Para aqueles que não sabem, (e com certeza não serão as pessoas a ler estas 'páginas') algo se passou com o BBB nesta semana do 16/01/2012. Após uma festa movida a álcool, dois participantes, um modelo e uma dentista, vão para 'debaixo do edredon' (sintagma popularizado pelo programa, que significa transar). A imagem mostra o rapaz se movimentando sexualmente sob o edredon e a rapariga aparentemente não está se movendo. E o nome dessa imagem nas redes sociais se tornou algo como "moça desmaiada de tanto beber sendo estuprada por homem bêbado", por motivos óbvios.
No dia seguinte, Monique disse para um participante que "só se ele foi muito mau-caráter pra ter feito sexo comigo dormindo", indicativo de que ela não teve 'consciência' das investidas de Daniel. Até onde acompanhei (o caso, não o programa, rs), não fiquei sabendo de quaisquer declarações do rapaz. de modo que é razoável presumir que um crime ocorreu dentro do programa. O próprio envolvimento da polícia, que entrou na casa, se conecta aos outros fatos. Daniel foi expulso 3 dias depois do ocorrido.
Pois bem, aproveito o ensejo para fazer uma distinção no conceito do programa: reality show. Uma reportagem da R7,empresa de notícias do Edir Macêdo, o Bispo da Record, - com muita satisfação, diga-se de passagem - fala no título da matéria que "o Big brother não existe mais". Fiquei curioso sobre como ela explicaria essa frase. A reportagem explicita, adequadamente a meu ver, que TV globo (não a internet) não disse qual 'regra do programa' (!) havia sido infringida por Daniel, nem no Jornal Nacional, que noticiou o caso, nem no próprio BBB, numa clara censura em dizer o conteúdo sexual da infração. Ora, uma vez que a grande maioria dos telespectadores de BBB não têm acesso à internet (único meio em que a palavra "sexual" foi explícita), esse público não ficou sabendo do que se tratava: ficaram "boiando". Outro ponto citado é que nenhum 'brother' ou 'sister' comentou a expulsão, o que indica que foram instruídos a se calarem sobre isso. Segundo a R7, seria óbvio que a "a manipulação (da direção do programa) é total, afinal não se elimina alguém dessa maneira sem gerar a curiosidade das outras pessoas. Monique, diretamente envolvida no caso, ficou fazendo cara de paisagem o tempo todo". E, mais enfática ainda, conclui: "o BBB perdeu completamente o sentido de existir do jeito que é hoje. A atração passou a ser assumidamente uma novela, com roteiro e um diretor comandando tudo, ocultando e mostrando o que deseja", porque "perdeu o seu conceito principal que é mostrar a realidade".
É precisamente aqui que quero fazer minha distinção entre realidade e real. Em psicanálise, os conceitos se entrelaçam, mas não se confundem. Freud mostrou que a realidade de alguém não é algo imparcial, neutro, exterior ao sujeito, mas pelo contrário, ela é impregnada de fantasias, conteúdos, morais, etc. Uma realidade não é "a vida como ela é", pois a vida (ou seja, a realidade) é moldada para atender nossas exigências (morais, est'éticas... enfim, pulsionais). Como se chegou a esse conceito? Justamente por que a psicanálise entende que para um ser humano, um fato é o que ele acha que o seja. Não há algo como interpretação da realidade porque uma realidade é um fato de quem interpreta a vida. Só dá pra tratar alguém em análise quando se entende isso: uma interpretação, uma versão de um fato (digamos um trauma) é um outro fato (o nome do trauma) se conectando ao primeiro. A nomeação de um trauma constitui o próprio trauma, numa temporalidade retroativa. Por isso, ambos são fatos, o acontecimento e o nome do acontecimento. São eles que constituem a realidade e a asseguram, pois realidade é algo muito frágil, apesar de sua força massiva; ela precisa de se impor, se insistir, se repetir, senão sua arquitetura rui instantaneamente ao menor equívoco. A psicanálise descobriu que só pode agir caso entenda que só há fatos, não há interpretações. O que alguém 'interpreta' da vida são os próprios fatos simbólicos da sua vida. Aí sim, poderíamos dizer "a vida como ela sou"...
Já o real nada tem de realidade, pois é o que rompe com ela. Ele é o agente de modificação das realidades. Me explico: quando o fato "estupro" surgiu, a realidade tal como era no programa foi manchada, eternamente modificada, pois agora o BBB não é mais o mesmo: um crime ocorreu na casa, "chegamos ao fundo do poço", etc. Esse colapso de uma realidade anterior a um fato e sua reconstrução subsequente como outro fato é o denotativo do real. Cito (de novo, e ainda) um grande linguista, J.-C. Milner, que estudou muita psicanálise: "num instante fora do tempo, num espaço fora do espaço acontece como que uma escansão nua, cuja atestação reside apenas nos efeitos de dispersão que ela acarreta. Contanto que um sujeito consiga suspender a demanda das significações ligadas [realidades], um sinal é certo, e é o horror [olha o estupro aí]. [...] o horror instantâneo nasce de uma nomeação que ao mesmo tempo o suspende. [...] Nada aconteceu, senão que, nesse nada que separa um antes de um depois, ao sujeito aconteceu um real". Como nomear o que aconteceu na casa? "Violação de regras do programa?" "Estupro"? "Tentativa de estupro"?Virtualmente, o real se presta a qualquer nome, a qualquer realidade, mas seu nome será uma limitação a todos os outros que seriam possíveis; quer dizer, sempre uma realidade a cada vez, a cada nome.
O real é pura denotação, ou seja, o inexplicável, o susto, o próprio rompimento do estabelecido, enquanto a realidade é o conotativo, sempre fantasiado, sempre metafórico e sempre reconstruído: é a lenga-lenga nossa de cada dia. Digamos que realidade é um termo a ser usado no plural, já que cada um tem a sua, enquanto só há um real, pois que ele é o próprio Um (ou melhor, o próprio nome do Um)... "O que não tem nome, nem nunca terá". Todo mundo entende o que ninguém sabe...
Podemos ver, por exemplo, que, como bem colocou a Record, a 'manipulação' do acontecimento, ao dar o nome de 'violação da regra do programa', tenta constituir um outro fato, que não seja "estupro", ou "abuso sexual", fatos que trariam mais problemas para a emissora caso fossem pronunciados. E os participantes foram instruídos a não dar novos fatos, ou seja, se calarem para que o assunto seja encerrado. Claro que a Globo defendeu seus interesses nisso, e ocultou os outros (e não 'os verdadeiros') fatos. Imagina se os patrocinadores não ficariam putos de ver seu nome atrelado a "estupro"! A Globo perderia muita grana. Aliás, vai perder, mesmo assim. E o resultado foi que, para muitos brasileiros, os fatos (sem aspas!) foram: "o cara violou uma regra", e não questionaram sobre outros fatos possíveis: compartilharam a realidade da Globo, ao menos naquele primeiro momento de informação. É o famoso "pano quente".
Daí que, ao contrário do que a R7 conclui, mas pelos mesmos motivos, digo que reality show é um nome bem adequado a um programa que quer esconder o real e o usurpa sob o termo realidade... como se mostrasse "a vida como ela é"... como se a vida fosse a mesma para as pessoas. O BBB sempre 'manipulou' o programa, desde a 'democrática eleição' dos 'herois' até as regras de comportamento do programa (a que os participantes se submetem para ganhar o $$), afinal, o programa é deles. E isso não é só na Globo, não. Tá nos jornais mais conceituados, tá em tudo e em todos: cada um criando sua realidade e querendo que outros a compartilhem. Nomeio disso tudo, os turbilhões do mal-entendido se matam e se criam... Sem saber o que fazem...
parabéns, bernardo. claro e verdadeiro.
ResponderExcluirabraço, júlia