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terça-feira, 3 de junho de 2014

A temporalidade quântica do inconsciente

Pobre velha música! 
Não sei por que agrado, 
Enche-se de lágrimas 
Meu olhar parado. 

Recordo outro ouvir-te, 
Não sei se te ouvi 
Nessa minha infância 
Que me lembra em ti. 

Com que ânsia tão raiva 
Quero aquele outrora! 
E eu era feliz? Não sei: 
Fui-o outrora agora. 

(Fernando Pessoa, "Pobre Velha Música" - grifo meu)


O campo aberto por Freud implica uma subversão das noções clássicas da Lógica. O mecanismo significante que ele descobre no funcionamento mental derroga categorias lógicas que até então pensávamos sólidas e definitivas. Uma dessas categorias é justamente a temporalidade entre passado/presente.

Em seu Projeto Para uma Psicologia Científica, Freud nos relata o caso de uma jovem, chamada Emma, que tinha ‘compulsão de não poder entrar em lojas sozinha’. Ao ser questionada sobre os possíveis motivos para tal sintoma, Emma apresentou uma lembrança da época de sua puberdade (12 anos), na qual entrou em uma loja para fazer compras. Ao reparar em dois vendedores que riam, foi tomada por um ‘afeto de susto’ e saiu correndo do local. Essa justificativa se apresenta incompreensível para Freud, que resolve investigar mais a fundo como esse sintoma se determinava.

No curso da investigação, Emma apresenta uma segunda lembrança, a qual, segundo ela própria, não havia passado em sua mente durante a cena da puberdade: aos 8 anos, ela estivera em uma confeitaria para comprar doces. O proprietário tocou-lhe os genitais por cima da roupa e sorriu. Emma saiu correndo. Apesar disso, ela retornou a esse lugar uma segunda vez, e ao relatá-lo, recriminou-se por tal. Após essa segunda vez, não voltou mais à confeitaria.

Freud, então, elucida o sintoma (não entrar em lojas sozinha) ao combinar as duas cenas (aos 12 e aos 8 anos). O riso dos vendedores associou-se ao riso do proprietário da confeitaria; além disso, em ambas as situações, ela estava sozinha. “A lembrança despertou o que ela certamente não era capaz na ocasião [da primeira cena], uma liberação sexual, que se transformou em angústia. Devido a essa angústia, ela temeu que os vendedores da loja pudessem repetir o atentado e saiu correndo” (FREUD, 2006, p. 408). Assim, através do riso, como vínculo associativo entre dois diferentes momentos, a segunda cena reativou a primeira, constituindo-a como o trauma que determina o seu sintoma. “Temos aqui um caso em que uma lembrança desperta um afeto que não pôde suscitar quando ocorreu como experiência, porque, nesse entretempo, as mudanças [trazidas] pela puberdade tornaram possível uma compreensão diferente do que era lembrado” (FREUD, 2006, p. 410 - grifo meu). O acontecimento, que era lembrado de uma determinada maneira, sofreu influência de outro acontecimento, posterior, passando a ser compreendido então de uma maneira diferente; a própria lembrança muda de significado, o que implica que o próprio acontecimento passa a ser outro em nível psíquico - o passado muda e sua verdade se altera.

Esse modo pelo qual a segunda cena determina, pela contingência do elemento riso, a primeira cena enquanto traumática “mostra uma estrutura temporal de ordem mais elevada” (LACAN, 1998a, p. 853) e logicamente não-clássica, em que um evento posterior determina (ou re-determina) um elemento anterior como sua própria causação. Lacan destaca no texto de Freud essa temporalidade do inconsciente e a conceitua como ‘a posteriori’, ou seja, como a retroatividade do efeito significante.

Freud exige uma objetivação total da prova quando se trata de datar a cena primária, mas supõe, sem mais aquela, todas as ressubjetivações do acontecimento que lhe pareçam necessárias para explicar seus efeitos a cada volta em que o sujeito se reestrutura, isto é, tantas reestruturações do acontecimento quantas se operem, como se exprime ele, nachträglich, a posteriori. Mais ainda, com uma audácia que beira a desenvoltura, ele declara considerar legítimo elidir, na análise dos processos, os intervalos de tempo em que o acontecimento permanece latente no sujeito. Ou seja, ele anula os tempos para compreender e em prol dos momentos de concluir, que precipitam a meditação do sujeito rumo ao sentido a ser decidido do acontecimento original (LACAN, 1998, p. 257-8 - negrito meu).

O período em que o acontecimento original permanece latente no sujeito (entre as duas cenas) significa que seu sentido, sua posição psíquica como trauma ou não, permanece indeterminada até que alguma contingência a posteriori decida se e o que realmente aconteceu. De modo que o passado se atualiza enquanto trauma na contingência em que um outro acontecimento no presente o determina. É como se o evento passado ficasse no limbo, suspenso em possibilidades (de ser trauma ou não), até que o presente constitua a significação do que se passou, determinando ou não o traumatismo de um evento. Assim, é num momento posterior que o que houve anteriormente se constitui como tendo ocorrido de determinado modo. Mas até que essa contingência no presente atualize o passado, não há uma localização espacial, topológica, para ele.

Lacan diz que “o que se produz no nível do significado tem sempre uma função retroativa” (LACAN, 1998a, p. 490), de modo que o presente constrói o passado enquanto significado, enquanto tendo um determinado lugar na estrutura psíquica - é de uma retrodeterminação que se trata. Se o riso dos vendedores não tivesse ressoado retroativamente em Emma, ela não teria usado a cena primária para constituir seu sintoma. Assim, essa cena primária não teria se constituído como um trauma para ela, ou seja, não teria ocupado o lugar que passou a ocupar em seu psiquismo; seu lugar teria sido outro. Antônio Teixeira nos mostra exatamente isso ao dizer que é “inútil buscar um meio de prever porque o riso dos vendedores assustava tanto a senhorita Emma” (TEIXEIRA), pois não era necessário que, por ter ocorrido a primeira cena, Emma ficasse assustada com o riso dos vendedores - poderia ter sido qualquer outro elemento em comum com a outra cena: o fato de ser uma loja, o fato de ela estar sozinha, etc. No entanto, foi esse significante (“riso”) que ressoou em sua mente, de maneira contingente, e determinou que a primeira cena desencadeasse o 'afeto de susto' e o sintoma. “A necessidade, portanto, dessa significação traumática nasce da contingência do encontro com a cena do riso que, por si só, não estava destinada a produzir esse sentido. Mas é somente por meio do dado material desse elemento contingente que a significação traumática se efetua” (TEIXEIRA, a). Slavoj Zizek tem uma maneira incrível de expressar a contingência da necessidade ao assinalar que "o processo pelo qual a necessidade surge da necessidade é um processo contingente" (ZIZEK, 2013, p. 320)

Essa lógica temporal implica que o significante, enquanto tal, não tem sentido algum até articular-se a outro significante; e na latência que precede essa articulação, não há discernibilidade simbólica para o primeiro evento, de modo que ele resta como indeterminado até que o segundo tempo venha dar-lhe posição no passado a partir do que ocorreu no presente. Um acontecimento psíquico retroage sobre um anterior para redeterminar o passado que o determina, assim como foi a segunda cena, que retrodetermina a cena primária. A primeira cena não tinha sentido (Emma não entendia a conotação sexual da cena) até se articular à segunda, e a partir dessa contingencial articulação é que ela adquire significação traumática (Emma entende que a primeira cena foi sexual).

Por exemplo, quando começo uma frase, vocês só compreenderão seu sentido quando eu a houver concluído. É absolutamente necessário – essa é a definição de frase – que eu tenha dito a última palavra para que vocês compreendam a situação da primeira. Isso nos dá o exemplo mais tangível do que podemos chamar de ação nachträglich do significante. É precisamente o que eu não paro de lhes mostrar no texto da própria experiência psicanalítica, numa escala infinitamente maior, quando se trata da história do passado. (LACAN, 1998a, p. 17).

Mas que tipo de lógica temporal é essa? Tudo o que conhecemos, por exemplo, fisicamente, implica que o tempo flui continuamente do passado para o presente e para o futuro, não havendo retroação, ou seja, uma modificação dos acontecimentos passados devido a eventos presentes. Mas seria esse um mecanismo temporal puramente psíquico ou haveria algum outro mecanismo que segue essa mesma lógica?

*             *             *

Da mesma maneira que as descobertas psicanalíticas subverteram noções clássicas da lógica, a mecânica quântica também o fez. As reações ocasionadas pelas descobertas que se desenvolveram nesse campo foram as mais estupefatas: Niels Bohr, um dos nomes mais importantes da física moderna, foi taxativo: “aqueles que não se chocaram ao entrar em contato com a teoria quântica não podem tê-la compreendido” (isso deveria também valer para a psicanálise, a propósito). Richard Feynman, prêmio Nobel, disse: “é seguro dizer que ninguém entende a mecânica quântica”. Roger Penrose: “A mecânica quântica não faz o menor sentido”. Não é preciso dizer mais para demonstrar que os físicos se depararam com aquilo que Freud chamou de Unheimlich, o estranho. O quê é isso?

Para compreender porque os físicos ficaram tão chocados com a lógica do que descobriram, comecemos por mostrar o paradoxo básico com o qual eles tiveram que lidar. O nome desse paradoxo é conhecido no meio como ‘dualidade onda-partícula’.

O que é uma partícula? Podemos pensar em uma bola bem pequena, indivisível em princípio, que se locomove pelo espaço seguindo uma trajetória bem definida de um ponto a outro do espaço.

O que é uma onda? Em física clássica (ou seja, toda a física existente antes do advento da mecânica quântica) ela é definida como uma perturbação que se propaga em um meio, tal como a água (‘como uma onda no mar’), e que se espalha pelo espaço (PESSOA JR., p. 2). Essa perturbação que se propaga é a energia, que é o próprio movimento das partículas do meio (no nosso exemplo, a água). De modo que uma onda, por ser espalhada, não tem uma trajetória definível (pois segue várias), nem posição determinada (ela está espalhada pelo espaço, ao contrário da partícula que se situa bem distintivamente).

Pois bem, o que a física quântica revela é que os objetos que ela descreve possuem as duas características! Ora, isso é uma contradição lógica, pois afirma-se que a mesma coisa (um objeto quântico) segue uma trajetória (no caso da partícula) e não segue (no caso da onda, porque a trajetória é espalhada, logo não é trajetória). Essa foi a primeira surpresa, demonstrada por um experimento que descreveremos dentro em pouco.

Antes, é preciso detalhar mais as características de uma onda. Como se sabe, uma onda é feita de oscilações, de perturbações. As oscilações são movimentos de ascendência e descendência, quer dizer, algo que sobe e desce ao longo de uma direção. A amplitude é a distância entre um pico e a linha mediana da onda (ver ilustração). Ora, se duas ondas ocupam o mesmo lugar no espaço e seus picos e vales estão alinhados, dizemos que as ondas estão em fase e a onda resultante dessa soma terá o dobro da amplitude (é só somar as duas amplitudes). Já se as ondas estiverem fora de fase, ou seja, se o pico de uma coincidir com o vale da outra, as ondas se destroem, anulando-se. De modo que essa interferência é uma propriedade típica das ondas, não das partículas. Sabemos que a luz tem características ondulatórias, pois já foram verificados padrões de interferência nelas (tanto construtivos, quando as ondas estão em fase, quanto destrutivos).



Isso nos ajudará a explicar outro fenômeno, que é o de divisão de ondas. Se jogarmos um feixe de laser (luz) em um espelho semi-refletor (que reflete metade da luz e deixa a outra metade passar) a onda se divide, e seus dois componentes ficam fora de fase. É possível recombinar os feixes que se originaram da divisão com um aparelho denominado interferômetro de Mach-Zehnder. São experimentos com esse aparelho que deram origem às questões profundas que a física quântica trouxe para o mundo.

No entanto, a luz também manifesta características corpusculares, de partículas; se reduzirmos sua intensidade suficientemente, veremos que a detecção da luz se dá pontualmente, ou seja, a luz incide no aparelho detector como pontos, partículas, denominadas fótons. Inclusive é por isso que Einstein ganhou o Nobel, e não por suas teorias da relatividade. Assim, mais uma vez o paradoxo quântico se manifesta na contradição lógica da dualidade onda-partícula exibida pela luz.

Sem mais delongas, então, analisemos o interferômetro para compreender melhor a origem desses paradoxos.

O interferômetro é um aparelho composto de um espelho semi-refletor (S1), que divide o feixe de luz (aqui considerado em seu aspecto ondulatório) em duas partes de igual amplitude. Sabemos que numa divisão assim, as ondas resultantes saem de fase; a onda refletida sofre um deslocamento de ¼ em sua amplitude. Em seguida, cada um dos feixes é refletido por um espelho (totalmente refletor), E1, E2, de modo a se cruzarem novamente em um espelho semi-refletor (S2), após o qual são colocados dois aparelhos de detecção (D1, D2), um para cada feixe (figura - desconsidere o aparato 'H').



Como cada componente do feixe de luz original incide em S2, era de se esperar que sua medição pelo detector mostrasse 50% de cada componente (pois que o espelho S2 divide o feixe). Mas não é o que acontece. O que se observa é a medição de feixe em apenas um dos detectores (D1), e o valor dessa medição é o mesmo valor do feixe original, antes de ter passado por S1!

Isso se explica pelo seguinte: o feixe que seguiu a trajetória A, ao incidir em S2, se dividiu em dois componentes, um dos quais foi refletido para D1, e o outro seguiu seu caminho rumo a D2. O feixe que seguiu o caminho B também é refletido em S2 rumo a D2 e seu outro componente segue seu caminho em direção a D1. Como a cada reflexão há uma alteração nas fases das ondas, o que ocorre é que ao incidir em S2 os componentes dos feixes A e B que vão em direção a D2 se interferem destrutivamente, se cancelando, por estarem fora de fase; e os componentes que seguem para D1 se somam, por estarem em fase. De modo que é perfeitamente lógico que um dos detectores meça a superposição construtiva e o outro não, pois os feixes se anularam de S2 a D2 devido ao padrão destrutivo de interferência das ondas, resultado do deslocamento de fases nas ondas devido a cada reflexão do feixe em cada espelho (PESSOA JR., 2003, p. 9).

Esse é um experimento arranjado para ondas, com comportamento clássico, ainda não é nada quântico. Para tornar o experimento quântico é preciso reduzir a intensidade do feixe de luz até que apenas um fóton incida em S1 por vez. Assim, o que ocorre é que uma partícula (um fóton) incide em S1 e lá pode ser ou refletida ou seguir seu rumo, de modo a incidir ou em D1 ou em D2, com 50% de probabilidade para cada incidência. No entanto, o experimento mais uma vez mostra que apenas o detector D1 mede a presença da partícula, com o mesmo comportamento de um experimento ondulatório! Ou seja, é como se a partícula tivesse chegado a S1, sido refletida e não, viajado pelos dois caminhos, e ‘interferido’ consigo mesmo em S2, de modo a criar um padrão de interferência destrutivo entre S2 e D2 e um construtivo entre S2 e D1! Como é que uma única partícula, que tem posição e trajetória definidas, pode ‘se espalhar’, como uma onda, e interferir consigo mesmo? Como é possível a uma partícula exibir propriedades de onda?

A grande questão é a seguinte: por qual caminho o fóton (que é uma partícula e é suposto seguir uma trajetória bem definida) rumou após passar por S1, antes de incidir em S2? A ou B? Os problemas começam a surgir.

Suponha que o fóton se encontre em A. Isso pode ser realizado experimentalmente com o próprio interferômetro ao se retirar o S1, de modo que o feixe incide em E1 e é refletido rumo a S2. Lá o feixe se divide e há uma probabilidade de 50% de incidência em D1 e 50% em D2, ou seja, não ocorreu o padrão de interferência. Isso é um comportamento clássico, não-quântico: ou ele incidirá em D1, ou em D2. O mesmo ocorre se arranjarmos o experimento de modo que o fóton percorra apenas o caminho B. 

No entanto, quanto ao interferômetro completo (com o espelho em S1), veja só que situação: “se o fóton estivesse ou em A, ou em B, continuaríamos a ter uma probabilidade de 50% de detectar o fóton em D2. Isso segue da própria definição do conectivo lógico ‘ou’: se em A é 50%, e em B é 50%, então ‘A ou B’ tem que ser 50%. No entanto, vimos que no experimento [interferômetro completo], para um único fóton, a probabilidade de o fóton atingir D2 não é 50%, é 0%! Logo, é falsa a afirmação de que o fóton está OU em A OU em B!” (PESSOA JR., 2003, p. 12, grifo meu). Essa situação é explicitamente paradoxal: o mesmo objeto passou por dois lugares diferentes ao mesmo tempo? Por onde ele foi? O que aconteceu com o fóton no intervalo entre as medições? Ele era partícula? Ou era onda? Essa é a essência da dualidade onda-partícula; assim, a teoria quântica estuda as propriedades ondulatórias que ela atribui às partículas.

Para falarmos mais rigorosamente sobre a dualidade, enunciemos o seguinte: um fenômeno quântico é um conjunto composto pelo objeto quântico e pelo aparelho de medição, que, dependendo de seu arranjo, determina se o objeto terá aspecto corpuscular ou ondulatório. Por isso, o aparelho de medição deve ser incluído no conceito de fenômeno quântico: nos dois tipos de experimentos com o interferômetro, um teve aspecto corpuscular e outro teve aspecto quântico. Daí que um fenômeno é corpuscular se, após uma medição, segundo certo arranjo do aparelho, para ele puder ser discernida uma trajetória, quer dizer, se for possível (mesmo que em apenas em princípio, sem de fato ocorrer uma medição) saber se ele passou por um ou por outro dos caminhos possíveis. E será um fenômeno ondulatório se uma trajetória não for possível de ser distinguida, devido a uma superposição de suas possibilidades, assim como ocorre com o fenômeno de interferência de ondas; a oposição entre os caminhos, representada pelo conectivo lógico ‘ou’, não se aplica nesse caso. Não se trata aqui de ter passado por um ou outro caminho. Mas como poderia ter o mesmo objeto passado por um e por outro caminho?

Apesar de todas essas perguntas, há um formalismo mínimo, uma equação, produzida por Erwin Schrödinger, que permite lidar com todas essas probabilidades, com todas essas incertezas, de maneira que funciona o suficiente para construir computadores, televisões, etc. E muitos físicos dizem que é só isso que importa, tanto faz se passou ou não passou por um ou outro lado: nós temos as equações e pronto! O problema é que eles se esquecem que foi a partir de respostas a perguntas de cunho interpretativo, como essas, que muitos passos foram dados até que se chegasse a tais equações preciosas, além da proposição de experimentos que confirmam ou refutam partes principais da teoria. De modo que investigar o campo não é supérfluo, e todos os grandes nomes da Física se detiveram nessas questões, procurando respostas, tentando simbolizar esse real que escapa à nossa compreensão. E nada garante que, ao ignorar a interpretabilidade da teoria, os físicos pragmáticos não estejam, justamente, interpretando-a.

Assim, temos vários ramos de interpretação das questões suscitadas pelas descobertas quânticas. Vários mesmo: pelo menos 50 interpretações estão correndo por aí. Cada uma delas tem alcance amplo, porque interpretam vários tipos de experimentos: a dualidade, o problema da medição, o princípio de incerteza, etc. Mas cada uma tem consistência consigo mesma. Para nosso propósito aqui, abordaremos apenas uma interpretação específica acerca de um problema que descreveremos agora: o chamado ‘experimento de escolha demorada’.

Imagine uma partícula que passe pelo interferômetro, sem o semi-espelho S2. Imagine o momento em que a partícula acaba de passar por S1. Então, nesse momento em que a partícula está entre o semi-espelho S1 e a posição do semi-espelho ausente S2, escolhe-se colocar ou não o semi-espelho em S2, e assim medir o aspecto ondulatório ou o corpuscular, respectivamente - pois se eu coloco o espelho em S2 o fenômeno observado será ondulatório; se eu não colocar, será corpouscular. Mas a pergunta que se formula é a seguinte: no intervalo de tempo em que a partícula estava entre os pontos S1 e S2, antes de atingir S2, havia uma onda ou uma partícula?

A interpretação de Niels Bohr, chamada de complementaridade (que fundamenta a interpretação que a maioria dos físicos aceita), propõe que só se pode afirmar a natureza do objeto quântico (onda ou partícula, mas nunca ambas) após alguma medição ser efetuada. Portanto, nesse período em que a partícula ainda não atingiu os detectores D1 e D2, nada pode ser dito, pois é apenas com a detecção da onda ou partícula, ou seja, com a compleição do fenômeno quântico, que há a confirmação do aspecto ondulatório ou particular do objeto quântico dentro do interferômetro. Mas quando o objeto é detectado, isso não altera seu estado no momento anterior, entre os semi-espelhos. De acordo com Bohr, o que muda no momento de detecção com relação ao momento entre S1 e S2 é apenas o nosso conhecimento sobre o objeto, e não o próprio objeto, o que faz essa interpretação ser classificada como epistêmica. O que ocorre num momento posterior não determina o que houve antes, que é inacessível de um ponto de vista epistêmico, de modo que, paraa essa interpretação, não faz sentido perguntar qual o estado do objeto quântico antes de efetuada a medição - não há como saber o que se passa no interferômetro (entre S1 e S2...), só sabemos o que podemos medir e detectar.

No entanto, muitos anos depois, um americano chamado John Wheeler andou repensando a lógica do experimento. Apesar de partir da própria ideia de Bohr, de que não se sabe o que ocorre no momento entre semi-espelhos, ele deu um salto para além dela. Wheeler propôs que, no instante em que se escolhe colocar o espelho em S2, a escolha determina retroativamente o estado do objeto quântico entre S1 e S2. Assim, se eu meço um fenômeno ondulatório agora, no presente, por ter escolhido colocar o espelho em S2 agora, a escolha retroage sobre o momento passado, mudando o próprio estado do objeto no passado, que passa a ter sido ondulatório então. Isso é o que ele chamou de “atualização” do passado no presente: “É errado pensar naquele passado como já existindo em todos os detalhes. O passado é teoria. O passado não tem existência enquanto ele não é registrado no presente” (WHEELER, 1978). Assim, não é apenas o nosso conhecimento sobre o passado que muda quando uma medição ocorre, tal como coloca Bohr; é o próprio passado. O passado é determinado como tal apenas no presente, no momento de colocar ou não o espelho em S2. Eis aí uma temporalidade que subverte a conceituação lógica clássica sobre o tempo: há um emaranhamento retroativo (e não apenas um vetor progressivo) entre o passado e o presente - o jargão é chamado de 'retrodição' Vale destacar que essa interpretação é consistente com o formalismo equacional da física quântica, de modo que é algo que muitos físicos levam realmente a sério.

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Como já dissemos, esta não é a única interpretação para o experimento; porém, dentre as interpretações mais aceitas atualmente, é a única que se utiliza de uma lógica temporal reversa, compatível com a temporalidade desenvolvida pelas descobertas psicanalíticas. Pois tanto para objetos quânticos como para objetos psíquicos (significantes) há uma lógica em que objetos podem, num momento posterior, determinar suas próprias propriedades num momento anterior cronologicamente, tal como mostra a interpretação de Wheeler do experimento quântico. Assim, da mesma maneira que, para Lacan, é apenas na última palavra da frase que se entende a primeira, para Wheeler é apenas na medição do objeto, no presente, enquanto “última palavra”, que o seu estado passado ganha determinado significado, propriedade, posição física, enquanto “primeira palavra” da frase que é o fenômeno quântico. E isso precisamente ao modo do esquema gráfico que Lacan faz para mostrar o nachträglich:



A flecha que aponta progressivamente para a direita mostra a sequência cronológica dos eventos, ou seja, a cadeia significante, a frase: da esquerda para a direita, do passado para o futuro, da primeira palavra à última, de S1 a S2. No entanto, note que a seta que parte do ponto x tem orientação topológica contrária à primeira: ela é levogira, de modo que interage primeiro com o momento cronológico posterior (última palavra) para depois então chegar ao momento anterior (primeira palavra): é o depois determinando o antes, na estrutura de um “tempo reversivo” (LACAN, 1998, p. 853) no qual o passado "terá sido" (Ibid., p. 823), ao modo de um “futuro anterior” (Ibid.). Assim, se se pergunta qual era o fenômeno entre S1 e S2, pode-se responder que ele terá sido ondulatório se colocar-se o espelho em S2, e terá sido corpuscular se não se coloca o espelho lá.

Não nos importa aqui se a interpretação de Wheeler é a correta ou não para a Física, mas sim destacar como a lógica utilizada para compreender fenômenos psíquicos fundamentais, e que Freud propôs muito antes de Wheeler, antecipando assim essa própria lógica quântica, é também utilizada como uma proposta para compreender fenômenos físicos fundamentais. Com isso, podemos então dizer que há uma temporalidade quântica (no sentido da interpretação de Wheeler) no inconsciente, tanto quanto podemos dizer que há uma temporalidade psíquica (no sentido do nachträglich freudiano) nessa interpretação em particular da mecânica quântica, com a lógica de ambas as temporalidades sendo da mesma estrutura, ‘mais elevada’, como diz Lacan.


Para finalizar, indicamos uma decorrência clínica dessa articulação da psicanálise com a física quântica: ela fornece maiores subsídios lógicos para ratificar o que a psicanálise já havia trazido sobre a constituição da realidade psíquica. Pois se há um período de latência entre certo fato, certo acontecimento, e sua interpretação (a qual Lacan chamou de ‘ressubjetivação’), que decida sobre o que ‘de fato’ ocorreu no passado, a temporalidade quântica do inconsciente implica que uma 'interpretação' de um ‘fato’ constitui o próprio fato como tal: o fato é sua própria interpretação. De modo que, a rigor, não há ‘interpretações’ sobre fatos, como uma metalinguagem que quer decidir acerca do ‘fato real’, tal como ocorrido 'no passado'; há apenas fatos sobre outros fatos, fatos que constituem outros fatos, retroativamente, segundo a lógica quântica que opera no inconsciente. E são com esses fatos, sujeitos às futuras contingências que o presente reserva para o passado, que o psicanalista lida em sua clínica. Portanto, não se trata de procurar descobrir o ‘fato real’ sobre o que se diz, sobre o que se ‘interpreta’; não se trata de fazer qualquer hermenêutica das interpretações para se chegar a supostos fatos 'reais', mas de escutar os fatos no próprio dizer, ou seja, nas próprias ‘interpretações’. "Só há fato pelo fato de o falasser o dizer. Não há outros fatos senão aqueles que o falasser conhece como tais dizendo-os. Só há fato pelo artífício" (LACAN, 2007, p. 63), ou seja, só há fato significante, artifício humano por excelência. Não se trata se Emma foi ou não à confeitaria pela primeira vez, pouco importa se ‘de fato’ houve a cena primária do proprietário tocando-a, ou se ele estava realmente rindo nessa hora (as lembranças poderiam muito bem serem encobridoras, inclusive); o que interessa é o que se diz, a conotação denotativa que esse dizer tem na trama de determinações significantes do sujeito, e é a partir dela que o analista se orienta: são os arte-fatos, os fatos de artifício, que devem guiar sua escuta.



REFERÊNCIAS:

FREUD, Sigmund. Projeto para uma Psicologia Científica. In: Obras completas, vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
LACAN, Jacques. Função e Campo da Fala e Linguagem em Psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, Jacques. Posição do Inconsciente. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
_____________. O seminário, livro 5. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998a.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23 - o Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
MAGNO, MD. AmaZonas: A Psicanálise de A a Z. Disponível em: http://www.tranz.org.br/1_edicao/pdf/md_magno_amazonas.pdf. Acesso em 14/07/12.
PESSOA JR, Osvaldo. O Sujeito na Física Quântica. Disponível em: http://www.fflch.usp.br/df/opessoa/Sujeito.pdf. Acesso em 11/07/12.
_____________________. Conceitos de Física Quântica, vol. I. São Paulo: Ed. Livraria da Física, 2006.
TEIXEIRA, Antonio M. R. La Prudence du Psychanalyste. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=ifz11zU6dAQ&feature=relmfu. Acesso em 11/07/12.
________________________, a. O Sonho da Dessuposição de Fliess. Disponível em: http://www.institutopsicanalise-mg.com.br/psicanalise/almanaque/06/textos/antonio.pdf. Acesso em 11/07/12.
Wheeler, J.A., The ‘Past’ and the ‘Delayed-Choice’ Double-Slit Experiment, em MARLOW, A.R. (org.), Mathematical Foundations of Quantum Theory. Nova Iorque: Academic, 1978.
ZIZEK, Slavoj. Menos que nada. Rio de Janeiro: Boitempo, 2013.

sábado, 23 de novembro de 2013

A função de onda (Ψ) da interpretação psicanalítica

“A que silêncio deve agora obrigar-se o analista para evidenciar, acima desse pântano, o dedo erguido de São João de Leonardo, para que a interpretação reencontre o horizonte desabitado do ser em que se deve desdobrar sua virtude alusiva?”

(Lacan, “A direção do tratamento”)


A teoria da interpretação psicanalítica, com Lacan, passa a ser concebida a partir dos três registros que ele propõe para se dar conta dos efeitos do inconsciente, nomeadamente o imaginário, o simbólico e o real.

Num primeiro momento de seu ensino, Lacan procura mostrar aos analistas, especialmente aos pós-freudianos, que a interpretação não deve atuar no registro imaginário, que é o lugar-tenente do sentido na estrutura do inconsciente. “Isso para nós não é novidade, mas na época era uma grande novidade porque até então o analista ouvia o paciente procurando sempre o que aquilo queria dizer, isto é, o sentido. Os kleinianos ainda hoje só trabalham com o sentido e a interpretação consiste em estabelecer o sentido para o paciente”, diz Marcio Peter, psicanalista brasileiro. Na verdade, não são apenas os kleinianos (ou seja, aqueles que operam a partir do ensino de Melanie Klein) que se valem desse manejo. Outro dia, escutei uma pessoa me contando sua passagem por um psiquiatra, oito anos atrás, devido a um sintoma obsessivo clássico: essa pessoa tinha que tocar nas superfícies dos lugares onde se encontrava (tal como todas as bordas de mesa, no chão, etc.), para afastar os pensamentos de que se ele não o fizesse, sua mãe morreria. A psiquiatra, ao ‘ouvir’ o relato, já começou com as ‘interpretoses’ (categoria nosológica aplicável a ‘psicanalistas’ que operam com o imaginário na interpretação): “você está sofrendo de um Transtorno Obsessivo-Compulsivo porque você deseja a morte de sua mãe”. A pessoa me contou que se sentiu muito frustrado quando notou essa postura da psiquiatra, pois ela já tinha uma resposta pronta para seu problema e “nem me escutou” (palavras dele). À época do tratamento ele contava 12 anos, e não suportou a situação de não ser ouvido, de sofrer interpretoses, por isso não ficou muito tempo e logo parou de frequentar a psiquiatra. “Qual é a função própria da interpretação kleiniana, que se apresenta como uma intrusão, de coisa posta sobre o sujeito?” (LACAN, 1986, p. 90 – grifo nosso). Respondemos: a função imaginária. Fica claro assim o que Lacan tentava alertar aos psicanalistas da época: não se trata de fornecer sentido para o que se escuta do analisando – isso não é senão interpretose. Mas do que é que se trata, então? Como deve proceder uma interpretação?

Nessa época de seu primeiro ensino, Lacan queria mostrar a função simbólica da interpretação, em oposição à sua função imaginária. Como para Lacan o inconsciente é estruturado como uma linguagem, não se trata de intervir fornecendo o sentido para o paciente, mas sim, de intervir nas palavras que ele profere (o simbólico) para que ele descubra por si só o sentido daquilo que diz no que ele mesmo diz. Uma interpretação simbólica daria a chance d’a pessoa poder SE perguntar pelo sentido do seu sintoma. Assim, o analista interviria, perguntando, por exemplo, algo muito simples, como “por quê você sonhou isso?”, pedindo assim ao paciente que faça o trabalho de associação para se chegar ao “conteúdo latente” do sonho, e não dando isso para ele prêt-à-porter. A interpretação simbólica ainda assim busca o sentido, mas a partir dos elementos fornecidos pela fala do paciente, que ainda tem que ter o trabalho de associar (e o analista direciona o tratamento nesse aspecto) os elementos para se chegar ao sentido daquela formação do inconsciente. Interpretar aqui ainda está articulado com a compreensão de um sentido para o sintoma, mas essa compreensão parte do próprio paciente – a partir das intervenções do analista que o guiam nessa direção.

Mas ao longo de seu ensino Lacan ainda dá outra virada sobre sua teoria da interpretação. Ora, como Freud diz, todo sonho tem um umbigo, um ponto que nunca será interpretado:

“Mesmo no sonho mais minuciosamente interpretado, é frequente haver um trecho que tem de ser deixado na obscuridade; é que, durante o trabalho de interpretação, apercebemo-nos de que há nesse ponto um emaranhado de pensamentos oníricos que não se deixa desenredar e que, além disso, nada acrescenta a nosso conhecimento do conteúdo do sonho. Esse é o umbigo do sonho, o ponto onde ele mergulha no desconhecido. Os pensamentos oníricos a que somos levados pela interpretação não podem, pela natureza das coisas, ter um fim definido; estão fadados a ramificar-se em todas as direções dentro da intricada rede de nosso mundo do pensamento” (FREUD, Vol. V, Cap. VII).

De modo que esperar uma formalização lógica da interpretação a partir da descoberta do sentido do sintoma não condiz com o que Freud nos mostra como resto indecifrável de um sonho, ou de uma formação do inconsciente qualquer. Lacan tentou realizar essa formalização a partir da estrutura da linguagem; porém, o inconsciente não é, ele todo, linguagem; “a linguagem é imperfeita” (LACAN, Sem. 25, 10/01/1978). E, na verdade, o desafio maior aos analistas é precisamente investigar como intervir no inconsciente por algum outro caminho que não seja unicamente o da linguagem, que não seja unicamente o do sentido que ela desvelaria no trabalho analítico. Pois o inconsciente, não é ele próprio todo interpretável – ele não é todo sentido. É a partir daí que Lacan começa a privilegiar esse ponto não interpretável do inconsciente, chamado de Real, para descobrir como o analista pode operar a partir dele. Isso porque “importa não o que já está lá [no inconsciente, como conteúdo latente], o que carrega efeitos, mas, sim, como um efeito se produz nele de modo aleatório” (SANTIAGO, p. 44 – grifo meu). Isso significa que não importa tanto o conteúdo recalcado, o sentido que a intervenção simbólica faz o paciente descobrir. Até porque descobrir isso não tem plenos efeitos de cura – a repetição retorna mesmo após tais descobertas. Assim, o papel da psicanálise é descobrir como interpretar sem contar exclusivamente com o simbólico – que, como tal, é sempre falho, furado, sempre passível de outra interpretação. É como diz Jacques-Alain Miller: “nenhuma interpretação está, para falar com propriedade, terminada” (MILLER, 2011, p. 44). Esse furo nuclear da interpretação simbólica é o que faz Lacan mudar de orientação no que concerne o interpretar analítico. “A interpretação não é propor outro sentido [função imaginária] ou girar o sentido manifesto para fazer surgir um sentido escondido [função simbólica]. A interpretação visa desfazer a articulação do destino [a ‘sobredeterminação’ freudiana] para mirar o fora-de-sentido [função real], o que quer dizer que a interpretação é uma operação de desarticulação” (MILLER, 2011, p. 82). Ora, isso se harmoniza mais com o fato do umbigo do sonho, ou seja, com o Real, que, como tal, em sua definição mesma, é aquilo que exclui o sentido, é o próprio não-senso. Assim, o paradigma da interpretação na psicanálise passa do imaginário ao simbólico, mas finalmente desemboca no real. Como o real não tem sentido, não se trata mais de buscar o sentido na interpretação: “seu esforço [de Lacan] é o de abrir uma prática pós-joyceana da psicanálise, aquela que não recorre ao sentido para resolver o enigma do gozo” (Ibid., p. 87). Se a interpretação não é mais uma função do sentido, não se trata de descobrir nada no inconsciente, ou de ‘ajuizar do sentido do pensamento’. Trata-se de fazer o inconsciente produzir algo, um significante novo, diria Lacan – que não tenha espécie algum de sentido (LACAN, Sem. 24, 17/05/77). De modo que a ‘interpretação’ precisa intervir no Real para que algo novo seja produzido a partir de Lá – algo que não tenha sentido, algo que não se compreende. Por isso, Lacan solta uma frase que queremos analisar aqui com cuidado: “uma interpretação não é feita para ser compreendida; é feita para produzir ondas” (LACAN, citado por COUTINHO JORGE, p. 213). Lacan está dizendo duas coisas aqui. Uma, é que se uma interpretação não é feita para ser compreendida, é porque ela não se orienta mais simbólico-imaginariamente, não se orienta pelo sentido do que se diz – seja ele doado ou descoberto; sua orientação é para aquilo que não pode ser compreendido, nem dito, que é justamente o real. Outra, é que se a interpretação é feita para produzir ondas, há uma estreita relação entre o real que ela visa e as ondas que ela produz. De modo que Lacan está dizendo de um caráter real das ondas ou de um caráter ondulatório do real na interpretação.

Como de costume, Lacan não ‘explica’ o que quer dizer com tal frase, o que quer dizer com ‘ondas’, deixando as descobertas ao encargo de seu leitor. Era parte de seu estilo, e sobre isso ele se justifica: “…a linguagem é verdadeiramente o que só pode avançar torcendo-se e enrolando-se, contornando-se de uma maneira da qual afinal de contas não posso dizer que não dou aqui o exemplo. Não se deve acreditar que, ao aceitar o desafio lançado por ela, ao marcar em tudo que nos concerne até que ponto nós dependemos dela, não se deve acreditar que faço isso assim de bom grado. Acharia melhor que isso fosse menos tortuoso” (A Terceira). Essas torções (topológicas) que ele produz em seu estilo, nos seus textos, são exemplos dessas ondulações às quais ele se refere quando fala da interpretação. “Alguma coisa que é característica de meus Escritos é que não os escrevi para que se os compreendesse, eu os escrevi para que se os lesse” (LACAN, citado por COUTINHO JORGE) – aforismo esse que se relaciona diretamente com o da interpretação. Isso exige que cada leitor se coloque como tal naquilo que lê – pois Lacan se faz tortuoso –, que produza um entendimento próprio, e não apenas porque Lacan o diz – em suma, que o leitor, ao ler Lacan, interprete Lacan, cujos seminários eram sua própria análise. De modo que nossa intenção aqui, seguindo Lacan por um caminho por onde ele não foi – e assim interpretando-o –, é investigarmos que articulações podemos traçar entre o real, como o umbigo do inconsciente, impossível de ser interpretado, mas também como aquilo que não se compreende numa interpretação, e as ondas que uma interpretação que toca esse real produz. Para tal, recorreremos a um campo que nos traz de bandeja essa articulação: a física quântica.

O que há de fundamental no campo quântico é uma distinção entre duas entidades físicas, a saber, a partícula e a onda. Uma partícula é um ponto – indivisível – no espaço, onde há matéria, ou energia. Podemos pensar em uma bola bem pequena que segue uma trajetória pelo espaço. Já uma onda é uma perturbação que se propaga em um meio, tal como a água (‘como uma onda no mar’), e que se espalha pelo espaço (PESSOA JR., 2003, p. 2). Essa perturbação que se propaga é a energia, que é o próprio movimento das partículas do meio (no nosso exemplo, a água). De modo que uma onda, por ser espalhada, não tem uma trajetória definível (pois segue várias ao mesmo tempo), nem posição determinada (ela está espalhada pelo espaço, ao contrário da partícula que se situa bem distintivamente).

Pois bem, o que a física quântica revela é que os objetos que ela descreve possuem as duas propriedades! Ora, isso é uma contradição lógica, pois afirma-se que a mesma coisa (um objeto quântico) segue uma trajetória (no caso da partícula) e não segue (no caso da onda, porque a trajetória é espalhada, logo não é trajetória). Essa foi a primeira surpresa, demonstrada por um experimento que descreveremos dentro em pouco.

Antes, é preciso detalhar mais as características de uma onda. Como se sabe, uma onda é feita de oscilações, de perturbações. As oscilações são movimentos de ascendência e descendência, quer dizer, algo que sobe e desce ao longo de uma direção. A amplitude é a distância entre um pico e a linha mediana da onda (ver ilustração). Ora, se duas ondas ocupam o mesmo lugar no espaço e seus picos e vales estão alinhados dizemos que as ondas estão em fase e a onda resultante dessa soma terá o dobro da amplitude (é só somar as duas amplitudes). Já se as ondas estiverem fora de fase, ou seja, se o pico de uma coincidir com o vale da outra, as ondas se destroem, anulando-se. De modo que essa interferência é uma propriedade típica das ondas, não das partículas. Sabemos que a luz tem características ondulatórias, pois já foram verificados padrões de interferência nelas (tanto construtivos, quando as ondas estão em fase, quanto destrutivos).



Isso nos ajudará a explicar outro fenômeno, que é o de divisão de ondas. Se jogarmos um feixe de laser (luz) em um espelho semi-refletor (que reflete metade da luz e deixa a outra metade passar) a onda se divide, e seus componentes ficam fora de fase. É possível recombinar os feixes que se originaram da divisão com um aparelho denominado interferômetro de Mach-Zehnder. São os experimentos com esse aparelho que deram origem às questões profundas que a física quântica trouxe para o mundo.

No entanto, a luz também manifesta características corpusculares, de partículas; se reduzirmos sua intensidade suficientemente, veremos que a detecção da luz se dá pontualmente, ou seja, a luz incide no aparelho detector como pontos, partículas, denominadas fótons. O efeito fotoelétrico, que rendeu a Einstein o prêmio Nobel, é a prova da propriedade particular da luz. Assim, aqui mais uma vez o paradoxo quântico se manifesta na contradição lógica da dualidade onda-partícula.

Sem mais delongas, então, analisemos o interferômetro para compreender melhor a origem desses paradoxos.

O interferômetro é um aparelho composto de um espelho semi-refletor (S1), que divide o feixe de luz (aqui considerada em seu aspecto ondulatório) em duas partes de igual amplitude. Sabemos que numa divisão assim, as ondas resultantes saem de fase; a onda refletida sofre um deslocamento de ¼ em sua amplitude. Em seguida, cada um dos feixes é refletido por um espelho (totalmente refletor), E1, E2, de modo a se cruzarem novamente em um espelho semi-refletor (S2), após o qual são colocados dois aparelhos de detecção (D1, D2), um para cada feixe (figura).



Como cada componente do feixe de luz original incide em S2, era de se esperar que sua medição pelo detector mostrasse 50% de cada componente (pois que o espelho S2 divide o feixe). Mas não é o que acontece. O que se observa é a medição de feixe em apenas um dos detectores (D1), e o valor dessa medição é o mesmo valor do feixe original, antes de ter passado por S1!

Isso se explica pelo seguinte: o feixe que seguiu a trajetória A, ao incidir em S2, se dividiu em dois componentes, um dos quais foi refletido para D1, e o outro seguiu seu caminho rumo a D2. O feixe que seguiu o caminho B também é refletido em S2 rumo a D2 e seu outro componente segue seu caminho em direção a D1. Como a cada reflexão há uma alteração nas fases das ondas, o que ocorre é que ao incidir em S2 os componentes dos feixes A e B que vão em direção a D2 se interferem destrutivamente, se cancelando, por estarem fora de fase; e os componentes que seguem para D1 se somam, por estarem em fase. De modo que é perfeitamente lógico que um dos detectores meça a superposição construtiva e ou outro não, pois os feixes se anularam de S2 a D2 devido ao padrão destrutivo de interferência das ondas.

Esse é um experimento arranjado para ondas, com comportamento clássico, ainda não é nada quântico. Para tornar o experimento quântico é preciso reduzir a intensidade do feixe de luz até que apenas um fóton incida em S1 por vez. Assim, o que ocorre é que uma partícula (um fóton) incide em S1 e lá pode ser ou refletida ou seguir seu rumo, e passa por S2 (também podendo ser refletida ou seguir o rumo) de modo a incidir ou em D1 ou em D2, com 50% de probabilidade para cada incidência. No entanto, o experimento mais uma vez mostra que apenas o detector D1 mede a presença da partícula, com o mesmo comportamento de um experimento ondulatório! Ou seja, é como se a partícula tivesse viajado pelos dois caminhos, ‘interferido’ consigo mesmo em S2, de modo a criar um padrão de interferência destrutivo entre S2 e D2 e um construtivo entre S2 e D1! Como é que uma partícula, que tem posição e trajetória definidas, pode ‘se espalhar’, como uma onda, e interferir consigo mesmo? Como é possível a uma partícula exibir propriedades de onda?

A grande questão é a seguinte: por qual caminho o fóton rumou após passar por S1, antes de incidir em S2? A ou B? Os problemas começam a surgir.

Suponha que o fóton se encontre em A. Isso pode ser realizado experimentalmente com o próprio interferômetro ao se retirar o S1, de modo que o feixe incide em E1 e é refletido rumo a S2. Lá o feixe se divide e há uma probabilidade de 50% de incidência em D1 e 50% em D2, ou seja, não ocorreu o padrão de interferência. Isso é um comportamento clássico, não-quântico: ou ele incidirá em D1, ou em D2. O mesmo ocorre se arranjarmos o experimento de modo que o fóton percorra o caminho B.

No entanto, quanto ao interferômetro completo (com o espelho em S1), veja só que situação: “se o fóton estivesse ou em A, ou em B, continuaríamos a ter uma probabilidade de 50% de detectar o fóton em D2. Isso segue da própria definição do conectivo lógico ‘ou’: se em A é 50%, e em B é 50%, então ‘A ou B’ tem que ser 50%. No entanto, vimos que no experimento [interferômetro completo], para um único fóton, a probabilidade de o fóton atingir D2 não é 50%, é 0%! Logo, é falsa a afirmação de que o fóton está OU em A OU em B!” (PESSOA JR., p. 12, grifo meu). Essa situação é explicitamente paradoxal: o mesmo objeto passou por dois lugares diferentes ao mesmo tempo? Por onde ele foi? O que aconteceu com o fóton no intervalo entre as medições? Ele era partícula? Ou era onda? Essa é a essência da dualidade onda-partícula; assim, a teoria quântica estuda as propriedades ondulatórias que ela atribui às partículas.

Para falarmos mais rigorosamente sobre a dualidade, enunciemos o seguinte: um fenômeno quântico é um conjunto composto pelo objeto quântico e pelo aparelho de medição, que, dependendo de seu arranjo, determina se o objeto terá aspecto corpuscular ou ondulatório. Por isso, o aparelho de medição deve ser incluído no conceito de fenômeno quântico: nos dois tipos de experimentos com o interferômetro, um teve aspecto corpuscular e outro teve aspecto quântico. Daí que um fenômeno é corpuscular se, após uma medição, segundo certo arranjo do aparelho, para ele puder ser discernida uma trajetória, quer dizer, se for possível (mesmo que em apenas em princípio, sem de fato ocorrer uma medição) saber se ele passou por um ou por outro dos caminhos possíveis. E será um fenômeno ondulatório se uma trajetória não for distinguida, devido a uma superposição de suas possibilidades, assim como ocorre com o fenômeno de interferência de ondas; a oposição entre os caminhos, representada pelo conectivo lógico ‘ou’, não se aplica nesse caso. Não se trata aqui de ter passado por um ou outro caminho. Mas como poderia ter o objeto passado por um e por outro caminho?

Apesar de todas essas perguntas, há um formalismo mínimo, uma equação, produzida por Erwin Schrödinger, que permite lidar com todas essas probabilidades, com todas essas incertezas, de maneira que funciona o suficiente para construir computadores, televisões, etc. E muitos físicos dizem que é só isso que importa, tanto faz se passou ou não passou por um ou outro lado: nós temos as equações e pronto! O problema é que eles se esquecem que foi a partir de respostas a perguntas de cunho interpretativo, como essas, que muitos passos foram dados até que se chegasse a tais equações preciosas, além da proposição de experimentos que confirmam ou refutam partes principais da teoria. De modo que investigar o campo não é supérfluo, e todos os grandes nomes da Física se detiveram nessas questões, procurando respostas, tentando simbolizar esse real que escapa à nossa compreensão. E nada garante que, ao ignorar a interpretabilidade da teoria, os físicos pragmáticos não estejam, justamente, interpretando-a.

De modo que um dos pontos de maior interesse aqui é tentar entender o que o dualismo onda-partícula nos trouxe. Ele pode ser expresso em um dos princípios fundamentais da Teoria quântica, a saber, o princípio de superposição. Como já vimos na descrição das propriedades ondulatórias, a soma de duas ou mais ondas é uma superposição de seus estados. Essas superposições podem ser de dois tipos: construtivas ou destrutivas, de acordo com a coincidência ou não de suas fases.

Outra definição propedêutica é a de estado do sistema quântico. No experimento do interferômetro, o estado é definido como o valor medido pelo detector (autovalor) quando a partícula tiver passado ou pelo caminho A ou pelo caminho B, ou seja, é a posição da partícula. Esses dois estados são ditos ortogonais, porque se a trajetória A for medida, a trajetória B não será: elas são mutuamente exclusivas.

No entanto, o princípio quântico de superposição enuncia que se um sistema quântico (como uma partícula que passa pelo interferômetro) tiver dois ou mais estados possíveis, a soma desses estados é também um estado possível para o sistema (PESSOA JR., p. 23). Assim, no interferômetro, antes da medição efetiva do estado da partícula, há a possibilidade de que seu estado inclua as duas possibilidades de trajetória. Mas o que isso quer dizer? A partícula está nos dois lugares ao mesmo tempo? As equações não respondem a essas perguntas, nem se interessam (e alguns intérpretes da teoria as imitam).

A dificuldade que se impõe então é: quando o estado quântico está em superposição – ou seja, ele ainda não foi medido por um instrumento de detecção – trata-se de uma onda ou uma partícula? E, mais ainda: essa superposição é real, quer dizer, própria do objeto físico, ou reflete apenas a ignorância do observador e seu aparelho de medição, que não conseguem medir com precisão a posição em que a partícula se encontra? Outra pergunta: no estado superposto, a partícula tem realidade física? Há realmente um objeto físico nesse momento? Se não, o que é que há?

Esse é o núcleo fundamental da função de onda na física quântica: ela não comporta as distinções entre os estados (as trajetórias) da partícula; ela é o próprio indiscernível, a própria indistinção da matéria. O que é dizer que não é possível saber se há alguma partícula ali, atravessando o interferômetro. Em outras palavras, é impossível saber o que ocorre com uma partícula em seu estado de função de onda: não sabemos sequer se é partícula. É um umbigo na física quântica, tal como Freud mostra o umbigo do sonho: lá, não temos como saber o que se passa, pois a posição para a partícula se ramifica para todas as possibilidades de trajetórias disponíveis. No entanto, é de lá que as partículas surgem como tais somente após passarem pelo interferômetro, no momento da medição. Antes de uma medição ser efetuada, não é possível saber nada a não ser as probabilidades de a partícula estar passando por uma ou outra trajetória.

Um ‘experimento de pensamento’ reflete isso de maneira exemplar. Antes de passar à sua explanação, podemos perceber pelo que foi dito até aqui que o ato de medir a posição da partícula (ou seja, a interação entre o objeto quântico e o aparato macroscópico) altera o sistema quântico. Por exemplo, porque uma partícula, enquanto não é detectada, exibe comportamento ondulatório, mas quando se a mede, ela reduz seu estado quântico para um comportamento corpuscular?

Imagine que no experimento com o interferômetro completo queiramos medir de fato o momento em que a partícula está entre o espelho semi-refletor S1 e o espelho E1, que direciona a partícula rumo a S2, para vermos por qual caminho ela passou. Assim, colocamos um detector D3 entre S1 e E1. 

Se o detector D3 for acionado, a partícula passou pelo caminho A, ao passo que se nada for detectado, a partícula passou por B. Com isso, teremos 50% de probabilidade para cada caso. No entanto, o que acontece é algo surpreendente: se na experiência original o único detector no qual as partículas incidiam era D1, devido ao padrão de interferência causado por S2, ao se medir por qual caminho o fóton passou, o padrão de interferência desaparece! Ou seja, 50% das vezes haverá detecção em D1 e 50% em D2! Isso mesmo se o detector não medir nada, (caso em que houve trajetória B), quer dizer, sem que haja qualquer interação direta entre a partícula e o detector, o que implica que não é devido à interação com o aparato de medição que faz o padrão de interferência desaparecer; é o simples fato de ter havido uma trajetória. Isso quer dizer que se os caminhos dos fótons forem discernidos, ou seja, se houver trajetória detectável para as partículas, elas deixam de exibir a função de onda, deixam de interferir: o seu estado quântico reduz drasticamente – “colapsa”, no jargão –, e o comportamento exibido passa a ser de partícula. Por que a medição destrói o padrão de interferência? O que significa o ato de medir um objeto quântico? O observador está implicado nisso, enquanto medidor?

Erwin Schrödinger, que produziu o fundamento do formalismo mínimo com uma equação da evolução do sistema quântico, propôs o seguinte ‘experimento de pensamento’: ponha um gato dentro de uma caixa junto com um átomo radioativo e um detector que aciona um mecanismo que mate o gato caso o decaimento do átomo (que ocorrerá ou não, de acordo com as leis probabilísticas da mecânica quântica) ative o detector. Antes de abrir a caixa, o gato estará vivo ou morto? Há uma probabilidade de 50% de o átomo decair, acionando a ‘máquina diabólica’ que mata o gato, e há uma probabilidade de 50% de o átomo não decair, deixando o gato vivo. As duas possibilidades de decaimento estão superpostas. Isso quer dizer que a vida e a morte do gato também estão em superposição? O gato está em um estado meio-vivo e meio-morto, como um zumbi? Ora, se abrirmos a caixa e olharmos (ou seja, se efetuamos uma medição), o gato estará em apenas um dos estados. Mas e enquanto não olhamos? Há físicos que afirmam categoricamente que o gato, também, está com a vida e a morte superpostas, ou seja, é fisicamente indiscernível se o gato está vivo ou morto – é como se ele estivesse vivo e morto. E o fato de olharmos o conteúdo da caixa determina o conteúdo da caixa – ou o gato estará vivo ou morto, colapsando assim a função de onda que mantinha o gato em superposição.

Interessa aqui com esse exemplo é ressaltar essa propriedade fundamental da função de onda: a superposição das possibilidades de orientação topológica de seus elementos. Nessa superposição nos deparamos com um Real, no sentido que Lacan coloca: o de impossibilidade de marcação para a posição do gato; não há significante, não há discernível para expressar o seu estado quântico (ou seja, superposto). Isso é o que significa uma onda na física quântica: uma função de superposição de possibilidades para distinções e orientações topológicas de um elemento físico (nomeadamente uma partícula). A função de onda (que se grafa com o símbolo Ψ – o que é muito digno de nota) é propriamente uma impossibilidade radical de se saber o que se passa em nível quântico; é um furo, um indiscernível que nenhum saber poderá capturar. É como diz Anton Zeilinger, da Universidade de Viena: “A superposição de amplitudes [...] é apenas válida se não houver maneira de saber, mesmo em princípio, qual caminho a partícula tomou” (ZEILINGER – grifo nosso). Ou seja, a função de onda é algo que não faz sentido na física quântica – bem literalmente: por qual sentido (trajetória) a partícula passou? É impossível saber. É precisamente aí que se manifesta na física (poderíamos ainda dizer: na ciência mesma) o que Lacan chama de Real. O real, na física quântica, é precisamente o que a função de onda materializa. Ou melhor: a função de onda demonstra fisicamente a ‘ek-sistência’ do que Lacan chamava de Real – para além de qualquer possibilidade de nomeação e significação. Por isso é que as reações ocasionadas pelas descobertas que se desenvolveram nesse campo foram as mais estupefatas: Niels Bohr, um dos nomes mais importantes da física moderna, foi taxativo: “aqueles que não se chocam ao entrar em contato com a teoria quântica não podem tê-la compreendido” (NETO, 2010, p. ix) – isso deveria também valer para a psicanálise, a propósito. Richard Feynman, prêmio Nobel, disse: “é seguro dizer que ninguém entende a mecânica quântica” (bid.). Sir Roger Penrose: “A mecânica quântica não faz o menor sentido” (Ibid.). Não é preciso dizer mais para demonstrar que os físicos também se depararam com aquilo que Freud chamou de Unheimlich, o estranho, o inominável – o umbigo.

Pois bem, vemos com clareza que o real com que a física quântica se depara é propriamente ondulatório. É na função de onda (Ψ) que se encontra, na física, o que Lacan chamava de real. Mas como compreender que a interpretação incide sobre o real e produz ondas? O que é ‘produzir ondas’? O que Lacan queria dizer com ‘ondas’?

Lacan, ao final de seu ensino, comparava a interpretação ao chiste e à escrita poética. Isso porque ambos fazem equívoco (bévue) e ressoam o sentido. “Com a ajuda do que se chama escrita poética, vocês podem ter a noção do que poderia ser a interpretação analítica”; “Estar eventualmente inspirado por algo da ordem da poesia para intervir enquanto psicanalista? É precisamente para isso que é necessário orientá-los” (LACAN, Seminário 24, 19/04/77). A escrita poética, o chiste, são efeitos do inconsciente que não são de maneira alguma unívocos – são precisamente equívocos –, ou seja, não impõem o sentido, senão como impossível. Na interpretação, o sentido se torna impossível, e é daí que aparece sua eficácia enquanto demonstração do real. Lacan dá exemplos disso até mesmo nos títulos de seus seminários: “les non-dupes errent”, ou “l’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre” – frases cujos sentidos são indecidíveis, pois oscilam (como quem diz ‘ondulam’) entre dois ou mais sentidos – entre dois ou mais significantes. Digamos que, na interpretação, o sentido espalha sua trajetória, sua consistência, tal como uma onda. É isto que a operação de interpretação tem que fazer com os elementos que se apresentam na fala: reduzi-los a equívocos, para que a partir deles as possibilidades de decantação do sentido emerjam por si sós – mas a emergência de sentido é secundária à intervenção analítica, que visa o real. “Nada mais fácil que patinar na equivocação (bévue), quer dizer, em um efeito do inconsciente” (LACAN, Seminário 24, 10/05/77). Assim, o equívoco, enquanto efeito do inconsciente, está alinhavado com o real, por ser uma articulação simbólica (feita a partir dos elementos significantes na fala) em que o sentido se dissolve, se espalha, pela miríade de sentidos que tal elemento simbólico possa ter – já que esse elemento originalmente não tem nenhum sentido, ele é sem-tido. Não se trata de encontrar os sentidos (latentes) para o significante, mas sim de simplesmente realizar o significante, ou seja, reduzi-lo ao sem-tido (sens/sans, no francês) que ressoa, que produz ondas nele mesmo – como uma partícula de propriedades ondulatórias (objeto de estudo da física quântica): “isso consiste em servir-se de uma palavra para outro uso que não aquele para o qual ela está feita, se a retorce um pouco e é nessa torção que reside seu efeito operatório” (LACAN, Seminário 24, 17/05/77). Torção que é da ordem de uma topologia unilátera, como a banda de Möebius: de um sentido a outro na mesma superfície.

"No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer 
nascimentos - 
O verbo tem que pegar delírio."

(Manoel de Barros, "O Livro das Ignorãças", VII) 

Podemos então perceber que a estrutura do equívoco na interpretação analítica é exatamente igual à da função de onda na física quântica. Tomemos o exemplo do gato de Schöedinger. O gato, assim como o significante, está em um dado estado, em um dado sentido – “vivo” ou “morto”. A ênfase recai nesse “ou”: quando digo uma palavra na análise, quero dizer alguma coisa, e não outra. A interpretação incide na palavra não para dar-lhe outro sentido, nem para buscá-lo enquanto recalcado. A interpretação só serve para exibir o não-senso radical do significante, em que não se sabe se o gato (como significante) está “vivo” ou “morto”; se a palavra é “les non-dupes errent” ou “le nom du père”. A homofonia é um caso dessa lógica. Mas a lógica, para além do caso da homofonia, é uma lógica em que um mesmo elemento, uma mesma partícula, um mesmo e único significante, (o “gato”) está superposto em, no mínimo, duas possibilidades opostas (ou seja, simbólicas enquanto tais) de seu estado: presente/ausente, vivo/morto, ou, como Slavoj Zizek prefere, “undead”. Freud mesmo diz: “a alternativa ‘ou... ou’ nunca se expressa nos sonhos” (FREUD, 2006, p. 679). Esse efeito não é algo que se compreende – até mesmo por ser paradoxal –, mas que se demonstra como tal na sua própria impossibilidade de compreensão. Essa demonstração do impossível é o efeito que a interpretação analítica propõe. Digamos que entre estar vivo ou morto, o gato está “ou”, enquanto puro equívoco entre seus estados quânticos. É para a função “ou”, ou seja, para a função Ψ, que o analista deve apontar como uma bússola na direção do tratamento – para essa região imprecisa e inabordável em que o significante não está nem vivo, nem morto, mas e(qui)voca tanto a vida quanto a morte. O analista não diz o sentido (topológico) do gato: diz o silêncio unilátero do “ou”, apontando, como o São João de Leonardo da Vinci, para o topos impossível e equívoco da função de onda – o ‘horizonte desabitado do ser’:



Há um conhecido verso budista que parece ter sido feito para descrever a interpretação, especialmente se o articularmos com o quadro de Da Vinci:

Quando curiosamente te perguntarem, buscando saber o que é aquilo, não deves afirmar ou negar nada. Pois o que quer que seja afirmado não é a verdade. E o que quer que seja negado não é verdadeiro. Como alguém poderá dizer com certeza o que aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tenha compreendido o que é? E, após tê-lo compreendido, que palavra deve ser enviada de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde possa seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece-lhe apenas o silêncio. Silêncio – e um dedo apontando o caminho.

O verso deixa muitas coisas bem claras: quando um analisando pergunta ao analista o sentido de seu sintoma, o analista não responde nem uma coisa (tipo “o gato está vivo”) nem outra (“o gato está morto”). O analista também não compreende. Sua função é apenas apontar para o analisando a experiência de real, ou seja, a experiência do indizível “ou” (“o gato está undead”). E essa experiência é do analisando, não do analista, cuja função é apenas a de apontar o caminho para (o analisando ‘compreender’) o impossível, o indizível. O dizer de um analista tem que apontar para o Silêncio (do) real do ‘horizonte desabitado do ser’: de lá dessa região o analisando traz na sua carruagem simbólica as meias-palavras (já que a verdade só pode ser semi-dita – ou o gato está “vivo” ou está “morto”) que digam dessa experiência – aí sim, reabitando o horizonte do (seu) ser. Se a psicanálise é o tratamento que se deve esperar de um psicanalista, como Lacan diz, a única coisa que se deve esperar de um psicanalista é que ele aponte para esse caminho quando age. De resto, só há psicologia. Poderíamos dizer que a diferença entre a psicologia e a psicanálise é análoga à diferença entre física clássica e física quântica.

Dessa forma, se a interpretação não é feita para ser compreendida, é porque a interpretação não se confunde com compreensão. Isso concerne tanto analista quando analisando. O analista não deve ‘compreender’ o analisando, interpretá-lo hermeneuticamente, kleinianamente; nem o analisando precisa compreender uma interpretação propriamente analítica, pois ela evoca justamente o real, o impossível de compreender. Lacan mesmo já dizia: “uma das coisas que mais devemos evitar é compreender muito, compreender mais do que existe no discurso do sujeito. Interpretar e imaginar que se compreende, não é de modo algum a mesma coisa. Eu diria mesmo que é na base de certa recusa da compreensão que empurramos a porta da compreensão analítica” (LACAN, 1986, p. 90).

Na verdade, esse modo, real, de conceber a intepretação torna a palavra ‘interpretação’ um nome “equivocado” para a operação analítica, já que ‘interpretar’, no dicionário, significa “traduzir [que é propriamente simbólico], ajuizar da intenção, do sentido [que é propriamente imaginário], exprimir o pensamento” (LEXIKON, p. 442). Até porque o próprio do real é justamente não poder ser interpretável, apenas demonstrável: e, por isso, ao contrário, é o real que interpreta, no que ele se demonstra – a interpretação parte do real. Poderíamos então equivocar o nome “interpretação” seguindo a maneira pela qual Lacan passa da intersubjetividade – enquanto a função de comunicação e sentido da linguagem – para a intra-subjetividade – enquanto monólogo e equívoco: “a linguagem não é, ela mesma, uma mensagem” (LACAN, 2007, p. 32). O ‘inter’, que significa entre, implica o Dois, a articulação S1 – S2 que produz o sentido, a mensagem a ser decifrada no inconsciente; já o ‘intra’, que significa para dentro, é da ordem do Um, do equívoco do Um consigo mesmo, sem sentido latente, sem Outro significante. Isso equivale a passar da suposição de que se fala com alguém, que compreende o sentido do que se diz, para a compreensão de que “estou falando com as paredes. Nem com vocês, nem com o Outro maiúsculo. Estou falando sozinho. É precisamente isso que lhes interessa. Cabe a vocês me interpretar” (LACAN, 2011) – com todo o equívoco que a palavra ‘interpretar’ tem aqui: entre o hermenêutico e o psicanalítico. Assim, a operação analítica bem poderia se chamar “intrapretação”, pois não é uma função inter-significantes, de articulação e sentido, mas uma função intra-significante, de desarticulação, indistinção e equívoco – não é da ordem do Dois, mas do Une-bévue, da superposição do Um consigo mesmo, do “caráter bífido do Um” (LACAN, 2012, p. 130). Não se trata de buscar o Outro significante latente, mas de intervir em cada Um significante para equivocá-lo.

Dito isso, o fundamento real da 'intrapretação', analítica como tal, é uma intervenção que requer o qualificador de “quântica”, ou “não-clássica”; a função da interpretação é uma função de onda (Ψ) que incide no significante. “Com efeito, é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera. É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe” (LACAN, 2007, p. 18 – grifo nosso). Ψ tem a estrutura de ressonância do equívoco, da superposição ondulatória de sentidos do significante, tal como a escrita poética para Lacan: “usar a escrita para equivocar pode servir... porque precisamos do equívoco para a análise... Nós precisamos do equívoco, é a definição da análise” (Lacan, Sem. 25, 15/11/77). De modo que a única intervenção que pode ser descrita como propriamente psicanalítica é aquela que tem efeito de uma função de onda – seja isso na escrita, na fala, na imagem, no som, onde quer que seja. Essa intervenção não é para ser compreendida – e nem há como compreendê-la –, basta que demonstre, produza, a hiância real do inconsciente, que faz o significante ressoar como uma onda quântica. Em suma, a intrapretação é feita para produzir um gato de Schrödinger – como MC Escher sempre deixa muito claro em seus trabalhos:


REFERÊNCIAS:

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

SOUZA LEITE, Márcio Peter. Sobre a Interpretação. Disponível em: http://www.marciopeter.com.br/links/ensino/direcao/09_sobre_a_interpretacao.pdf. Acesso em 28/05/2013.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos Sonhos. ESB, Vol. V. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

SANTIAGO, Jésus. O Tempo como Contingência na Experiência Analítica. In: O tempo, o Objeto e o Avesso – ensaios de Filosofia e Psicanálise. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.


CUNHA, Antonio Geraldo da. Dicionário etimológico Lexikon. Rio de Janeiro: Lexikon, 2007.

COUTINHO JORGE, Marco Antonio. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan, vol 2: a Clínica da Fantasia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

___________________________ (org). Aforismos de Jacques Lacan. Disponível em: http://www.macjorge.pro.br/pdfs/intervencoes/textosbreves/Aforismos_de_Lacan.pdf Acesso em 03/06/2013.

LACAN, Jacques. A terceira. Disponível em: http://www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=jlacan031105_2. Acesso em 28/05/2013.

PESSOA Jr., Osvaldo. Conceitos de Física Quântica, Vol. I. São Paulo: Livraria da Física, 2003.

ZEILINGER, ANTON. Experiment and the foundation of quantum mechanics. Rev. Mod. Phys. 71: S288 – 297. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Quantum_superposition. Acesso em 28/05/2013.

LACAN, Jacques. O seminário 1: o escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

LACAN, Jacques. O seminário 19: ...ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.

LACAN, Jacques. O seminário 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

LACAN, Jacques. O seminário 24: L’Insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Inédito.

LACAN, Jacques. O Seminário 25: O momento de Concluir. Inédito.

______________. Estou falando com as paredes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011.

NETO, Nelson Pinto. Teorias e interpretações da mecânica quântica. São Paulo: Ed. Livraria da Física, 2010.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A instância do bit no inconsciente ou a razão desde o quantum

“Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela: ‘aquela rapariga parece um rapaz’. Um outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela: ‘Aquela rapariga é um rapaz’. Outro ainda, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afeto pela concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela ‘Aquele rapaz’. Eu direi ‘Aquela rapaz’, violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de género, como de número, entre a voz substantiva e a adjectiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.

A gramática, definindo o uso, faz distinções legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter o verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quer dizer que existo, direi ‘Sou’. Se quer dizer que existo como alma separada, direi ‘Sou eu’. Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesmo se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei-de empregar o verbo ‘ser’, senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi ‘Sou-me’. Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isso a não falar nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção?

Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões” 

(Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, #87)



“L’Inconscient est structuré comme un langage” 

(Jacques Lacan, 1953)


Todo o ensino proposto por Jacques Lacan (1901-1981) foi o de sustentar o cerne da descoberta freudiana a partir da interrogação sobre o campo de sua atuação: o da linguagem. Como é que a fala tem o poder de curar? Ou adoecer? O que é a fala, qual é o seu campo, a sua lógica? Esse questionamento atravessa sua obra de ponta a ponta em dois grandes ‘classicismos’, como diz Jean-Claude Milner, que se constituem como respostas ao que se quer dizer quando se fala da linguagem.
 
No chamado ‘primeiro ensino’, Lacan propõe que o psicanalista se abdique de ser psicólogo, ou seja, não busque tentar entender o que é o pensamento, qual é a sua essência, e se concentre apenas com o dado ’empírico’ que ele tem para atestar efeitos do inconsciente freudiano: a função da fala no campo da linguagem; é assim que se exprime o mote de seu primeiro ensino. “Quer se pretenda agente de cura, de formação ou de sondagem, a psicanálise dispõe apenas de um meio: a fala do paciente” (LACAN, 1996, p. 249). De modo que nesse primeiro ensino, Lacan tenta buscar a estrutura lógica do inconsciente na linguagem, e, para tal, servindo-se especialmente da linguística estrutural, que, segundo ele, se apresentava à época numa posição-piloto na conquista do status de objeto científico pela linguagem (LACAN, 1996, p. 499). Se o inconsciente é estruturado como uma linguagem, estudemos o que a linguagem é, cientificamente.

Se a obra de Freud só trata de processos de produção de sentido, de significação, Lacan destaca da linguística as duas funções engendradas numa significação: a função significante (que é o material que significa o significado) e o significado (que é aquilo a que o significante se refere). “A temática desta ciência [a linguística], por conseguinte, está efetivamente presa à oposição primordial do significante e do significado, como ordens distintas e inicialmente separadas por uma barra resistente à significação.” (LACAN, 1996, p. 500): “eis o que tornará possível um estudo exato das ligações próprias do significante e da amplitude da função destas na gênese do significado.” (LACAN, 1996, p. 501). O que implica que significado só surge quando dessas ligações entre significantes, quer dizer, a primazia do significado é o significante, porque o significado de um significante é outro significante, articulação essa que forma uma cadeia interminável em que os significantes se significam mutuamente quanto mais se articulam entre si. “Ora, a estrutura do significante está em ele ser, como se diz comumente da linguagem, articulado” (LACAN, 1996, p. 504). Assim, a introdução do estudo da linguística na psicanálise é para que se entenda que a estrutura que Freud destaca no inconsciente é uma estrutura de linguagem, quer dizer, de articulação, implicando, a partir da oposição significante/significado, que o significante não tem que responder por sua existência a título de uma significação qualquer (LACAN, 1996, p. 501), ou seja, o significante pode ter qualquer significado: basta alterar sua articulação. “A descoberta de Freud é a do campo das incidências, na natureza do homem, de suas relações com a ordem simbólica, e do remontar do seu sentido às instâncias mais radicais da simbolização no ser. Desconhecer isso é condenar a descoberta ao esquecimento, a experiência à ruína” (LACAN, 1996, p. 277). A ordem simbólica é a lei do significante: “isso quer dizer que suas unidades (...) estão submetidas à dupla condição de se reduzirem a elementos diferenciais últimos e de os comporem segundo as leis de uma ordem fechada. Esses elementos, descoberta decisiva da linguística, são os fonemas” (LACAN, 1996, p. 504). Ainda Lacan: “a forma de matematização em que se inscreve a descoberta do fonema, como função dos pares de oposição compostos pelos menores elementos discriminativos captáveis da semântica, leva-nos aos próprios fundamentos nos quais a doutrina final de Freud aponta, numa conotação vocálica da presença e ausência, as origens da função simbólica” (LACAN, 1996, p. 286). Lacan está dizendo que a estrutura simbólica, a estrutura do significante, é sempre uma estrutura de oposição entre diferenças. Um significante é sempre uma oposição para com outro significante, que é seu significado. São pura e simplesmente articulações de diferenças; as diferenças no interior de uma estrutura de uma língua são os fonemas. “A primeira rede, a do significante, é a estrutura sincrônica do material da linguagem, na medida em que cada elemento adquire nela seu emprego exato por ser diferente dos outros” (LACAN, 1996, p. 433) (grifos meus). (‘Material’ da linguagem? O que é ‘material’? O que é matéria? Até onde se fala, matéria é algo físico. A linguagem não é algo físico para Lacan, mas tem materialidade. Retornaremos a isso para redefinição do que seja matéria). E, para arrematar, Lacan nos indica a mais elementar, a mais nuclear sequência simbólica, “a de uma série linear de sinais que conotem a alternativa da presença e ausência” (LACAN, 1996, p. 433). Assim, resumo: o inconsciente freudiano, para Lacan em seu primeiro ensino, é a estrutura em que elementos diferenciais, opositivos, (fonemas) se articulam, significantemente, para assim engendrar significados a esse material.

É importante salientar que, com seu recurso à linguística, Lacan queria escapar de “qualquer semiologia mais ou menos hipoteticamente generalizável” (LACAN, 1996, p. 499), para se ater ao “estudo das línguas existentes em sua estrutura e nas leis que nela se revelam” (ibid.), cuja posição piloto na ciência da linguagem a linguística se constituía para Lacan. Isso implica a exclusão da referência a outras disciplinas, como a teoria dos códigos abstratos ou a teoria da informação, constituída pela física (Ibid.). Isso porque Lacan, em seu primeiro ensino, destacava a primazia da intersubjetividade da linguagem em oposição à intra-subjetividade: “à medida que a linguagem se torna mais funcional, ela se torna imprópria para a fala (tipo alguém que só fale frases prontas, por exemplo), e ao se nos tornar demasiadamente particular, perde sua função de linguagem (tipo um doido de pedra delirando)” (LACAN, 1996, p. 300). “Finalmente, é por uma intersubjetividade do ‘nós’, que ela [uma pessoa] assume que se mede numa linguagem seu valor de fala” (Ibid.). Isso significa que, para Lacan, a linguagem não é redutível à informação. A informação exclui o que se chama de redundância, que é tudo o que for supérfluo para a constituição da informação. “O sentido de uma mensagem continua inalterado mesmo se partes dela forem removidos. Essa é a essência da redundância” (SEIFE, 2010, p. 17-8), ou seja, a informação é a mensagem menos sua redundância. Para Lacan, a mensagem do sintoma implica sua redundância, pois como ele mesmo diz: “o que é redundância para a informação é precisamente aquilo que, na fala, faz as vezes de ressonância” (LACAN, 1996, p. 300), ou seja, leva à informação ‘contida’ no inconsciente. Com isso, Lacan dá uma dica clínica muito precisa: é como se o sintoma, ele mesmo, fosse a redundância cuja informação está recalcada, de modo que é destacando redundâncias na fala do paciente que se chega ao núcleo informacional do inconsciente. A linguagem, do inconsciente, é de redundância, ou seja, de ressonância, pluralidade de sentido, e não a informação completa, irredutível em seu sentido. A função da linguagem no inconsciente “não é informar, mas evocar” (LACAN, 1996, p. 301). Ao que completo: “não é informar, mas e(qui)vocar”. Lacan quer dizer então que a informação é a anexação de um significante a um significado de maneira cabal, não passível de outros sentidos, e o significante verdadeiramente significante não tem que responder por sua existência a título de uma significação qualquer, já que qualquer significação lhe é possível. O que há de diferente entre a informação e o significante é, principalmente, a capacidade de superposição do significante (LACAN, 1996, p. 553), destacada por Lacan no advento do sintoma, que é metáfora: “Quero apenas indicar o fato de que, do mais simples ao mais complexo dos sintomas, a função do significante revela-se preponderante, por surtir efeito neles já no nível do trocadilho” (LACAN, 1996, p. 448), o qual nada mais é do que a dita superposição de significantes. Já a informação, para Lacan, não é trocadilho, não é redundância, não é equívoco, não é metáfora; são as “coalescências do significante com o significado às quais toda resistência se agarra, toda sugestão se alicerça” (LACAN, 1996, p. 440). Será mesmo?...

Lacan, ao longo de seu ensino, começa a perceber que essa decifração das mensagens cifradas que constituem os sintomas não são suficientes para resolvê-los. Se num primeiro momento, Lacan dizia que “já está perfeitamente claro que o sintoma se resolve por inteiro numa análise linguageira, por ser ele mesmo estruturado como uma linguagem” (LACAN, 1996, p. 270), após alguns anos, reformula o que pensa, constituindo assim seu ‘último ensino’. Primeiro, a gênese da função de significação é deslocada do simbólico para o real. “O real é o que comanda toda a função da significância. O real é aquilo com que vocês deparam, justamente por não poderem escrever em matemática seja o que for. O real é o que concerne a que, no que é a função mais comum, vocês se banham na significância, mas não podem segurá-los todos ao mesmo tempo, os significantes. Isso é proibido pela própria estrutura deles. Quando vocês têm alguns, um embrulho deles, não têm todos. Eles são recalcados. Isso não significa que vocês não os digam, ainda assim”( LACAN, 2012, p. 29). Essa mudança na orientação de seu ensino significa que, para Lacan, a última palavra sobre a estrutura do inconsciente não é a linguagem, mas a lógica. “O real pode se definir como o impossível, é como ele se revela no assentamento do discurso lógico. Esse impossível, esse real, deve ser privilegiado por nós. Nós quem? Os analistas. Isso porque ele é o paradigma do que questiona o que pode sair da linguagem. (...) Proponho a encontrar nesse real que se afirma pela interrogação lógica da linguagem o modelo do que nos interessa, ou seja, do que a exploração do inconsciente revela” (LACAN, 2012, p. 40). Lacan procura pelo fundamento lógico da linguagem: qual é a lógica que exploração do inconsciente revela?

Lacan se faz esse questionamento porque “o que Freud descobre no inconsciente (...) é algo bem diferente de nos darmos conta que, grosso modo, podemos dar um sentido sexual a tudo que sabemos. (...) É o real que permite desatar efetivamente aquilo em que consiste o sintoma, a saber, um nó de significantes. Atar e desatar aqui não são apenas metáforas, mas a serem apreendidos como os nós que realmente se constroem ao formarem cadeia com a matéria significante. Pois essas cadeias não são de sentido (sens, em francês), mas de gozo-sentido (jouis-sens, jouissance, j’ouis sens são grafias possíveis para a palavra falada), a ser escrito como quiserem, de conformidade com o equívoco que constitui a lei do significante” (LACAN, 2007, p. 515). Assim, não é mais o simbólico que resolve o sintoma por inteiro numa análise de linguagem. Não é a via dos diversos sentidos que Lacan promove aqui, pelo contrário, é fazer surgir no sintoma o não senso radical de seu sentido, uma vez que “o significante se distingue por não ter nenhuma significação” (LACAN, 2012, p. 217). Ora, se o significante não tem nenhuma significação, o que é o sintoma, então? “Sintoma é aquilo que vem do real” (LACAN, A Terceira), o que implica que “a linguagem não é, ela mesma, uma mensagem, mas se sustenta apenas pela função do que chamei de furo no real” (LACAN, 2007, p. 32). Esse furo é simplesmente a marca distintiva que cada significante constitui: uma diferença pura, sem remeter a nenhuma outra, ou seja, sem fazer sentido algum: um limbo entre significações. Tomemos o que Freud falou sobre a significação antitética das palavras primitivas: uma palavra que significa seu próprio contrário. Por exemplo, a palavra em inglês get. Ela significa tanto dar quanto receber; essa oposição entre significados é o próprio simbólico: OU ela significa dar OU receber: um sentido de cada vez. Mas quando Lacan quer privilegiar o real da linguagem ele não quer se situar numa oposição, pois a linguagem é oposição, ou seja, um significante enquanto Outro significante. Lacan quer sair fora do ‘que é que isso significa?’, ou ‘fale mais sobre isso’ (até porque isso é muito limitado na prática clínica), ou seja, quer sair da implicação de que há sempre outro sentido para aquilo, para fazer algo com o que se diz de maneira não opositiva, o que significa suspender radicalmente o sentido do sintoma, e não buscar outro. Essa suspensão só se dá pela função do real, que não privilegia Outros sentidos, mas o não-senso do próprio sentido, que não passa de articulação, em nós, dos significantes. O real não está no campo opositivo dos significantes, em que um significante sempre tem que significar outro, mas na pura neutralidade da falta de sentido radical para o significante – que a partir daí pode ter quantos sentidos se queiram, quantas articulações forem possíveis. E Lacan é textual: “eu garanto que em uma frase pode se fazer com que qualquer palavra venha a dizer qualquer sentido” (A Terceira). Nisso, a psicanálise tem que se distanciar da linguística como o fundamento da estrutura do inconsciente, que é essa neutralidade que só atestamos a partir do não senso do simbólico. Se num primeiro momento Lacan diz que a estrutura é de linguagem, fica claro que nesse segundo tempo Lacan fala que “a estrutura é lógica” (LACAN, 2012, p.  38).

Em quê a lógica serve a um psicanalista? Lacan se serve dela para sair do que ele próprio chamava de anedotário. Uma anedota é uma conteudização conceitual; por exemplo, que o complexo de castração se resume a o pai dizer que vai cortar a piroquinha da criança fora, ou que o Complexo de Édipo é “filho-quer-comer-mamãe/filho-quer-matar-papai”. Esses são conteúdos da lógica que rege o Inconsciente. Por outro lado, todo o esforço que Lacan procura é entender como o inconsciente funciona em termos puramente lógicos, que simplesmente exprimem o modo de funcionamento de determinado mecanismo. O movimento de Lacan é de afastamento progressivo das anedotas

para a relação puramente diferencial da equação matemática, própria ao manejo científico do simbólico depurado do imaginário. O discurso da ciência se vale da letra matemática como colocação em ato daquilo que Jacques-Alain Miller nomeia de significante sem intenção, na medida em que o elemento que se “literaliza” na fórmula científica por si só não quer dizer nada a ninguém; ele somente vale como peça da engrenagem mecânica que a fórmula matemática exibe (TEIXEIRA)

A psicanálise, a partir de Lacan, começa a fazer um uso científico da lógica matemática para desconteudizar, depurar simbolicamente os conceitos freudianos e dar-lhes maior rigor ao reduzi-los a relações entre diferenças, expressas com letras, tal como uma fórmula científica, para que o psicanalista não caia na tentação dos conteúdos do inconsciente, suas casuísticas. A conceituação do inconsciente “não pode reduzir-se à anedota, ao acidente” (LACAN, 2012, p. 40); o que interessa é o vazio da estrutura, e não conteúdos anedóticos. Sem o uso vazio da lógica torna-se impossível continuar a trilhar um caminho mais científico, ou seja, mais desconteudizado, para a psicanálise. É como Lacan diz: “o discurso analítico não é um discurso científico, mas um discurso cujo material a ciência nos fornece, o que é bem diferente” (2012, p. 136)

Ora, se desde a morte de Lacan, muita coisa aconteceu no campo da ciência, da lógica, não é possível parar no ponto em que Lacan nos deixou ao morrer. É sempre necessário continuar a submeter a teoria psicanalítica à análise, quer dizer, perenemente exercitar o trabalho de bem dizê-la; sem isso, a teoria lacaniana também se torna um novo anedotário. Lacan bem sabia que suas próprias ideias poderiam cair nessa armadilha, e até por isso seu ensino teve uma virada ao privilegiar a abordagem lógica do real do inconsciente ao invés da sua suposta estrutura de linguagem, que figurava nos primeiros anos de suas formulações. Assim, nosso esforço aqui é o de prescindir de certas formulações fundamentais que Lacan trouxe para a psicanálise com a condição de nos servirmos precisamente delas para a realização de tal tarefa. Seguiremos Lacan por um caminho por onde ele não foi.



Então o questionamento que nos trouxe até aqui por ora é o mesmo de Lacan: como a fala pode adoecer ou curar? O que é a fala?

Vimos que um primeiro Lacan supôs ser a linguagem a estrutura dos efeitos patológicos ou curativos da fala. Vimos um segundo Lacan que tentou entender essa linguagem em termos puramente lógicos, e não propriamente linguageiros, o que afastou a psicanálise de um anedotário linguístico para a fundamentação do conceito de inconsciente. Tudo o que for de acordo com a lógica do inconsciente serve para estruturá-lo, não apenas a linguagem, pois também há o real. E, para Lacan esse real é lógico, ou seja: mostra o limite da linguagem quanto ao que ela pode formular sobre si mesma. Ela não pode formular o que não seja opositivo, e é nisso que reside o núcleo do real.

Recordemos o que é simbólico e o que é real. O simbólico é inteiramente redutível a um sistema opositivo, como sim/não, presença/ausência, S1/S2, ou mesmo 0 e 1, como diz Lacan: “a articulação significante é de tal forma sua hora e seu lugar que a verdade não é nada senão essa articulação. (...) A verdade pode ser construída unicamente a partir de 0 e 1. Isso só foi feito no início do século passado, em algum ponto entre Boole e De Morgan, com o despontar da lógica matemática” (LACAN, 2012, p. 168). Já o real não é o simbólico, logo, ele não é opositivo. “Disse-lhes a esse respeito [do real], que não há relação sexual. Mas isso é divagação, porque faz parte do sim ou não. A partir do momento em que digo não há já é muito suspeito que não seja verdadeiramente um pedaço de real, posto que o estigma do real é a de a nada se ligar” (LACAN, 2007, p. 120). “Todo objeto, exceto o objeto que chamo de pequeno a, que é um absoluto [ou seja, não tem oposição], concerne a uma relação. O aborrecido é que haja a linguagem, e nela as relações se exprimem com epítetos. Os epítetos, por sua vez, impelem ao sim ou não” (LACAN, 2007, p. 116-7 – grifo meu), o que evidencia que qualquer significante que ocupe a neutralidade absolutamente indiferente do real implica em uma oposição, uma polarização. “Impelir ao sim ou não é impelir ao par” (ibid., p. 117), ou seja, ao par significante, pois o significante é sempre Outro, de modo que é pura diferença, pura polarização.

Então temos o simbólico como produção de diferenças, oposições, e suas decantações imaginárias, e o real como uma neutralidade para além, ou aquém, delas. No que ele não é opositivo, o real inclui em si as oposições , mas em um indiscernimento no qual  não se trata de uma conjunção dessas oposições, como se elas fossem uma coisa só, duas ‘metades da laranja’, mas pelo contrário, é indiscernimento, em que não se sabe distinguir uma oposição da outra no mesmo significante. É da ordem do Um, mas não da fusão dos dois, e sim na indiferença, na neutralidade entre eles: “A mim, o que me interessa é o significante enquanto Um, e o único interesse do significante são os equívocos que podem sair dele, da ordem do fundir dois em Um e outras bobagens deste tipo” (LACAN, 2012, p. 201) “Isso significa, no plano da verdade, que a verdade só pode falar ao se afirmar, conforme a ocasião, como foi feito durante séculos, como a verdade dupla, mas nunca a verdade completa” (LACAN, 2012, p. 169). Essa duplicidade da verdade, essa duplicidade do significante é que fundamenta a lógica do inconsciente. Mas se a verdade é inteiramente redutível a 0 ou 1, e o real não é opositivo, como conciliar real e simbólico, linguagem e lógica?



Já que Lacan se serve da ciência para buscar o material discursivo da psicanálise, por quê não o faríamos?

Já vimos que Lacan não considera a teoria da informação compatível com a descoberta freudiana por ela não se prestar ao real equívoco da redundância. Para Lacan, a informação não se equivoca, não ressoa. E é nisso que reside o real da linguagem, tal como ele entende: a neutralidade bífida do equívoco significante.

No entanto, os desdobramentos da lógica trazida pela mecânica quântica implicam em uma abstração da teoria quântica para além da própria física. O que se introduziu com o nome de teoria da informação quântica chacoalhou diversos setores, da lógica até a cosmologia, isso sem mencionar a principal aplicação dessa teoria: a computação. Com seu conceito de bit quântico, ou q-bit, essa ciência reduziu todo o universo físico à lógica RSI, quer dizer, ao que tudo o que há se resume: pura informação. Mas para compreender o q-bit é necessário partir do bit clássico, não-quântico.

Um bit clássico representa “uma unidade de informação” (OLIVEIRA, 2009, p. 93). E o que é uma informação? No Dicionário etimológico, o vocábulo ‘informação’ é remetido ao vocábulo ‘forma’, lá sendo descrito como ‘configuração’. O físico Leonard Susskind muito simplesmente o descreve da seguinte maneira: “informação significa distinções entre as coisas” (SUSSKIND, citado por MOYER, 2012, p. 37). Temos aí, com todas as letras, e a seus pés, o simbólico. A distinção que um bit comporta é a própria distinção entre Um e Outro significante, entre uma e outra diferença qualquer, mas que comumente é expressa ou por 0 ou por 1. E o valor que será assumido por esse bit (0 ou 1, presença ou ausência) constitui sua posição na significação, ou seja, sua decantação imaginária em apenas uma das suas possibilidades simbólicas.

Se Lacan buscava fundamentar a psicanálise o mais matematicamente possível, ele não deveria ter ignorado, como o fez, a teoria da informação, até porque “o bit é um conceito matemático, ou seja, sua definição independe de podermos ou não representa-lo por objetos reais” (OLIVEIRA, 2009, p. 94), em conformidade ao seu próprio movimento de desconteudização do anedotário psicanalítico. Mas talvez isso se deva ao fato de que o bit ainda é um conceito clássico, simbólico-imaginário, justamente por ser opositivo. Um bit só pode funcionar classicamente, em estados ortogonais, ou como 0 ou como 1. E, com certeza, Lacan, na pegada de Freud, buscava fundamentar a psicanálise pela neutralidade opositiva do real: “a alternativa ou...ou nunca se expressa nos sonhos” (FREUD, 2006, p. 679)

Mas com o advento da física quântica, o que acontece é que a informação passa a funcionar também de acordo com leis quânticas; se o real quântico é precisamente o indiscernível a partir de onde articulam as possibilidades simbólicas, fora de seu sistema de oposição, a informação quântica se estrutura dessa mesmíssima maneira. De modo que um bit quântico, ou q-bit, admite um real em que é impossível distinguir entre as suas possibilidades simbólicas, nomeadamente 0 e 1, em que ambas se apresentam nessa própria indiscernibilidade, do mesmo modo que a função de onda na física quântica engloba todas as possibilidades de atualização, e da mesma forma com que o real se apresenta na linguagem como exterior a seu sistema opositivo. O q-bit é o que na teoria da informação implica o surgimento do real, ou seja, da indistinção, do equívoco, no seio da própria informação. “Já afirmei que o “ou...ou” empregado no relato do sonho deve ser traduzido por “e” (Ibid.), diz Freud com todas as letras, se referindo à neutralidade do ‘elemento comum’ no inconsciente.

Aqui é necessário um pouco de topologia para entender a relação do q-bit com o real da linguagem. Podemos fazer um recurso à banda de Möebius para esclarecer um q-bit.

A topologia da banda de Möebius, ou contrabanda, além de sua unilateralidade, de suas únicas borda e margem, tem como principal atributo o fato de que sua orientação não é de forma alguma unívoca, a exemplo de um cilindro; ela apresenta diferença ao longo de seu percurso longitudinal. O que, ao início do trajeto, tinha uma orientação dextrógira, ao passar no mesmo ponto, “do outro lado” da fita, será levógiro. E é essencialmente o fato desse avessamento da orientação que define a própria estrutura de contrabanda.


Matemáticos consideram que uma superfície assim é não orientável, no que não se pode determinar o sentido de seus pontos. Mas, tomando em Freud a Significação Antitética das Palavras Primitivas, onde ele mostra que algo se representa pelo seu oposto, e O Estranho, que em alemão, das Unheimlich, significa tanto ‘estranho’ como ‘familiar’, podemos, como o fez originalmente MD Magno, fazer uma contribuição psicanalítica à topologia ao postularmos que os pontos da contrabanda não são não-orientáveis, mas sim que ora eles se orientam em um sentido, ora em outro, “sendo que, tomada uma das orientações, a outra responde à primeira, como fundo, ou como eco, ou horizonte de sua revirada” (MAGNO, 1986, p. 212), da mesma forma que um significante depende do Outro, em uma remissão a ele, como horizonte de sua própria significação.

O que é dizer que, na verdade, os pontos de uma contrabanda não são precisamente bi-orientados, mas anfi-orientados, isto é, podendo passar, como de fato passam, de um para o outro lado (não lados da uniface, pois ela é a mesma, mas) dos dois cortados, ali oposta ou pelo menos diferentemente orientados quando age a sexão que sexiona, que fende o ponto único originário o qual, agora se torna dois, secados ou sexuados (MAGNO, 1986, p. 212).

Em suma, esse ponto, bífido, onde o significante revira, é um ponto de equivocação entre as (duas) possíveis orientações na superfície, no que ele não se orienta nem para um lado, nem para outro, sendo ele próprio um além dessas orientações, (des)contínua a elas: um terceiro, que manifesta a neutralidade com relação às oposições vigentes das orientações, permitindo a transiência, a transa, senão mesmo transação, entre o Um e o Outro. Da mesma forma, o Unheimlich ora se orienta para o familiar e ora para o estranho, passando por um equívoco de seu sentido, que nada mais é do que seu decaimento instantâneo em neutralização, não-senso, apenas como um som, mas que imediatamente recai em Outro sentido; em algum lugar da superfície (lugar esse insituável, como o real, mas necessariamente suponível), o significante se desloca de uma (o)posição a outra. Daí poder-se propor que “o significante é, ao mesmo tempo, um-dois, um-bífido” (COUTINHO JORGE, 2005, p. 105), um halo composto de dois alelos.

Eu quis dizer que todo impacto real que resulta em significante se apresenta, necessariamente, como um revirão em percurso sobre uma superfície unária, no oito interior[1], no qual a posição tética de um sexo impõe a posição anti-tética, ainda que sombreada, do outro sexo (MAGNO, 1987, p. 146).

Assim, o que acontece com um q-bit é que a oposição não existe nesse ponto bífido, onde há uma indistinção entre 0 e 1. No entanto, ambos se reduzem a esse terceiro, que é neutro, no qual ambas as possibilidades simbólicas de discernimento estão reduzidas a esse Um real, indiscernível, que é uma superposição significante, ou, mais especificamente, uma superposição de estados lógicos das distinções, dos bits. Não é possível saber simbolicamente o que ocorre nessa superposição, o modo como ambas as distinções participam desse mesmo real, mas essa bifididade significante ocorre segundo uma lógica quântica. É como Freud, passando de “ou...ou” a “e”.

“O sujeito participa do real, justamente, por ser aparentemente impossível. Ou, melhor dizendo, se tivesse que empregar uma figura que não surge aí por acaso, diria que ocorre com ele o que ocorre com o elétron, no ponto em que este se propõe a nós na junção da teoria ondulatória com a teoria corpuscular. Somos forçados a admitir que é precisamente como sendo o mesmo que esse elétron passa ao mesmo tempo por dois buracos distantes” (LACAN,, 1992, p. 172 - grifo meu).

“O real não é o mundo. Não há nenhuma esperança de atingir o real pela representação. Não vou começar a arguir aqui a teoria dos quanta, da onda, do corpúsculo. Seria melhor de qualquer forma que vocês estivessem por dentro, mesmo que isso não lhes interesse” (LACAN, A Terceira).

De modo que, se um bit é binário, ou seja, cujos valores se resumem a duas possibilidades ortogonalmente alternadas, quer dizer, a uma oposição, clássica como tal, um q-bit se define por ser bífido, no qual, além das duas possibilidades, representadas na oposição 0 ou 1, há uma terceira possibilidade, que é o indiscernível para além da oposição binária: ne-uter significa em latim ‘nem um, nem outro’ - neutro. No nível da informação quântica, os processos se dão nessa lógica real, de modo que o processamento fundamental da informação no inconsciente é quântico. Assim, as propriedades dos elementos inconscientes no psiquismo, por exemplo, oscilam entre serem binários, ou clássicos (o que acontece na maioria do tempo), e bífidos, ou quânticos (segundo a lógica do real que a psicanálise nos traz), tal como a matéria física.

Essa concepção dos elementos do inconsciente como q-bits se mostra ainda mais fecunda quando analisamos o processo denominado por Freud de elaboração onírica, ou seja, o trabalho de ciframento do sonho. Ora, o que é cifrar? É, como Freud diz, transformar o conteúdo latente do sonho em conteúdo manifesto. Como isso acontece? Das mais variadas formas: "os pensamentos oníricos a que chegamos por meio da análise revelam-se como um complexo psíquico da mais intrincada estrutura possível. Suas partes mantêm entre si as mais variadas relações lógicas, representam primeiros planos e panos de fundo, condições, digressões e ilustrações, sequências de prova e contra-argumentações. Não falta a esse material nenhuma das características que nos são familiares por nosso pensamento de vigília, Ora, quando tudo isso tem de ser transformado num sonho, o material psíquico é submetido a uma pressão que o condensa enormemente a uma fragmentação interna e a um deslocamento que criam, por assim dizer, novas superfícies". (FREUD, 2006, p. 678). Essas superfícies, essas maneiras de cifrar o conteúdo latente em manifesto são a essência do que a teoria da informação chama de criptografia; se, num primeiro momento de Lacan, o sintoma era uma mensagem que devia chegar a seu próprio emissor, de maneira inversa, como ele mesmo dizia, temos a transmissão da informação (dita transferência em termos psicanalíticos) para uma redundância, que se constitui como redundância dessa informação, ou seja, como sintoma dessa informação. É só ver que o sonho é um rébus, ou seja, a codificação da informação em redundância; essa última nada mais é do que a regra que permite o próprio código ser decifrado. Ou seja, o sintoma, enquanto redundância, carrega em si mesmo a chave de sua própria decifração, de acordo com o modo pelo qual se apresenta, se articula: “Elipse e pleonasmo, hipérbato ou silepse, regressão repetição, aposição, são esses os deslocamentos sintáticos, e metáforas, catacrese, autonomásia, alegoria, metonímia, e sinédoque, as condensações semânticas em que Freud nos ensina a ler as intenções ostentatórias, ou demonstrativas, dissimuladoras ou persuasivas, retaliadoras ou sedutoras com que o sujeito modula seu discurso onírico”. (LACAN, 1996, p. 269) A redundância são precisamente esses métodos, na estrutura do inconsciente, que permitem a transferência da informação do emissor para o receptor (que é o próprio emissor, como diz Lacan); ela é também a chave que destrava o código, quer dizer, o que faz ressoar.

“A ideia de criptografia é muito simples. Suponha que se queira enviar uma mensagem secreta de um ponto a outro. Digamos que seja a palavra COMPUTADOR. Antes, porém, é preciso inventar uma regra para criptografar a mensagem. Uma regra muito simples, que teria sido usada elo imperador romano Júlio César, consiste em substituir cada letra da mensagem pela terceira letra subsequente. Com essa regra, a mensagem COMPUTADOR se torna FRPZXDGRU. Uma regra um pouco mais complicada que essa: substituir as letras nas posições pares (O, P, T, D, R) pela terceira letra subsequente, e aquelas nas posições ímpares (C, M, U, A, O) pela terceira letra precedente. Existem infinitas possibilidades! Mas seja qual for a regra, o receptor da mensagem deverá ser capaz de realizar a operação inversa: caso contrário, não poderá conhecer a informação que se quer transmitir. A regra para criptografar e decodificar é chamada chave criptográfica” (OLIVEIRA, p. 132). Agora vejam a Interpretação dos Sonhos de Freud: “a transformação dos pensamentos oníricos latentes no conteúdo manifesto do sonho merece toda a nossa atenção, visto ser esse o primeiro exemplo que nos é conhecido de transposição do material psíquico de um modo de expressão para outro, de um modo de expressão que nos é inteiramente inteligível para outro que só podemos chegar a entender com a ajuda de orientação e esforço” (FREUD, 2006, p. 663). Prossegue: “o próprio material dos pensamentos oníricos reunido para formar a situação do sonho deve adaptar-se, é claro, para esse fim. Deve haver um ou mais elementos comuns em todos os componentes” (FREUD, 2006, p. 668). “Grande parte do trabalho do sonho consiste na criação desse tipo de pensamentos intermediários, que são amiúde altamente engenhosos, embora frequentemente pareçam forçados; estes criam então um vínculo entre a imagem composta no conteúdo manifesto do sonho e os pensamentos oníricos, que são diversos em sua forma e essência e foram determinados pelos fatores motivadores do sonho” (Ibid., p. 670) “o elemento comum tem que ser descoberto, na maioria das vezes, através da análise. O conteúdo do sonho simplesmente afirma, por assim dizer: ’todas estas coisas têm em comum o elemento x’. A dissecação dessas formações mistas por meio da análise é frequentemente o caminho mais curto para descobrir o sentido de um sonho” (Ibid., p. 671). Esse elemento comum é precisamente a chave criptográfica, que permite ao código tanto ser criado quanto decifrado. A chave criptográfica é justamente um elemento comum que permite articular dois outros; mas esse elemento não é nem um, nem outro. Etimologicamente falando, ela é neutra: é a própria lógica real que permite articulações simbólicas (tal como Lacan disse que o real é que comanda a função da significância). Para dizer o termo, uma chave criptográfica tem a propriedade quântica do real, qual seja, a de ser bífida. É isso que faz ressoar o sintoma. E é isso que faz a informação se sintomatizar: a informação (o conteúdo latente – digamos, 0) entra em estado de superposição quântica, ou seja, bífida, e recai no seu Outro lado (conteúdo manifesto – digamos, 1). Mas a chave criptográfica não é 0 nem 1, é neutra, como o real do significante Um, quer dizer, do q-bit. A chave criptográfica é bem o que Lacan fala sobre a verdade dupla, o equívoco significante.

Dito isso, fica claro que Lacan poderia ter usado o recurso da teoria da informação quântica, uma vez que a razão quântica de bifididade é o que fundamenta o real do inconsciente freudiano. Até porque essa teoria é bem menos anedótica de que “L’inconscient est structuré comme um langage”. Na verdade, como diz MD Magno “L’Inconscient est strucuré comme on l’engage”: o mais abstrato e desconteudizado possível.



Então, para definitivamente conciliarmos a psicanálise e a teoria da informação, resta entender o materialismo ao qual Lacan se refere quando trata do significante.

Quando se fala em matéria em Física, atualmente a noção que se tem dela é simplesmente que ela é informação, assim como Susskind nos diz que é distinção entre as coisas: uma partícula de outra partícula, por exemplo. Slavoj Zizek fala da importância de se considerar a diferenciação como um puro formalismo, mas não como um idealismo em oposição a um materialismo físico. Não se trata de diferença entre físico e psíquico; esse ‘materialismo puramente formal’ é o próprio materialismo, ou seja, materialismo, para Zizek, é “materialismo da diferença. O traço mínimo do materialismo é a existência de diferença pura. Há um rombo, um antagonismo inerente à ordem do Um. O efeito primordial é a pura auto-diferença” (ZIZEK), que nada mais é do que a neutralidade da bifididade do q-bit. “Estou sendo muito preciso aqui. Auto-diferença, e não algum tipo de polaridade mitológica dos opostos: feminino/masculino, luz/escuridão, yin e yang, etc. (...) A multiplicidade [leia-se: oposição] já é um efeito da inconsistência do Um [leia-se: real] consigo mesmo, do fato de que o Um não pode coincidir consigo mesmo [bifididade]. Ou, para colocar de uma maneira ligeiramente diferente: não temos nenhuma polaridade primordial [no real], como masculino/feminino, luz/escuridão” (ZIZEK). Assim, esse materialismo formal indiscrimina se trata-se de algo físico ou psíquico; onde quer que as diferenças compareçam, há matéria. Por isso, é legítimo falar em matéria significante.

De modo que a materialidade da fala é o próprio falatório da matéria; a função da fala sendo a função da própria matéria: diferenciar o real, campo neutro da linguagem em que a matéria (fala) pode passar a antimatéria (dizer) através da bifididade quântica de seu próprio campo. Diremos então que a psicanálise é a formalização, cada vez menos “aned’otária” da “Função e Campo da Matéria e do Quântico”, o que é outra maneira de dizer “a Instância do Bit no Inconsciente ou a Razão desde o Quantum”, pra ficar com uma homenagem ao mestre Lacan: servindo-nos dele para dispensá-lo – ir além dele através dele...

Afinal de contas, se uma partícula, física, pode passar por dois lugares ao mesmo tempo, uma palavra também pode.



REFERÊNCIAS:


COUTINHO JORGE, M. A. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan, vol. 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. ESB, vol. V. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.

_____________. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

_____________. O Seminário, livro 23. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

_____________. O Seminário, livro 19. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.

_____________. O Seminário, livro 17. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.


MAGNO, MD. A Música. Rio de Janeiro: Aoutra ed., 1986.

___________. Ordem e Progresso por dom e regresso. Rio de Janeiro: Aoutra ed., 1987. 

OLIVEIRA, Ivan S. A Revolução dos Q-Bits. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

SEIFE, Charles. Decodificando o Universo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

TEIXEIRA, Antônio. O Sonho da dessuposição de Fliess. Disponível em: http://www.institutopsicanalise-mg.com.br/psicanalise/almanaque/06/textos/Antonio.pdf

ZIZEK, Slavoj. The Reality of the Virtual. Entrevista disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=RnTQhIRcrno



[1] Representação planificada da contrabanda.