Socorro!
Não
estou sentindo nada
Nem
medo, nem calor, nem fogo
Não
vai dar mais pra chorar
Nem
pra rir...
Socorro!
Alguma
alma mesmo que penada
Me
empreste suas penas
Já
não sinto amor, nem dor
Já
não sinto nada...
Socorro!
Alguém
me dê um coração
Que
esse já não bate nem apanha
Por
favor!
Uma
emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer
coisa que se sinta...
Tem
tantos sentimentos
Deve
ter algum que sirva
Qualquer
coisa que se sinta
Tem
tantos sentimentos
Deve
ter algum que sirva...
Socorro!
Alguma
rua que me dê sentido
Em
qualquer cruzamento
Acostamento,
encruzilhada
Socorro!
Eu já não sinto nada...
("Socorro", Arnaldo Antunes)
("Socorro", Arnaldo Antunes)
(Se você não viu o filme e não
quer saber sobre ele antes de tê-lo visto, não leia este texto.)
Ninfomaniaca, o novo filme de
Lars von Trier – que já é-nos conhecido de longa data por seus filmes
controversos (ou seja, contra o verso, contra a versão dos conceitos em vigor)
–, é provocativo pelo nome e pelo marketing. No cartaz oficial, os rostos de
uns doze personagens se contorcendo em orgasmo. A antecipação que se tem é a de
que o filme há de ser uma putaria, praticamente gozando na cara do espectador. No entanto, o que se vê (pelo
menos nessa versão ‘light’, cortada) é um filme muito lúcido sobre a
sexualidade humana (encarnada numa mulher) e um questionamento sobre os modos de
sofrimento que as pessoas conseguem construir para si.
A trama é basicamente a seguinte:
um homem judeu, Seligman (que em hebraico significa ‘homem feliz’) encontra Joe, uma
mulher caída num beco, machucada, e a leva para sua casa para cuidar dela.
Nisso, Joe começa a contar sobre sua vida, marcada pela sexualidade desde a
mais tenra infância: “descobri minha buceta com 2 anos de idade”, diz ela.
Desde criança ela teve muito interesse e excitação pelo sexo; ela e sua melhor
amiga, “B”, pressionavam suas vaginas contra o chão, dentro do banheiro; contra
a corda de escalar, na educação física, etc.
Chegada a puberdade, Joe se
dirige até o garoto mais popular da escola – Jerome, um rapaz mais velho que
tinha uma moto – e pede-lhe que este tire sua virgindade. É digno de nota as
coordenadas simbólicas que esse rapaz tem para ela: ser o mais popular e ter
uma moto. Não é à toa que foi ele que ela escolheu para deflorá-la. Porém, foi
uma cena de sexo sem a menor emoção; o lugar era a oficina onde ele estava
tentando consertar a moto (que não ligava); ela se sentou num colchão, no chão,
e ele diz: é melhor você tirar a calcinha, né? Então ele se deita sobre ela e
dá 3 estocadas; em seguida a vira e dá mais 5 por trás. Era o fim de sua virgindade; sem
beijo, sem carícia, sem carinho, sem emoção, sem amor: sem sexo. Foi um sexo mecânico;
ele a tratou como uma moto. Na verdade, ele tratou a moto melhor do que ela,
visto que ele estava se dedicando a consertá-la. Foi um sexo reduzido a
números: o 3 e o 5 das estocadas que ele deu; a marca não é emotiva,
significante. É a marca de um vazio de experiência, de um vazio da própria marca. Ele
em seguida se levanta, volta a tentar consertar a moto, como se nada tivesse
acontecido ali, segundos antes. Ela se levanta e se vai – não antes sem passar por
ele, mexer em algo da moto, que passa então a funcionar. É como se ela tivesse
dito: “você não sabe fazer nem uma moto funcionar”.
Joe passa a ter um certo desgosto
por Jerome. Desde então não o viu mais. Então
entra em cena a compulsão sexual de Joe. Isso começa com uma brincadeira que
ela e sua amiga B se propõem a fazer: entram num trem e quem fizer sexo com o
maior número de estranhos ganha um saquinho de chocolates. Assim ela começa a
se tornar uma serial fucker; transa
com vários e nunca mais do que uma vez com cada. Ela começa a participar de um
grupo de pessoas com a mesma filosofia. Só que após um tempo, um dos membros
diz que transou três vezes com a mesma pessoa, e foi repreendida por Joe. Essa
outra garota então lhe diz: “você acha que sabe tudo de sexo, né? Só que você
não sabe o ingrediente secreto do sexo: o amor”. Isso a irrita, pois ela não
acredita nisso.
Enquanto ela conta esses casos a
Seligman, este funciona como a voz da razão, tentando articular os desvarios
dela em termos de conhcimento e ciência; por exemplo, quando ela falava da caça aos
homens, ele comparava tudo o que ela dizia com pescaria; a isca, o anzol, as
técnicas pra pegar um peixe. Ou os números 3 e 5, como os números da série de
Fibonacci, que ele ainda tem a pachorra de explicar-lhe o que seja.
E Joe continua a contar os mais
diversos casos que teve com os homens. Conta que era difícil conciliar a logística
de ter um emprego normal e ter tempo para fazer sexo com dez homens num mesmo
dia – os horários eram seguidos à risca. Às vezes um esperava na sala enquanto
ela terminava com o outro. Ela conheceu vários tipos de pênis – e parece que
era a isso que os homens eram reduzidos em sua vivência: pirocas. Pois em
nenhum desses casos ela sentia emoção. Sua falta de emoção fica demonstrada por
uma técnica que ela inventou para produzir “sentimentos”. Quando ela chegava em
casa e tinham várias mensagens em sua secretária eletrônica, ela não se
lembrava quem eram as pessoas que haviam ligado – ele não conseguia associar
qual nome era de qual pica. De modo que pegava um dado, e jogava. A escala de 1
a 6 era a de dar uma resposta calorosa até não dar resposta alguma. Seus “sentimentos” por cada um dos homens eram produzidos pelo lance de dados. Ou seja, não havia sentimento dela por
nenhum desses homens. O sexo era sempre mecânico; era como se ela não estivesse
realmente lá. Era uma compulsão por fazer sexo sem emoção, sexo insosso. Era
apenas um sexo “tapa buraco”: não era erótico, de forma alguma – eram apenas
buracos a serem preenchidos por pirocas; não era um sexo entre uma mulher e um
homem. Fica claro, então que sua compulsão sexual é uma repetição da sua
traumática primeira vez – traumática justamente por não ter emoção. É como se
ela estivesse eternamente repetindo essa primeira vez, não se sabe se na busca
de algum sentimento ou se na fuga dele – inclusive tem um certo ponto do filme
em que ela realmente diz que na verdade não são com muitos homens que ela
transou; era como se eles fossem, todos, um único e mesmo amante. Provavelmente
ela fugia da possibilidade de sentir algo por alguém; no entanto, ao se jogar tanto por aí, torna-se mais provável que uma contingência a faça sentir algo
por algum desses homens. Se pensarmos que ninfas são animais em estágio ainda
não desenvolvido (como Seligman explica a Joe), ninfomaníaca adquire o sentido
de ser alguém maníaca, fixada, em uma fase mais arcaica do desenvolvimento –
como a infância, ou seja, antes de ser desvirginada. Assim, é como se a
compulsão de Joe fosse uma compulsão em ser desvirginada (até mesmo para
aplacar sua efervescente sexualidade de ninfa), coisa que, de fato, não
aconteceu com ela.
E foi uma contingência que a
levou a reencontrar Jerome. Ela procurava um emprego como secretária no lugar
onde Jerome trabalhava, numa gráfica. Ele tenta transar com ela, mas ela nega, pois ainda tem certo ranço dele pela "primeira vez" que nunca houve.
Com isso, ele fica com raiva e dá umas pequenas humilhadas, pedindo por serviços
mesquinhos, etc. No entanto, à medida que o tempo passa, ela começa a pensar em
partes do corpo de Jerome, em especial as mãos, e tentar encontra-las em outras
pessoas, formando um quebra-cabeça: uma peça de um homem qualquer era o nariz dele, outra o cabelo,
outra a mão, etc. Ela começa a pensar que ama ele, que está apaixonada por ele,
o que é questionável, pois ela não pensa nele, no que há de simbólico nele,
tipo sua 'personalidade'. Ele é reduzido às partes do corpo, o que parece mais
com algo da ordem do fetiche; não se trata do olhar, do tocar, do dizer (que
extrapolam o mero corpo), mas sim do olho, da mão, da boca. Ora, lembremos que
ele foi a pessoa que desvirginou o corpo de Joe, mas não desvirginou-a
simbolicamente: ela não foi tocada por dentro – Joe é uma virgem de sentimento.
Então esse “amor”, essa “fórmula secreta do sexo” talvez seja uma tentativa de
sentir alguma coisa com a pessoa que a anestesiou para os próprios sentimentos.
Talvez ela esteja tentando se ‘curar’. É questão complexa decidir se há amor aí
ou não; não é porque ela chama esse fetiche de “amor” que há, de fato, amor (o
que quer que isso lá seja): talvez ela apenas precise que seja ele para que ela possa realmente perder a virgindade. O fato é que ela escreve uma carta se declarando
para Jerome e quando vai entrega-la em mãos, ele não está mais na gráfica. Havia
fugido com a outra secretária, com quem se casou.
Seligman, em suas comparações
didáticas dos sentimentos de Joe, evoca a polifonia de uma das obras de Bach
para dizer da polifonia de homens da vida de Joe. Ele toma como exemplo uma
peça que tem três vozes em contraponto. Ela, por sua vez, toma esta comparação
e compara com três dos homens com quem já teve “relações”. Um deles é um homem
meio banana, que faz tudo por ela, só quer o prazer dela, faz tudo o que ela
manda. O segundo, ao contrário, é quem domina a cena, como um felino: ele é que
a domina. E o terceiro é Jerome, que ela reencontra no parque após ele retornar
do casamento falido. E os compara com as três vozes da polifonia, em que o
amor, encarnado em Jerome, juntaria o sexo a alguma emoção, formando então o Cantus Firmus (nome da voz principal entre as três): a 'hamornia' musical entre sexo e sentimento.
Ela então descreve a cena de sexo
com a pessoa amada: seu corpo treme de tesão, ela parece mais entregue a alguém
do que nunca antes - até o modo de filmar já é diferente: trata-se de sexo propriamente humano, não apenas um coito. Enquanto ele a beija, a chupa e a penetra ela solta uma das
frases mais importantes do filme – a penúltima frase: “preencha todos os meus
buracos”. Ora, Jerome encarna o amor para ela; o amor é o ingrediente secreto
do sexo; ela quer que Jerome a preencha; ela quer o que o amor preencha todos
os seus buracos. Com isso, ela tem esperança de sentir algo, qualquer coisa.
Isso lembra aquela música “Socorro”, de Arnaldo Antunes, citada na epígrafe. O
amor, como a última esperança de sentimento, é o seu grito de socorro diante do
sofrimento de nada sentir: ela esperava finalmente perder a virgindade com o
homem que a desvirginou. Diante do pedido para preenchimento de seu vazio,
Jerome se esforça genuinamente: tapa-lhe todos os buracos, até a hora em que o
orgasmo vem. Nesse momento, Joe para, inerte, e Jerome pergunta: “qual é o
problema? O que foi?” Joe responde: “não sinto nada”, e começa a chorar. O
filme termina, orgasmaticamente broxante.
O que é interessante nessa última
cena é que, quando ela se toca que não sente nada, isso a afeta. Ela chora, há
algo de trágico em constatar isso: há um sentimento.
Ela finalmente sente alguma coisa: algo se corta, algo se rompe nisso. Não é
como nas outras vezes; é como se ela tivesse descoberto que nada sente, pois até
então ela nem sentia que nada sentia: e perceber isso a afetou, a angustiou. E foi justamente com o amor que ela sentiu que nada sente: o amor, de fato, a fez sentir algo: o próprio nada. Pela
primeira vez, Joe é marcada: ela perde sua virgindade sentimental. Se na
primeira ‘primeira vez’ (e nas suas subsequentes repetições), ela nem diz, e
nem sente que nada sente, quer dizer, não há marca de sentimento, nesta segunda
‘primeira vez’ algo parece a marcar: a ausência de sentimento. E isso ela
sentiu. Há um paradoxo nessa marcação de ausência de sentimento. Pois pela
primeira vez, não sentir nada a afeta, a marca. Talvez ela tenha se dado conta
de que não adianta preencher todos os seus buracos: há um buraco impossível de
ser preenchido, e esse buraco não é no corpo: é um buraco que não existe.
Quais serão as consequências dessa
revelação para Joe? Como ela irá se rearranjar em seu sofrimento a partir
dessa experiência de derrelição? Como ela passará a sofrer agora? Aguardemos o volume II, previsto para estrear
em Março.
Nenhum comentário:
Postar um comentário