terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sobre "Ninfomaníaca", de Lars von Trier

Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir...

Socorro!
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...

Socorro!
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento, encruzilhada
Socorro! Eu já não sinto nada...

("Socorro", Arnaldo Antunes)

(Se você não viu o filme e não quer saber sobre ele antes de tê-lo visto, não leia este texto.)

Ninfomaniaca, o novo filme de Lars von Trier – que já é-nos conhecido de longa data por seus filmes controversos (ou seja, contra o verso, contra a versão dos conceitos em vigor) –, é provocativo pelo nome e pelo marketing. No cartaz oficial, os rostos de uns doze personagens se contorcendo em orgasmo. A antecipação que se tem é a de que o filme há de ser uma putaria, praticamente gozando na cara do espectador. No entanto, o que se vê (pelo menos nessa versão ‘light’, cortada) é um filme muito lúcido sobre a sexualidade humana (encarnada numa mulher) e um questionamento sobre os modos de sofrimento que as pessoas conseguem construir para si.

A trama é basicamente a seguinte: um homem judeu, Seligman (que em hebraico significa ‘homem feliz’) encontra Joe, uma mulher caída num beco, machucada, e a leva para sua casa para cuidar dela. Nisso, Joe começa a contar sobre sua vida, marcada pela sexualidade desde a mais tenra infância: “descobri minha buceta com 2 anos de idade”, diz ela. Desde criança ela teve muito interesse e excitação pelo sexo; ela e sua melhor amiga, “B”, pressionavam suas vaginas contra o chão, dentro do banheiro; contra a corda de escalar, na educação física, etc.

Chegada a puberdade, Joe se dirige até o garoto mais popular da escola – Jerome, um rapaz mais velho que tinha uma moto – e pede-lhe que este tire sua virgindade. É digno de nota as coordenadas simbólicas que esse rapaz tem para ela: ser o mais popular e ter uma moto. Não é à toa que foi ele que ela escolheu para deflorá-la. Porém, foi uma cena de sexo sem a menor emoção; o lugar era a oficina onde ele estava tentando consertar a moto (que não ligava); ela se sentou num colchão, no chão, e ele diz: é melhor você tirar a calcinha, né? Então ele se deita sobre ela e dá 3 estocadas; em seguida a vira e dá mais 5 por trás. Era o fim de sua virgindade; sem beijo, sem carícia, sem carinho, sem emoção, sem amor: sem sexo. Foi um sexo mecânico; ele a tratou como uma moto. Na verdade, ele tratou a moto melhor do que ela, visto que ele estava se dedicando a consertá-la. Foi um sexo reduzido a números: o 3 e o 5 das estocadas que ele deu; a marca não é emotiva, significante. É a marca de um vazio de experiência, de um vazio da própria marca. Ele em seguida se levanta, volta a tentar consertar a moto, como se nada tivesse acontecido ali, segundos antes. Ela se levanta e se vai – não antes sem passar por ele, mexer em algo da moto, que passa então a funcionar. É como se ela tivesse dito: “você não sabe fazer nem uma moto funcionar”. 

Joe passa a ter um certo desgosto por Jerome. Desde então não o viu mais. Então entra em cena a compulsão sexual de Joe. Isso começa com uma brincadeira que ela e sua amiga B se propõem a fazer: entram num trem e quem fizer sexo com o maior número de estranhos ganha um saquinho de chocolates. Assim ela começa a se tornar uma serial fucker; transa com vários e nunca mais do que uma vez com cada. Ela começa a participar de um grupo de pessoas com a mesma filosofia. Só que após um tempo, um dos membros diz que transou três vezes com a mesma pessoa, e foi repreendida por Joe. Essa outra garota então lhe diz: “você acha que sabe tudo de sexo, né? Só que você não sabe o ingrediente secreto do sexo: o amor”. Isso a irrita, pois ela não acredita nisso.

Enquanto ela conta esses casos a Seligman, este funciona como a voz da razão, tentando articular os desvarios dela em termos de conhcimento e ciência; por exemplo, quando ela falava da caça aos homens, ele comparava tudo o que ela dizia com pescaria; a isca, o anzol, as técnicas pra pegar um peixe. Ou os números 3 e 5, como os números da série de Fibonacci, que ele ainda tem a pachorra de explicar-lhe o que seja.

E Joe continua a contar os mais diversos casos que teve com os homens. Conta que era difícil conciliar a logística de ter um emprego normal e ter tempo para fazer sexo com dez homens num mesmo dia – os horários eram seguidos à risca. Às vezes um esperava na sala enquanto ela terminava com o outro. Ela conheceu vários tipos de pênis – e parece que era a isso que os homens eram reduzidos em sua vivência: pirocas. Pois em nenhum desses casos ela sentia emoção. Sua falta de emoção fica demonstrada por uma técnica que ela inventou para produzir “sentimentos”. Quando ela chegava em casa e tinham várias mensagens em sua secretária eletrônica, ela não se lembrava quem eram as pessoas que haviam ligado – ele não conseguia associar qual nome era de qual pica. De modo que pegava um dado, e jogava. A escala de 1 a 6 era a de dar uma resposta calorosa até não dar resposta alguma. Seus “sentimentos” por cada um dos homens eram produzidos pelo lance de dados. Ou seja, não havia sentimento dela por nenhum desses homens. O sexo era sempre mecânico; era como se ela não estivesse realmente lá. Era uma compulsão por fazer sexo sem emoção, sexo insosso. Era apenas um sexo “tapa buraco”: não era erótico, de forma alguma – eram apenas buracos a serem preenchidos por pirocas; não era um sexo entre uma mulher e um homem. Fica claro, então que sua compulsão sexual é uma repetição da sua traumática primeira vez – traumática justamente por não ter emoção. É como se ela estivesse eternamente repetindo essa primeira vez, não se sabe se na busca de algum sentimento ou se na fuga dele – inclusive tem um certo ponto do filme em que ela realmente diz que na verdade não são com muitos homens que ela transou; era como se eles fossem, todos, um único e mesmo amante. Provavelmente ela fugia da possibilidade de sentir algo por alguém; no entanto, ao se jogar tanto por aí, torna-se mais provável que uma contingência a faça sentir algo por algum desses homens. Se pensarmos que ninfas são animais em estágio ainda não desenvolvido (como Seligman explica a Joe), ninfomaníaca adquire o sentido de ser alguém maníaca, fixada, em uma fase mais arcaica do desenvolvimento – como a infância, ou seja, antes de ser desvirginada. Assim, é como se a compulsão de Joe fosse uma compulsão em ser desvirginada (até mesmo para aplacar sua efervescente sexualidade de ninfa), coisa que, de fato, não aconteceu com ela.

E foi uma contingência que a levou a reencontrar Jerome. Ela procurava um emprego como secretária no lugar onde Jerome trabalhava, numa gráfica. Ele tenta transar com ela, mas ela nega, pois ainda tem certo ranço dele pela "primeira vez" que nunca houve. Com isso, ele fica com raiva e dá umas pequenas humilhadas, pedindo por serviços mesquinhos, etc. No entanto, à medida que o tempo passa, ela começa a pensar em partes do corpo de Jerome, em especial as mãos, e tentar encontra-las em outras pessoas, formando um quebra-cabeça: uma peça de um homem qualquer era o nariz dele, outra o cabelo, outra a mão, etc. Ela começa a pensar que ama ele, que está apaixonada por ele, o que é questionável, pois ela não pensa nele, no que há de simbólico nele, tipo sua 'personalidade'. Ele é reduzido às partes do corpo, o que parece mais com algo da ordem do fetiche; não se trata do olhar, do tocar, do dizer (que extrapolam o mero corpo), mas sim do olho, da mão, da boca. Ora, lembremos que ele foi a pessoa que desvirginou o corpo de Joe, mas não desvirginou-a simbolicamente: ela não foi tocada por dentro – Joe é uma virgem de sentimento. Então esse “amor”, essa “fórmula secreta do sexo” talvez seja uma tentativa de sentir alguma coisa com a pessoa que a anestesiou para os próprios sentimentos. Talvez ela esteja tentando se ‘curar’. É questão complexa decidir se há amor aí ou não; não é porque ela chama esse fetiche de “amor” que há, de fato, amor (o que quer que isso lá seja): talvez ela apenas precise que seja ele para que ela possa realmente perder a virgindade. O fato é que ela escreve uma carta se declarando para Jerome e quando vai entrega-la em mãos, ele não está mais na gráfica. Havia fugido com a outra secretária, com quem se casou.

Seligman, em suas comparações didáticas dos sentimentos de Joe, evoca a polifonia de uma das obras de Bach para dizer da polifonia de homens da vida de Joe. Ele toma como exemplo uma peça que tem três vozes em contraponto. Ela, por sua vez, toma esta comparação e compara com três dos homens com quem já teve “relações”. Um deles é um homem meio banana, que faz tudo por ela, só quer o prazer dela, faz tudo o que ela manda. O segundo, ao contrário, é quem domina a cena, como um felino: ele é que a domina. E o terceiro é Jerome, que ela reencontra no parque após ele retornar do casamento falido. E os compara com as três vozes da polifonia, em que o amor, encarnado em Jerome, juntaria o sexo a alguma emoção, formando então o Cantus Firmus (nome da voz principal entre as três): a 'hamornia' musical entre sexo e sentimento.

Ela então descreve a cena de sexo com a pessoa amada: seu corpo treme de tesão, ela parece mais entregue a alguém do que nunca antes - até o modo de filmar já é diferente: trata-se de sexo propriamente humano, não apenas um coito. Enquanto ele a beija, a chupa e a penetra ela solta uma das frases mais importantes do filme – a penúltima frase: “preencha todos os meus buracos”. Ora, Jerome encarna o amor para ela; o amor é o ingrediente secreto do sexo; ela quer que Jerome a preencha; ela quer o que o amor preencha todos os seus buracos. Com isso, ela tem esperança de sentir algo, qualquer coisa. Isso lembra aquela música “Socorro”, de Arnaldo Antunes, citada na epígrafe. O amor, como a última esperança de sentimento, é o seu grito de socorro diante do sofrimento de nada sentir: ela esperava finalmente perder a virgindade com o homem que a desvirginou. Diante do pedido para preenchimento de seu vazio, Jerome se esforça genuinamente: tapa-lhe todos os buracos, até a hora em que o orgasmo vem. Nesse momento, Joe para, inerte, e Jerome pergunta: “qual é o problema? O que foi?” Joe responde: “não sinto nada”, e começa a chorar. O filme termina, orgasmaticamente broxante.

O que é interessante nessa última cena é que, quando ela se toca que não sente nada, isso a afeta. Ela chora, há algo de trágico em constatar isso: há um sentimento. Ela finalmente sente alguma coisa: algo se corta, algo se rompe nisso. Não é como nas outras vezes; é como se ela tivesse descoberto que nada sente, pois até então ela nem sentia que nada sentia: e perceber isso a afetou, a angustiou. E foi justamente com o amor que ela sentiu que nada sente: o amor, de fato, a fez sentir algo: o próprio nada. Pela primeira vez, Joe é marcada: ela perde sua virgindade sentimental. Se na primeira ‘primeira vez’ (e nas suas subsequentes repetições), ela nem diz, e nem sente que nada sente, quer dizer, não há marca de sentimento, nesta segunda ‘primeira vez’ algo parece a marcar: a ausência de sentimento. E isso ela sentiu. Há um paradoxo nessa marcação de ausência de sentimento. Pois pela primeira vez, não sentir nada a afeta, a marca. Talvez ela tenha se dado conta de que não adianta preencher todos os seus buracos: há um buraco impossível de ser preenchido, e esse buraco não é no corpo: é um buraco que não existe.

Quais serão as consequências dessa revelação para Joe? Como ela irá se rearranjar em seu sofrimento a partir dessa experiência de derrelição? Como ela passará a sofrer agora? Aguardemos o volume II, previsto para estrear em Março.


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