terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sou Outro Sou

Ouvindo o disco de John Zorn, "Seis Litanias para Heliogabalus", realizei algo. 

Da importância de não deixar nenhum de nossos lados ser extinto, devido a nossos princípios, morais e éticas. Prego a liberdade, porque gosto dela, porque gozo dela; mas também gosto e gozo de ser um prisioneiro de várias situações na vida, o que me faz ser o que sou - e gosto do que sou, seja Assim ou Assado. Tão importante quanto ser livre é ser prisioneiro de si e prender-se a si mesmo; sou meu próprio carcereiro. Só houvesse a liberdade eu não seria livre, pois também quero me libertar da liberdade. Só posso ser livre com a condição de estar preso. Por isso prezo minha prisão, preso meu próprio desprezo, onde estou prezo e do qual me quero livre, pois sem o corpo eu não saberia o que é o espírito. 

O disco de Zorn é uma ladainha (litania) religiosa para o imperador romano Marcus Aurelius Antoninus Augustus, que, não sendo um governante laico, levou sua crença na deidade Heliogabalus para o poder e se deu mal por isso; ganhou muitos inimigos por querer forçar o deus e seus costumes goela abaixo do povo. Tantos que chegou ao ponto de surgir um mito de que ele queria matar vários deles de uma vez e de maneira inusitada: sufocando-os com rosas que ele teria feito cair sobre eles a partir de um 'fundo falso' no teto. Inclusive um quadro já foi pintado retratando o episódio:


De modo que coisas das mais delicadas - as rosas - seriam ao mesmo tempo aquilo que causaria mais horror - a morte. Esse mito mostra que Heliogabalus superpôs em um mesmo ato o horror e a beleza. Ora, se considerarmos o disco de Zorn como um conceito, veremos que ele tenta fazer essa mesma sobreposição: utilizar da música, que produz o mais sublime da espécie humana, para que ela venha a ser o veículo de um horror, mostrando com precisão cirúrgica do que a espécie humana é capaz: usar o Bem para fazer o Mal e vice-versa, até o ponto em que é impossível saber onde está o limite entre um e outro, de modo que há que se admitir que ambos participam da 'mesma' identidade subjacente (sub-jectum) a eles. E nunca se sabe quando o pior de alguém trará o seu melhor; e nunca se sabe de quantos defeitos é feita uma qualidade; de quantos certos é feito um errado; com quantos bens se faz um mal... Acolho meu mal - pra fazer o bem: não me esqueço dele, reconheço-o como eu mesmo, e não como um estrangeiro. Sou (nor)mal - por isso, posso ser (tão)bem. Sou (o) além, como um Übermensch gödeliano: se sou bem, logo sou mal; se sou mal, logo sou bem - sou Outro sou





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