terça-feira, 19 de novembro de 2013

Reflexão sobre reflexão

“A sexta palavra desta pergunta evidente: ambiguidade prevê o passado?”




Lacan faz recurso a várias ciências para fundamentar seu conceito de real. Dentre elas, a que ele mais enfatizou como demonstração de seu conceito é a lógica, isso porque “o real se afirma nos impasses da lógica” (2012, p. 39). Lacan, então privilegia a lógica como “o paradigma do que questiona o que pode sair da linguagem (...) Proponho encontrar nesse real que se afirma pela interrogação lógica da linguagem o modelo do que nos interessa, ou seja, do que a exploração do inconsciente revela” (p. 40). O paradigma do questionamento e impasse lógicos da linguagem é, para Lacan, o teorema da incompletude de Gödel, que subverte noções clássicas da lógica, como o princípio de não-contradição. “O que a lógica se propunha tratar, inicialmente, em sua ambição de conquista, nada mais nada menos do que a rede do discurso, na medida em que ela se articula. Ao se articular, essa rede deveria fechar-se num universo que supostamente encerraria e cobriria com uma malha fina o que era oferecido ao conhecimento. A experiência lógica mostrou que isso acontecia de outra maneira (...) Nesse ponto, num campo que é aparentemente o mais seguro [o da lógica], pomos o dedo no que se opõe à captura completa no discurso do esgotamento lógico, o que introduz nela uma hiância irredutível. É aí que designamos o real” (Ibid.). Assim, o real é a demonstração lógica (ou seja, simbólica) de que é impossível haver uma demonstração lógica completa de alguma articulação [leia-se ‘formação do inconsciente’ – sonho, chiste, etc.], sempre resta essa hiância em qualquer discurso, ou seja, em qualquer linguagem, em qualquer articulação – em qualquer inconsciente. Isso é o Inconsciente como real, e não como simbólico – é precisamente onde o simbólico ‘falha’, ou, melhor dizendo, é algo fora (ek-sistente) da propriedade articulatória do simbólico. O sistema matemático demonstra a existência da contradição em qualquer sistema matemático que queira se ver livre dela, livre dessa captura completa de um sistema em termos de si mesmo – nenhum sistema recobre-se a si mesmo, há sempre um ponto de indecidibilidade. “Godel procede à demonstração de que, no campo da aritmética, sempre haverá algo enunciável nos próprios termos que ela comporta, que não estará ao alcance do que ela postula para si mesma como modo de demonstração a se considerar aceito” (Ibid., p. 40). Em uma linguagem mais rigorosa, “Todas as afirmações axiomáticas consistentes da teoria dos números incluem proposições indecidíveis” (HOFSTADTER, p. 17) – o ‘indecidível’ é o que evidencia a existência de contradições e paradoxos. Isso foi um avanço no campo da matemática que permitiu um avanço na lógica. Um exemplo dessa lógica é o famoso paradoxo proposto por Epimênides (adaptado): “Eu estou mentindo”, ou, em outra versão, “Esta frase é falsa”. Ora, se a frase for falsa, ela estará dizendo a verdade sobre si mesma, logo ela será verdadeira; mas se ela for verdadeira ela está dizendo que é falsa, logo será falsa justamente porque é verdadeira. Como pode uma frase ser falsa se for verdadeira – e vice versa? Como pode uma coisa ser seu próprio oposto? Aí reside a hiância do real de que Lacan fala. “o notável é que Godel não procede a partir dos valores de verdade, da ideia de verdade, mas a partir da ideia de derivação. É ao deixar em suspenso os valores verdadeiro e falso que o teorema é demonstrável. Este ponto vital ilustra o que eu digo sobre hiância lógica” (p. 40) Essa suspensão das ‘palavras antitéticas’, essa indistinção (Milner), é o que o teorema de godel introduz na matemática. “A prova do Teorema de Godel se sustenta na escrita de uma formulação matemática auto-referente, da mesma maneira em que o paradoxo de Epimênides é uma formulação auto-referente da linguagem” (HOFSTADTER, p. 17).

Além da auto-referência, que é o fundamento da teoria de Gödel, um outro conceito intimamente relacionado a ela é a recursão. A recursão é a produção de algo outro a partir de si mesmo. Tomemos o exemplo mais simples: uma árvore. Em sua estrutura, ela não é nada mais nada menos do que a repetição da forma do tronco sobre si mesma: apenas ao se repetir, cria complexidade, cria galhos. Veja então que a produção de complexidade da árvore é auto-referente: o Outro só pode ser gerado a partir do Mesmo, a diferença se funda por uma repetição (do real sobre si mesmo).

Ora, se Lacan fundamenta o real com Gödel, e o fundamento de Gödel é autoreferência e recursão, como podemos explorar o real enquanto recursivo, auto-referente? Bom, não há Outro do real; o real é pura presença da própria ausência de objeto, logo ele não se refere a nada – só pode referir-se a si mesmo, pois não há nada exterior ao real, ao qual ele poderia referir-se (sem 19 existencia x inexistência, p. 131) para constituir sua identidade. No que o real é UM: ou seja, não há Outro. Mas esse UM, por ser auto-referente, refere-se a si mesmo na falta de um Outro: no que ele é fissura, corte, diferença pura entre si e si mesmo: “O estatuto do Um, a partir do momento em que se pode fundá-lo, só pode brotar de sua ambiguidade” (p. 138, sem 19). Lacan também fala do “caráter bífido do UM” (p. 130). Assim, o real, como um impossível lógico à maneira do paradoxo de Epimênides, é esse Um-bífido, ambíguo, auto-referente, que enquanto Mesmo, ou seja, enquanto UM, é outro, é hiância pura: “é o próprio Indistinto”, diz Milner.

Ora, “pelo menos uma distinção está envolvida na presença de autoreferência. O ‘auto’ aparece, como indicação de que o mesmo pode ser visto como separado de si-mesmo” (KAUFFMAN, p 1). É como a estrutura de UM do paradoxo de Epimênides e a suspensão dos valores verdadeiro e falso de sua proposição: “Eu estou mentindo” é suspenso entre estar falando a verdade e a mentira, não entra nessa oposição, mesmo estando dividido em seu seio. No entanto é só a partir dessa impossível oposição simbólica expressa no paradoxo que temos acesso ao UM desse indecidível Real entre-Dois.


Podemos mostrar a auto-referência também através da topologia, que no ultimo ensino de Lacan é identificada com a própria estrutura, por ser uma maneira de demonstrar o real. Se tomarmos uma figura como o “triângulo impossível” que Roger Penrose propõe:



Pergunta-se: onde está a impossibilidade do triângulo? Ora, o triângulo é UM, mas um UM impossível de ser formulado. O que se pode fazer para descrevê-lo é separar (ou seja, discernir, simbolizar) seus vértices e entender as regras de colagem entre eles, separadamente. Enquanto UM, ele não pode ser descrito, pois a colagem de suas partes cairia em contradição consigo mesma. Como o triângulo só pode ser descrito em termos de suas próprias partes (simbólicas como tais), ele refere-se a si mesmo: uma parte refere-se a outra que refere-se à outra e que refere-se à primeira – todas partes do mesmo UM, do mesmo triângulo.

Miller nos mostra a mesma lógica na banda de moebius, ou oito interior: “é o oito interior tal como superfície interna – atravessa-se o exterior-interior e, nesse momento, vocês poderão situar na zona crítica esse termo paradoxal que, de um outro modo, apareceria como atópico. O oito interior é a maneira mais simples de representar tudo o que Sartre perseguia, ou seja, a auto-diferença” (MILLER, MATEMAS 1, p. 86).

No entanto, o próprio significante tem algo de auto-referente, de recursivo: sua própria definição. Ora um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante. Ou seja, defino “significante” com a própria palavra “significante”. É o mesmo que dizer que um significante é outro significante. Ou seja, é a “auto-diferenciação do significante na medida em que ele não pode significar a si mesmo” (Miller p. 86). O significante significa seu oposto, o Outro significante.  É o mesmo que dizer que isto é não-isto, ou x = - x, ou ‘se estou mentindo, estou falando a verdade’, e etc.

Ora, a definição de recursão é: “definição de alguma coisa em termos dela mesma”. Eis um excelente exemplo de recursão na arte:



É uma imagem (um quadro) com a escrita da definição de definição. Definição é... definir! Nada mais significante. Nada mais recursivo. A recursão “se refere a um método de definir funções na qual a função a ser definida é aplicada à sua própria definição” (WIKI). Logo, a definição de significante é recursiva justamente para demonstrar sua recursividade. “A recursão é o processo pelo qual um procedimento passa quando um dos passos do procedimento envolve invocar o próprio procedimento” (Ibid.). Um dos grandes exemplos é a série de Números de Fibonacci: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89... “os novos números Fibonacci são definidos em termos dos números Fibonacci anteriores” (HOFSTADTER, p. 136), tipo como se dissesse: “um Fibonacci é outro Fibonacci, que é outro Fibonacci...”. Porém, um exemplo particularmente interessante é o fatorial. O número fatorial (n!) é “o produto de todos os inteiros positivos menores ou iguais a n”. Assim o fatorial do número 5, notado 5!, é 5 x 4 x 3 x 2 x 1 = 120. A definição dele é assim: n! = n.(n-1)!, para n >= 2. Quer dizer: o fatorial de um número é o próprio número vezes fatorial do (próprio número menos 1). Então, 5! = 5.(5-1)!; 4! = 4.(4-1)!; 3! = 3.(3-1)!; 2! = 2.1 Define-se assim um fatorial por outro fatorial – recursão é esse processo auto-referente de ‘definição da definição’.

Daí que 5! = 5.(4.(3.(2.1)))

Tomemos agora o esquema do significante que Lacan propõe à pág. 154 do seminário 20, o esquema do enxame significante: "Esse um, S1, de cada significante, se eu coloco a questão 'é deles, é de dois que eu falo?' (est-ce d'eux que je parle?), eu a escreverei primeiro por sua relação com S2. E vocês podem pôr quantos quiserem. É o enxame de que falo".

O esquema é assim: S1(S1(S1(S1->S2))).

Lacan completa: "li recentemente o trabalho de uma pessoa que se interroga sobre a relação de S1 com S2, que ela toma por uma relação de representação. O S1 estaria em relação com o S2, na medida em que ele representa um sujeito. A questão de saber se essa relação é simétrica, anti-simétrica, transitiva ou outra, se o sujeito se transfere de S2 para S3, e assim por diante, esta questão deve ser retomada a partir do esquema que reapresento aqui. O Um encarnado na alíngua é algo que resta indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, ou mesmo todo o pensamento. É o de que se trata no que chamo de significante-mestre. É o significante Um." (Ibid.)

A operação S1->S2 repete-se ('dá um loop', como dizem) sobre o próprio S1->S2, a partir de um outro S1 - ela aplica-se a si mesma. Daí que o (S1->S2) [chamemo-lo de 'fonema'] se torna o próprio S2 em S1(S1->S2) [chamemo-lo de 'palavra']; e o próprio S1(S1->S2) se torna o S2 em S1(S1(S1->S2)) ['frase'], e etc.

Chomsky e os matemáticos chamam isso de 'nesting', o 'aninhamento' de funções gramaticais recursivas – algo que parece mais preciso que 'essaim'. É como uma (ou ‘umas’?) matryoshka, a boneca russa que está dentro da boneca russa, etc...

Então, seguindo esse enxame, podemos pensar uma “equação verbal recursiva” da definição de significante: "Significante é aquilo que representa $ para (aquilo que representa $ para (aquilo que representa $ para (aquilo que representa $ para outro significante)))".

Um questão a se desenvolver é: visto que o real tem propriedades recursivas e auto-referentes, e o significante também as têm, como distinguir as especificidades de cada registro dentro dessas propriedades? Outro exemplo que nos deixa em situação delicada quanto ao tema, é o fato de que Lacan, no sem 19 coloca o Um como da ordem do real (p. 121, “ele não é passível de inscrição”), mas ao mesmo tempo “o que interessa é o significante como Um, e o único interesse do significante são os equívocos que podem sair dele, da ordem do fundir dois em Um e outras bobagens desse tipo” (p. 201). Essa frase deixa evidente o caráter bífido do Um; mas o Um é Simbólico ou Real? Na contracapa do sem 19 Miller nos dá uma trilha pelo qual seguir: “Lacan ensinava a primazia do Outro na ordem da verdade e do desejo. Aqui, ensina a primazia do Um na dimensão do real. Rejeita o Dois da relação sexual e o da articulação significante. Rejeita o grande Outro, eixo da dialética do sujeito, e o remete à ficção. Desvaloriza o desejo e promete o gozo. Rejeita o Ser, que não passa de semblante. Aqui, a henologia, doutrina do Um, supera a ontologia, teoria do Ser. E a ordem simbólica? Não é outra coisa no real senão a iteração do Um”. Outra maneira de dizer que o simbólico é a repetição do real (Um) sobre si mesmo (a iteração), gerando a (auto)diferença. A iteração é “a repetição explícita de um processo (REAL, 2013)” – no caso, de diferenciação. Mas como o real só pode se diferenciar de si mesmo (pois não há nada além do real p. 131), ele é auto-referente, e no que isso cria a (auto)diferença, temos um processo recursivo na passagem de real a simbólico, ou seja, na produção de distinção a partir da não-distinção. “O significante Um não é um significante entre os outros, e supera aquilo pelo qual é apenas no entre-dois desses significantes que o sujeito é suponível, em minhas palavras. Mas é aí que reconheço que esse Um é apenas o saber superior ao sujeito, ou seja, inconsciente, na medida em que se manifesta como ek-sistente – o saber, digo eu, de um real do Um sozinho, inteiramente só, onde se diria estar a relação” (P. 234, sem 19). A relação não existe porque não há Outro do real, o real não atinge a inexistência, pois ele é a pura existência (sem 19). O que falta ao real é algo que não existe, a própria inexistência. “Não há existência senão contra um fundo de inexistência e, inversamente, ex-sistire é extrair a própria sustentação somente de um exterior que não existe” (p. 131). O Um-real é então essa existência pura, auto-referente, em que quaisquer oposições simbólicas ficam suspensas na impossibilidade de serem descritas em termos de relação, de unicidade; o que surge no lugar que seria o da relação é o que Lacan chamou de campo do Uniano, Aquilo que ek-siste (suspende) às oposições simbólicas entre um termo e seu oposto.



LACAN. Seminário 19 .
LACAN. Seminário 20.
HOSFTADTER, Douglas. Gödel Escher, Bach.
MILLER, Jacques-Alain. Matemas 1.
REAL, Eduardo Machado. O importante papel da indução matemática e suas estratégias no projeto de algoritmos recursivos.

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