Castro, segue link abaixo)

Digo tudo isso porque hoje fiz algo que me pareceu perspectivista. Recentemente, eu comprei uma bicicleta, após ficar muitos anos sedentário, apenas andando de carro, pelo qual eu tenho muito afeto. Mas desde que comprei a bicicleta, também me afeiçoei dela demais. Daí, hoje fui andar de bicicleta, e por acaso, passei pela frente do meu carro. O que aconteceu em minha mente foi muito engraçado: eu olhei pro meu carro, e o 'apresentei' pra minha bicicleta: "veja, carro, esta é minha bicicleta", e imaginei eles se conhecendo. Comecei a rir sozinho desse pensamento. E para o que ele aponta? Para o fato de que tudo que existe existe como humano: eu, minha mãe, meus amigos, o cachorro, o ar, o céu, o planeta, o universo, a própria existência... e meu carro e minha bicicleta! Chama-se quiasma em psicanálise (influenciada por Merleau-Ponty). Lacan dá o exemplo: "tá vendo aquela lata ali? Pois ela não tá te vendo não". Você já se sentiu olhado por algo não-humano? Ou pior, por algo não vivo?

É engraçado como que quanto mais eu ando de bicicleta mais eu me sinto uma...

Palestra de Idelber:


Texto sobre perspectivismo, por Viveiros de Castro:


Wiki sobre perspectivismo: 

domingo, 16 de junho de 2013

Cuidado com o povo!

Em primeiro lugar, quero deixar claro que, diante da impossibilidade de agradar gregos e troianos, farei o que é possível: não me preocupar em agradar nenhum dos dois. Apenas escrever sobre o que vi na Manifestação em Belo Horizonte no dia 15/06/2013 e sobre o que li após o evento. 

Bom, cheguei à Manifestação quando ela já se encontrava na avenida João Pinheiro. Vi muita gente. Grande maioria de jovens, suponho que entre uns 15 e 35 anos - o que já indica uma sintomática: onde estão os nossos pais - aqueles na faixa dos 50, 60 anos? Por quê eles também não se juntaram ao protesto? É uma manifestação de filhos? 

Outra coisa evidente foi a heterogeneidade de causas em manifestação. A criação do evento na internet definiu o protesto contra a tarifa de ônibus, mas o que se viu na rua foram os mais diversos motivos para protestar: corrupção fora de controle na política, hipocrisia e lavagem cerebral da mídia mainstream, leis e projetos políticos claramente segregatórios, violência estatal, simpatias quanto a outros movimentos sociais (como em SP e Turquia), liberdade de expressão, etc. O movimento social se considerava APARTIDÁRIO, ou seja, sem um partido político definido. No entanto, como o movimento era heterogêneo e pregava a liberdade de expressão, obviamente haviam bandeiras de alguns partidos. Isso irritou aqueles que eram adeptos do 'apartidarismo' de modo que houveram vaias e protestos contra os próprios protestantes (não estou falando da religião, é claro). Esse fato, por si só, mostra que o que se chama de movimento apartidário é, em si mesmo, um partido: o partido dos que não querem partido. Uma oposição política, partidária, foi criada dentro da manifestação, deixando claro não existe posição política no mundo que não seja partidária - especialmente as que se consideram apolíticas. No seio mesmo da manifestação há o partido partidários e o partido dos apartidários. Como o filósofo Slavoj Zizek nos diz: "Na sociedade humana, a política é o princípio estrutural que a tudo engloba, assim, qualquer neutralização de algum conteúdo parcial indicando-o como “apolítico” é um gesto político par excellence". Isso é outra maneira de dizer que o modo com que uma pessoa constitui seu ser no mundo (seja ser atleticano, brasileiro, petista, homem, professor, etc.) é um gesto político, de modo que inventei o nome de 'ontopolítico' para dar conta dessa indiferença entre o ontológico e o político. Cada pessoa da manifestação foi lá com seu ser, ou seja com seu partido. 

Também ouvi críticas à manifestação dizendo que essa heterogeneidade não diz exatamente o que quer, que fica um movimento disperso e sem propostas concretas. Ora, mas isso já foi dito sobre os movimento Occupy que se espalharam por todo o mundo. A pergunta a eles foi: "o que vocês querem?" pergunta sobre o desejo por excelência. Como se sabe, não havia um plano concreto, com propostas concretas e efetivas para mudar o sistema político-econômico vigente no mundo sob a forma do capitalismo. Até porque não se sabe ainda como produzir um novo sistema: ainda não se consegue ver além do horizonte capitalista. Zizek, que esteve em NY ano passado para um discurso no local do movimento, apontou para o fato de que conseguimos imaginar várias formas de o mundo acabar (lembram do 'fim do mundo' do ano passado?), mas não consegue imaginar um sistema não-capitalista que não recaia nos fracassos socialistas do passado. Ou seja, as pessoas não sabem muito bem o que querem; no entanto, no momento não é esse o ponto mais importante da onda de protestos. O IMPORTANTE AGORA É SABER O QUE NÃO QUEREMOS. Tanto Zizek quanto Vladimir Safatle, que também discursou para o Occupy SP dizem isso: "As pessoas que passam por aqui não veem palavras de ordem, no sentido forte do termo. Tipo, 'queremos isso, isso e isso'. A princípio, isso pode parecer um problema. Mas eu diria que isso é uma grande virtude. Por quê? (...) Para que novas propostas apareçam, é necessário que nós saibamos quais são os verdadeiros problemas. (...) Porque sentimento de insatisfação, angústia diante do presente, vocês estão descobrindo que o mundo inteiro tem. Esse é o motor da crítica; é o profundo sentimento de mal-estar e de desconforto que vocês sentem, e por isso vocês estão aqui". Essa é para mim, a "causa" que está levando tanta gente diferente às ruas: o mal-estar. Os nomes desse mal-estar, dessa causa do desejo, são diferentes para cada sub-grupo, mas se tantas diferenças partidárias estão nas ruas, juntas pelo menos no ato de estarem lá fora, é porque há, sim, alguma unidade disso tudo. Se tem algo que faz os seres chamados 'humanos' verdadeiramente humanos, é sua capacidade de dizer NÃO a quaisquer esquemas já dados, sejam eles naturais ou culturais. Nenhuma das conquistas tecnológicas ou sociais partiram do 'sim'. Pensem nos pré-históricos: a escuridão incomodava. Eles desejavam a não-escuridão, mas não sabiam como produzir luz à noite. Foram anos até saberem que queriam 'o fogo'. E mais vários anos até conseguirem produzir o fogo. Antes do sim, ou seja, antes do nome do que se deseja, o desejo deseja o não-isso. Isso é o fundamental nessas manifestações. É claro que será necessário pensar no que fazer. Mas é num momento posterior à emergência do desejo enquanto tal, que não tem conteúdo: o desejo é desejo de não-isso, é um desejo de oposição. Esse é o momento que estamos vivendo: o de um emergência do Desejo, em larga escala, na política mundial. 

Parece-me que um dos grandes desafios desses neo-movimentos é justamente o de conseguirmos lidar com tantas diferenças que se unem: continuar unidos, suportando (no sentido de aguentar as diferenças dar-lhes suporte) e sustentando essas mesmas diferenças - continuar unidos, mesmo 'partidos'. Não penso que 'partidos políticos' (os tradicionais) devam ser banidos das manifestações, como muitos opinam: todos os partidos estão lá pelo mesmo mal-estar; este último, sim, independe de partido - não é à toa que tantos '(a)partidos' estão nas ruas. Entendo que, no geral, o próprio movimento de manifestações são o único e verdadeiro partido de 'oposição' que existe no país. Oposição aqui entendida como a capacidade humana de dizer o NÃO à situação (política) que se apresenta no momento. Os protestos formam um partido apartidário - o que não os exime de serem um partido, já que são uma parte da sociedade, oposta ao governo. Isso precisa ser admitido pelos manifestantes para que uma maior coesão e organização, necessários para futuras reivindicações e propostas mais concretas. Não existe posição 'apolítica' que não seja política - o que certamente é uma dificuldade para se compreender o que significa esse novo modo de fazer política, em que uma dissolução partidária se apresenta de dentro dos próprios partidos. Não temos condições de compreender isso nesse momento, em que os eventos estão no seu surgimento e desenrolar - isso terá sido compreendido apenas num momento posterior (e não sabemos quando) ao que está acontecendo. Nesse meio tempo, que consigamos acolher o máximo possível as diferenças que convergem para um mesmo objetivo: o de dizer não, de protestar.

Cito longamente Luiz Eduardo Soares, cientista social, em suas reflexões sobre os eventos - e que fala bem melhor que eu:

"não sei o que esse movimento, em sua heterogeneidade, está inventando e nos está dizendo, e está dizendo a si mesmo, ao constituir-se. Não sei que narrativa nova produzirá, ou melhor, já produziu. E aqui estão as perguntas que me parecem chave: por que, no marasmo gerado pelo ceticismo político, tantos vão às ruas, apaixonando-se pela ação coletiva, correndo risco de ferir-se, ou mesmo morrer, ou de ser preso? Qual o novo sentido de um grupo que se forja nas redes e nas ruas, tecendo sua unidade na diferença, caminhando lado a lado, experimentando uma solidariedade de outro tipo, uma fraternidade sem bandeiras, a despeito da (e por causa da) multiplicidade de desejos provavelmente muito diferentes e objetivos difusos?

A força da multidão foi reencontrada pelos jovens e pelos cidadãos que passam perto e se deixam atrair pelo magnetismo de um pertencimento precário, provisório, sem rosto, mas com alma. Que alma tem o movimento? Sim, intuo, suponho, sinto que ele tem alma, isto é, uma unidade toda sua --não verbalizada-- e uma personalidade. Intuo que esta alma não seja aquela que se derivaria –como o negativo ou o avesso-- de uma comparação com o que sabemos: não sendo, o movimento, organizado ao modo antigo, deduzir-se-ia que seria inorgânico; não tendo uma plataforma clara e uma visão compartilhada que incorporasse as mediações, deduzir-se-ia que seria irracional, despolitizado, quando não selvagem. As visões negativas correspondem ao preenchimento das lacunas de nossa ignorância com as figuras do que já sabemos. Creio que nos conviria optar pela humildade, em vez de precipitarmo-nos em julgamentos e análises. Não me parece razoável dizer o que o movimento não é tomando as gerações passadas por molde e vendo como irrealização e incompletude aquilo que é simplesmente diferente e ainda não conseguimos compreender. Há no movimento magnetismo, há conexão metonímica com questões centrais para o Brasil e o mundo, há um diálogo tácito, consciente e inconsciente, com a humanidade em escala planetária, com nossa memória social e com a tradição de nossa cultura política. Há coragem de perder o medo e de renunciar à apatia. Há, nesses eventos, no movimento pelo passe livre, ou dê-se a ele o nome que se queira, a disposição de aprender, fazendo. Há coragem para criar e, portanto, para errar. De nossa parte, os anciãos e os governantes, autorreferidos e inseguros, ameaçados em nossos esquemas cognitivos e práticos, caberia escutar, acompanhar, respeitar, repelir a violência policial (e qualquer outra), admitir nossa ignorância, e considerar a hipótese de que algo novo esteja surgindo e essa novidade talvez seja virtuosa e republicana, quem sabe a reinvenção da política democrática. Talvez a melhor forma de escutar seja tentar unir-se ao coro, na rua. Para (re)aprender a falar."

Fecho meu comentário com um pedido e um alerta para os governos: CUIDADO COM O POVO!!




Zizek em Occupy NY:


Safatle em Ocuppy SP:




sábado, 25 de maio de 2013

Reflexões do (Contra)-Tempo

Falar de alguma música, especialmente instrumental, não é tarefa fácil. Isso porque o dizer da música não é dito em palavras; e o perigo reside justamente em colocar palavras na boca da música, acaba sendo uma dublagem - e com grandes tendências ao delírio. A música sempre vem antes das palavras, as quais, por sua vez, tentam falar o que a música quer dizer. Mas isso não significa que as palavras estejam erradas quando são pronunciadas; quer dizer apenas que elas não dizem tudo o que se pode dizer de uma música: uma música não esgota seu sentido em palavras. Sempre ficará por dizer... Mas tudo o que se diga sobre uma música é verdadeiro, porque toda interpretação de alguma coisa foi produzida pela coisa que está sendo interpretada, e denota (não 'conota') algo sobre a própria coisa. Só há fatos, não há interpretações.

De modo que arriscaremos aqui dublar uma música de Tigran Hamasyan, pianista 'de jazz' armênio, em seu álbum "Red Hail". Mais especificamente, a faixa "The Glass-Hearted Queen", a terceira do disco. E, mais especificamente ainda, nosso alvo é a arquitetura esquelética da bateria nessa música. Sabemos que tradicionalmente a bateria é considerada a ossatura de uma música, como uma estrutura de vigas que dá a sustentação daquele ritmo. Em inglês ela é conhecida por 'backbone', a espinha dorsal. De modo que ela pode ter um papel crucial no desenvolvimento de uma música, por exemplo, determinando onde é seu tempo e o contratempo; ou pode dar diversas texturas à música, desde um céu estrelado de pratos a um terremoto de surdos e bumbos...

A faixa de Tigran, em seu conjunto, é muito simples. Os instrumentos são baixo e piano em uníssono, fazendo um ritmo meio latino-torto, e a bateria apenas acompanhando essa latinidade armena. O compasso é de nove colcheias. A melodia, por sua vez, é completamente o oposto de algo latino: sax soprano e voz feminina tocam um tema para o qual é difícil achar adjetivo. Mas me parece ser realmente algo mais para o lado do oriente médio, o que mostra como a mistura é inusitada: ritmo e harmonia "latina" com melodia armênia.

O tema se repete duas vezes, com a harmonia repetindo suas nove colcheias incessantemente. Em seguida, ao baixo e piano se acresce uma guitarra com distorção, e, com uma pequena variação, a harmonia se repete com o piano, baixo e a guitarra transformando-a em um heavy-metal (!).

No entanto, esse heavy-metal tem suas peculiaridades: o seu compasso é em nove colcheias, e não em quatro semínimas como vemos na grande maioria dos casos; sua circularidade é mais extensa, digamos assim. Além disso, não tem 'melodia', quer dizer, alguém lá gritando igual ao Max Cavalera. Porém, o mais impressionante aqui é a bateria. Pense o seguinte: a música toda é uma repetição dessa frase em nove, que na parte pesada nem tem melodia, o que reforça ainda mais a sensação de repetição. E isso corre um risco danado de ficar chato: ficar três minutos escutando dezenas de vezes a mesma frase musical. No entanto, é aí que entra o papel genial da bateria nessa música: ela meio que faz as vezes da melodia, introduzindo variações nessa parte da música. Classicamente, as baterias de heavy-metal têm o prato tocando todas as semínimas ou todas as colcheias de um compasso (que geralmente é de quatro semínimas, ou oito colcheias), e tocando a caixa nos tempos pares, nas semínimas pares (nomeadamente a 2 e a 4), enquanto o bumbo se ajusta ao resto do ritmo a partir dos espaços entre as batidas na caixa. Dentro desse esquema há geralmente poucas variações, apenas em viradas, e tal. Pois bem, o que o baterista do Tigran fez foi dilatar esse esquema que ocupa um espaço de quatro semínimas para encaixá-lo em nove colcheias - ele colocou um heavy metal num compasso bastante incomum pra esse estilo. Para tal, o prato, que geralmente toca nas semínimas, passa a tocar a cada uma colcheia e meia (uma colcheia pontuada), ou seja, uma colcheia mais uma semi-colcheia, totalizando seis toques em nove colcheias (que é o tamanho do compasso), ao invés dos tradicionais quatro toques em oito colcheias. Perceba que na comparação, a música de Tigran aumentou apenas uma colcheia enquanto o número de batidas aumentou para duas a mais do que em oito colcheias. Isso dá uma maior sensação de dinamismo para um heavy-metal, ou seja, não fica tão heavy assim: ele anda mais rápido, apesar dos outros instrumentos estarem mais devagar que a bateria - a bateria acelera a música sem aumentar sua velocidade (seu pulso)...

E enquanto isso, o esquema de Metal é mantido na caixa, mas também dilatado para o compasso ímpar. Assim, nas batidas pares do prato (2, 4 e 6 nomeadamente) a caixa também toca. A diferença para o tradicional é que, como o prato toca a cada semínima e meia, seus toques pares são toques em semi-colcheias no compasso, ou seja, um contra-tempo de colcheia. Então os toques do prato são tempo, contratempo, tempo, contratempo, tempo, contratempo. Porém, como a caixa toca a cada dois toques de prato, a impressão geral é a de uma batida binária: tipo "tum-pá, tum-pá, tum-pá", ou seja, algo como seis semínimas no compasso, ao invés de nove colcheias. Como eu disse, é pegar aquele "tum-pá, tum-pá" em quatro do heavy-metal e esticá-lo para ele caber como seis semínimas em um compasso de nove colcheias.

Enquanto isso, o bumbo se articula à caixa (que só toca em contratempos, ou seja, em semi-colcheias) criando ritmos completamente alheios ao heavy-metal. É muito difícil dar um nome para que ritmo se cria aí, mas pelos contra-tempos, associo alguns momentos ao maracatu. Claro que também é harmônico com o heavy-metal em si, porém o metal raramente usa contratempos de semicolcheias como batida de base na bateria, até mesmo para continuar sendo heavy, já que o contratempo sempre tende a dar a sensação de sair do chão (que o tempo representa), oposto ao heavy metal que é como fortes pisadas no chão.

Bom, esse cenário se repete por quatro compassos, e uma virada sutil introduz uma mudança na substância da música. O prato, que até então tocava a cada colcheia e meia, agora toca semínimas, apenas. Agora sim, a música se torna mais próxima do heavy-metal tradicional, tocando as semínimas e a caixa também continua tocando nos pares, que são semínimas agora: a música se torna muito mais heavy. O bumbo continua concordando com o ritmo, e se organizando ao redor da caixa.

Em seguida, a bateria repete o esquema anterior por quatro vezes e passa a repetir o esquema seguinte, porém com os pratos batendo as colcheias, preenchendo mais a música. Preparando o final dessa sequência, o prato então muda subitamente para os contra-tempos das colcheias junto com a caixa aparecendo a cada três dessas batidas: é como se os contratempos estivessem sendo tratados como tempos, de colcheia. Daí, há uma sequenciazinha de viradas, e os pratos retomam o ritmo de semínimas, começando pelo contratempo (ou seja, pelas semínimas pares). Isso faz com que a cada compasso de nove colcheias, as batidas de semínimas passam de contra-tempo a tempo e a contra-tempo, etc. E a caixa sempre no esquema metal: uma semínima sim, outra não, marcando "o dois".

Mas após três compassos assim, surge o mais radical da bateria. A última nota do prato antes da mudança não é uma semínima, mas uma colcheia pontuada, o que faz a nota seguinte (a primeira que introduz a mudança) ser no lugar de uma semicolcheia com relação à anterior, o que desloca o centro de gravidade da música para o avesso do avesso da semínima: a semicolcheia (um contra-tempo), que passa a ter o valor de tempo. Quer dizer, as batidas de semínimas, que estavam marcando tempos, como típico do metal, foram deslocadas em um quarto de sua posição anterior - após a colcheia pontuada, as semínimas retornam. A sensação que isso causa é de avessamento do chão do pulso, que empurra a escuta para outra dimensão espacial. É como alguém dentro de uma caixa no espaço sideral, onde não há gravidade: e se eu empurrar a caixa (a 9 m/s/s, velocidade da gravidade da Terra) em uma direção qualquer (cima, baixo, esquerda, direita, frente ou trás) a gravidade surge como o empuxo causado pela aceleração, e você pode ficar em pé na caixa na parte da caixa contrária à direção que se empurra. Mas se nesse trajeto, de repente mudo a direção do empurrão, você sentirá a gravidade na parte da caixa oposta à que estou empurrando agora, de modo que a gravidade muda de lugar dentro da caixa. É exatamente isso que o deslocamento de um quarto das semínimas da bateria causa na música como um todo: a guitarra e o baixo passam também a ser "vistos" como tendo seu centro de gravidade (relativo ao tempo) deslocado para o contra-tempo. Em resumo, a bateria toca em síncopa e puxa o resto dos instrumentos para a sensação de que o sincopado é que é o tempo. Isso mostra aquilo que Argus Montenegro chamou de "instabilidade do tempo forte", quando há uma inversão (se não mesmo reversão) da relação tempo/contra-tempo. 

Essa reversão é da ordem da função topológica do espelho, que é a de avessamento do se coloca em sua frente. E é precisamente essa função que, de acordo com o pensamento da psicanálise, produz o ato-poético, o ato analítico. "a obra de arte é a construção de um espelho. Aonde vige o ato poético, o poeta conseguiu ou terá conseguido construir um espelho", diz o psicanalista MD Magno. "Não se trata da superfície material, mas de repetir a lógica do espelho (...). Por isso que a obra de arte ocupa o mesmo lugar que tenta ocupar o analista, razão pela qual não se pode fazer psicanálise de uma obra de arte e sim ser analisando diante dela". É precisamente o que estou fazendo enquanto escrevo este texto: me analisando. Talvez alguém que esteja lendo possa recolher alguma s'obra de arte do que escrevo...

Mas, retomando o raciocínio, podemos pensar que a bateria, no momento chave a que me referi, introduz o espelho na música, avessando radicalmente o sentido topológico (ou seja, a imagem) que a música tinha até então. De modo que digo que há um ato poético do baterista em particular (ou de quem quer que tenha concebido essa bateria) nessa canção. Ele cria, a partir da introdução do espelho, uma imagem avessada da música. Mas seu ato é colocação de espelho; a imagem revertida que surge é apenas a consequência de introduzir espelho lá. "É preciso não confundir, porque quando a obra aponta para o espelho o imbecil olha para a imagem. (...) O poeta constrói esse espelho. É para ele que temos que olhar, e tentar desfazer as imagens". Repito: a bateria, ao revirar o sentido topológico da música, desfaz a imagem que havia nela (de tempo forte) para mostrar como o espelho causa a "instabilidade" dessa imagem - e o que se evidencia aí é o surgimento do espelho: o tempo forte se reflete em contra-tempo.

Faço esse destaque aqui no texto porque não é lá muito comum associarmos uma batida de bateria, especialmente uma inspirada em Heavy Metal, com poesia: isso geralmente cabe aos instrumentos harmônicos, como piano, violão, etc. Por isso, achei que merecia ser comentado em suas minúcias. Poesia é algo que pode acontecer em qualquer lugar, em qualquer profissão, em qualquer prática. Por isso, psicanálise (enquanto ato poético, ato psicanalítico) é algo que ocorre não apenas dentro de consultórios, mas por aí, mundo afora. No entanto, é algo raro. É preciso estar atento para não deixar momentos assim escaparem. Sabendo escutar (ou ver, ou saborear, ou tocar, ou cheirar) esses momentos, temos mais chances de produzi-los. 

Eis a música - o momento chave está em 2:59 - 3:00. Quando a música se avessa, ela dá o fade, mostrando que é seu fim - até porque depois desse revirão, só resta dizer o que um analista diz quando arrisca um ato: "ficamos por aqui", tipo assim: vai dormir com essa - reflita!


REFERÊNCIA: MD Magno, "Psicanálise e polética" p. 250-1

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Nomeio da pedra

Para Raquel 


Tinha um caminho no meio da pedra
No meio da pedra tinha um caminho
Tinha um caminho
No meio da pedra tinha um caminho.

Sempre me lembrarei desse acontecimento
Na morte de minhas retinas tão fustigadas.
Sempre me lembrarei que no meio da pedra
Tinha um caminho
Tinha um caminho no meio da pedra
No meio da pedra tinha um caminho.

Do retorno a Freud ao retorno DE Freud

Freud existe há 157 anos hoje. A importância que ele têm para as profundas transformações que ocorreram no século 20 é gigantesca, tendo influenciado largamente o que se chama de cultura ocidental; na pintura, na poesia, na ciência, nas relações sociais, todos conhecem suas expressões, como 'inconsciente', 'complexo de édipo' e, principalmente, 'recalque' - hoje em dia é comum ouvir na novela que fulana tá 'recalcada'.

Isso no entanto não quer dizer que se entenda o que ele realmente queria dizer com tais conceitos... muitas vezes nem ele sabia assim tão bem. Mas à época de suas descobertas, no início do século passado, foi o pensamento mais de ponta que havia - junto com a física quântica. Até hoje, há imensas discordâncias sobre o que seus conceitos realmente significam.

Foi por isso que no meio do século passado veio um Jacques LAcan, um francês, e, diante da pletora de 'compreensões' da obra do austríaco veio propor um "retorno a Freud", ou seja, sentar e reler tudo o que ele disse, mas a partir do paradigma da linguagem. A estrutura do inconsciente freudiano é a própria estrutura da linguagem, ou seja, um sistema de significação. Esse passo dado por Lacan esclarece muito, facilita (apesar da complexidade) entender a lógica do inconsciente.

Mas mesmo Lacan percebeu que isso não explicava tudo; ficou seus últimos anos tentando entender o inconsciente a partir da matemática e da topologia (ramo da matemática que estuda superfícies). No final de seu ensino, era uma zorra: ficou mais confuso do que esclarecido - por isso é que ele dissolveu a escola que ele próprio havia fundado para começar outra, para a qual selecionou apenas alguns 'afortunados'. Isso para que as pessoas começassem a pensar por si sós e parassem de repetir as fórmulas lacanianas sem entender o que estavam dizendo.

Desde então, não houve uma grande revolução do pensamento psicanalítico... é o que dizem. Mas há um brasileiro, que foi aluno de Lacan nos últimos anos de seu ensino, que fundou uma das primeiras escolas de psicanálise lacaniana do Brasil (o colégio freudiano RJ), e desde a morte do mestre francês, põe a cara a tapa para reformular e unificar todo o pensamento da linhagem freud-lacaniana. MD Magno propõe não um retorno a Freud, nem um retorno a Lacan (que é um fenômeno que parece despontar aqui no país), mas sim um retorno DE Freud, da postura freudiana de, arrisco a dizer, redescoberta do inconsciente. Dizer que o inconsciente é estruturado pelo complexo de édipo acabou quando Lacan disse que o inconsciente é estruturado como linguagem. Mas, como o próprio lacan o fez, dizer isso ainda não basta. Especialmente após sua morte, que foi há trinta anos, o que é que significa dizer 'a linguagem'? Muita coisa mudou em todos os campos do saber e uma definição lacaniana como essa já não se sustenta há muito tempo. No entanto, ensina-se lacanismo nas universidades como 'um museu de grandes novidades'. Triste, pois 'o tempo não para'.

Ora, o que Lacan fez foi simplesmente dar a seus alunos todas as condições de se desvencilharem da repetição de dogmas lacanianos para pensarem a partir do que ele ofereceu - não pra ficar repetindo. E isso, MD Magno fez e faz: desde 1975 ele se apresenta quinzenalmente para quem quiser ouvir seu modo de entender a psicanálise - servindo-se de Lacan para dispensá-lo. Nada mais analítico que isso: o analista deve ser capaz de re-produzir a psicanálise também teoricamente. Caso não saibam, MD Magno está vivo e produzindo sua teoria, que é um work in progress, assim como a análise - ela é infinita. Esse trabalho é importante, porque a teoria que se adota pra uma prática clínica tem peso sintomático que atrapalha o próprio movimento analítico. Quanto menos sintomática for a teoria, menos se torna a clínica. E vice-versa.

Se Freud é alguém que inicia o século XX - com a sua Interpretação dos Sonhos  - Lacan é quem encerra esse século. Isso porque o século XXI se inicia justamente na década em que ele morreu: a crise dos fundamentos, iniciada lá mesmo com Freud, ganha novo ímpeto a partir da revolução tecnológica que ocorre com os anos 80 e da qual cada vez mais colhemos os efeitos (é só ver por exemplo como a internet muda nossa maneira de lidar com a informação, com a politica, com a sexualidade, etc.). Lacan não tinha uma teoria para dar conta dos efeitos dissolventes da tecnologia. Esses efeitos dissolvem, só pra ficar com os pontos mais importantes e também polêmicos, a distinção entre natureza e cultura, entre físico e psíquico, e entre homem e máquina. Sim, é forte falar isso, né? É virulento! Como a peste que Freud anunciava no início do século passado pra falar da descoberta do inconsciente. É precisamente disso que a psicanálise precisa hoje: redescobrir a si mesma. Nisso, Magno é mais freudiano que Freud e mais lacaniano que Lacan: leva às últimas consequências todo o trabalho desses dois gênios. Por isso é que sua atitude representa um retorno DE Freud, da postura de redescobrir o pensamento freudiano, porque esse pensamento "é o mais perpetuamente aberto à revisão. É um erro reduzi-lo a palavras gastas", como disse Lacan no seu primeiro ano de ensino público, justificando assim sua intromissão no legado freudiano. Magno não é perfeito, e ainda haverá de aparecer alguém que seja mais 'magniano' que o próprio Magno. Mas no momento é o pensamento mais de ponta, que se articula o mais amplamente possível com todo o movimento científico, tecnológico, social que estamos vivendo... E é bom corrermos atrás, porque já-já chega o século XXII e nós ainda nem saímos do XX. Que Freud continue reencarnando em Lacans e Magnos do devir...

Bem-dita seja a psicanálise! Senão...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Não existe Sexo

O que a psicanálise trouxe com o nome de Pulsão é o fato de que quaisquer que sejam os objetos de satisfação de alguém, alguma coisa sempre restará por ser satisfeita. Essa 'alguma coisa' que não se atinge, por mais satisfação que um objeto qualquer lhe dê, foi chamada por Lacan de objeto a: objeto esse que é inatingível, porém é o ponto para o qual todos os objetos de satisfação convergem. Quando se toma um objeto como algo com que se satisfaz, ele está apenas entrando como substituto do objeto da satisfação absoluta - que é o objeto a

Quando Freud fala que a pulsão é sexual (mesmo a de morte) está dizendo que 'sexual' significa um atingimento de satisfação qualquer - seja ela sexual (genital) ou não. Para a definição de sexual importa é que existe um sujeito que deseja um objeto: uma coisa quer outra, e a satisfação que se obtém com o objeto é sexual. No entanto, Freud mostra que é possível tomar o próprio sujeito como objeto sexual: daí a masturbação, que é uma coisa que se satisfaz em si mesma - Freud falava que era uma satisfação auto-erótica. Assim, podemos dizer que o sexo implica o outro, é heterótico; masturbação implica o mesmo, é aut'erótica.

Lacan fala que a pulsão não atinge seu alvo (obj. a), mas o circula num circuito repetitivo, insistindo, a partir de um objeto qualquer, em chegar no objeto impossível. Isso porque a pulsão não se contenta com 'objetos de desejo': ela quer sempre mais. Ela quer o objeto que a faria parar de querer, pois querer é afirmar que não se tem o que se quer. O desejo da pulsão é o de não desejar. Mas como dissemos, não há objeto que satisfaça a pulsão, que a faça parar de querer - o objeto a não existe, a não ser como a presença da ausência do objeto pleno da pulsão. A pulsão quer não existir; se qualquer coisa (objeto) existir, a pulsão quer o além dele (Freud chamou a isso de além do princípio de prazer proporcionado pelo objeto qualquer); aliás, ela quer o além de si mesma: ela quer o Outro, o transcendente. Mas esse transcendente não há. E é precisamente porque ele não há que ela o quer.

A pulsão, como tal, é uma imanência: ela não escapa de si mesma, não chega ao desejado e impossível transcendente. Fica condenada a satisfações parciárias dentro da própria imanência. A repetição é prova disso: um objeto qualquer é tomado como O objeto pulsional, e a força da pulsão é aplicada a ele como se fosse o objeto a. E a própria insatisfação quanto à incompletude desse objeto qualquer compele à re-petição (que significa pedir de novo, e de novo, e de novo... por um objeto que não há). Quando Lacan fala que a pulsão circula o objeto, isso quer dizer que a pulsão tem que se satisfazer em si mesma, na sua própria imanência, pois não há objeto a (transcendência) para se atingir como alvo. Se a pulsão atingisse seu objeto ela simplesmente cessaria. Por isso, Freud a chamou de pulsão de morte: só a morte pararia a pulsão. Mas não porque com a morte se chegou ao objeto a, mas sim porque na morte não há mais organismo biológico que sustente a pulsão - da mesma forma que um animal morto não tem instintos, um humano morto não tem pulsão. A morte é só uma fantasia para se falar do objeto a.

Se definimos o sexo como dependente de um outro, no caso da pulsão de morte, seu objeto sexual é o transcendente objeto a. Mas ela nunca conseguirá estabelecer uma relação sexual com esse objeto, pois ele não existe - o objeto a apenas representa a inexistência radical de um objeto adequado pra  satisfazer a pulsão; já a pulsão existe, prova de que não se chegou ao objeto. A pulsão não consegue fazer sexo com outra coisa a não ser consigo mesma, em si mesma - não há satisfação pulsional para fora da pulsão. O objeto sexual da pulsão não existe, é uma fantasia que lhe é estrutural, imanente. Ou seja, pulsão não faz Sexo (enquanto atingimento da satisfação do transcendente): pulsão se masturba (como atingimento de satisfação na imanência), é o máximo que ela consegue. Lacan dizia que não há relação sexual, querendo dizer com isso que não existe objeto pra pulsão. Mas acaba que, se levado ao pé da letra, dizer que não há relação sexual é dizer que não há Sexo como tal: o sexo nunca se realiza, a não ser como masturbação, como re-petição de sexo. A relação sexual transcendental desejada pela pulsão, como desejo de não desejar, representado pelo objeto a, não existe; o que resta, o que existe de fato é a imanência do próprio desejo de não desejar, que tem que se 'satisfazer', de algum modo, com a própria existência. Como se diz no popular: se não tem Tu, vai tu mesmo.

Mas e o que dizer do sexo que as pessoas fazem todos os dias? Só posso dizer que transar é masturbar-se através de outro corpo. As pessoas SE masturbam durante o coito - mas não fazem sexo. A única relação sexual SERIA com o objeto a - mas ela é impossível... Transar e gozar (também no sentido psicanalítico) não acabam com a pulsão, pelo contrário: mostram que, mesmo com essa 'petit mort' ('pequena morte', que é o termo em francês para orgasmo), continuamos bem vivos, e insatisfeitos porque desejamos de fato é a Grand Mort - pena que esta, não existe.