quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Eric Cartman ou a criança contemporânea: amigo ou filho da mãe?

"Entendamos que não existe psicanálise de crianças. Existe, sim, gente que gosta mais de trabalhar com criança" (MD Magno)




Não apenas o cartoon South Park tem um roteiro que sempre tenta expor as contradições do pensamento tradicional (que com o final do século XX começou a desmoronar-se de vez) das mais irônicas maneiras - sejam elas sutis ou grosseiras -, mas também tem personagens históricos. Sr. Garisson, e especialmente Eric Cartman são o emblema da crise de fundamentos que vive a sociedade contemporânea, que é o que chamam de crise de 'limites', ou 'declínio da função paterna'. Os efeitos dessa crise afetam tanto adultos quanto crianças, de acordo com as peculiar-idades de cada um; enquanto os adultos têm que se deslocar de esquemas prévios em suas vidas, herdadas de sua infância tradicional, as crianças não têm referência prévia, elas estão construindo essas mesmas referências de acordo com a falta de referência que é característica da passagem cultural que estamos vivendo: passagem entre uma sociedade norteada pelo Pai, pelo simbólico, pela categorização e estabilização de esquemas mentais que se sustentariam por si sós, como ideais, como se guardassem em si a sua verdade, e uma sociedade que terá que se virar sem a referência simbólica, que não dá conta das metamorfoses pulsionais que se dão à revelia de qualquer ordem paterna, de quaisquer limites (no sentido matemático do termo). E o lugar fulcral de (re)produção dessa passagem é exatamente na criação dos filhos, no seio mesmo da família - que, por sinal, já etá completamente 'sambada', como se dizia antigamente. Como lidar com as novas formas de ser da criança, em que as fobias, ou seja, os medos, característicos da era vitoriana (ícone do império do pai), por exemplo, dão lugar a desobediências de todos os tipos, maior agressividade e questionamento contra os pais, as leis e as instituições? Trata-se de resgatar o pai? Ou simplesmente teremos que aprender a nos organizarmos sem essa função? E, se assim for, como criar um filho no meio dessa zorra toda, dessa falta de referência de verdade, de palavra? São questões difíceis que o novo século nos traz e para o qual ainda não há respostas. Mas é imprescindível mapear o momento de maneira o mais aberta possível, para não ficarmos repetindo histórias já desmascaradas e conseguirmos inventar 'novas formas de existência', como diz um livro do grande psicanalista Célio Garcia - o que me parece crucial do ponto de vista dos objetivos da psicanálise. 

Tomarei então como ponto de partida dessa reflexão, desse mapeamento, o episódio chamado "Tsst". É uma onomatopeia, que será decifrada mais adiante. Começa com Eric e sua mãe sentados em frente ao supervisor da escola. Eric havia acorrentado um colega a um poste, humilhado-o, e ainda serrado sua perna. O diálogo que se segue:

SUPERVISOR:
Estamos aqui na escola tentando fazer o Eric entender que existem limites, ok?

MÃE:
Eu sei. Eu sei que ele está fora de controle, mas... você não sabe como é. [chorando] Me desculpe... é só que... ele parece piorar a cada dia. Ele nunca escuta!

CARTMAN:
Parabéns, seu imbecil! Você fez minha mãe chorar!

MÃE:
Não é ele! É você, Eric! Eu não sei o que fazer com você!

CARTMAN:
Claro que sabe! Você é uma ótima mãe! 
[Cantando]
Quem tem a melhor mãe do mundo? Eu!
Minha mãe é a número um no meu coração,
É sim!

MÃE [já sem chorar] E CARTMAN:
[Cantando]
Minha mãe é a melhor mãe, melhor que a sua,
E cantando juntos em harmonia!

Nesse momento o supervisor sugere que a mãe de Eric procure um daqueles programas de babás que vão em casa e consertam as crianças, o que ela prontamente o faz. O primeiro programa que ela procura chama-se "Babá 190". Parodiando o mais famoso desses programas, Super Nanny, a babá, que se veste caricaturalmente como uma senhora britânica de respeito e valores, chega à casa dos Cartman dizendo: "é hora da Babá Stella mostrar para o Eric que seus modos não serão mais tolerados!". Ela bate na porta. Eric está jogando videogame, e a porta bate novamente, no que ele diz: "Mãe, está surda? Tem alguém na porta!". "Eu acho que é a babá, docinho", diz a mãe. 

Quando a babá chega, retira o videogame de Eric e o coloca na cozinha. E diz que ele só vai jogar quando terminar suas tarefas (sim, foi essa a palavra). "Devolve o meu videogame, sua vagabunda!", diz a criança. A babá responde, enfática: "Chega! Já pro canto!". Coloca um banquinho no canto da cozinha e senta Eric lá. "Você vai ficar aí por cinco minutos". É ótimo notar como essa 'técnica' é completamente alheia às transformações do mundo, pois é cômica, e precisamente por isso. A babá acha que simplesmente porque ela falou pra ele ficar lá isso terá alguma eficácia, como se a fala, a linguagem, o simbólico, garantisse alguma lei, alguma obediência. Ele responde: "e o que exatamente me prende nesta cadeira?". Resposta coerente com o momento cultural que vivemos, em que a dita eficácia simbólica está em falência, as palavras não têm mais o peso de significação que tinham, de modo que são facilmente questionáveis em seu sentido - palavras não prendem ninguém a cadeiras... Em seguida, Eric sai da cadeira e a babá o coloca nela de novo. Ela se abaixa para ficar frente a frente com ele e conversar, enquanto explica para a mãe: "estou me abaixando para ficar no mesmo nível que ele" [vira para Eric:] "Você precisa entender porquê está de castigo, ok?". Como se a criança não soubesse... Cartman retruca: "eu vou descer assim que você se virar". "Então eu vou ter que ficar bem aqui!" (face-a-face com Eric). O garoto então cospe dentro da boca dela, e a mãe dele diz: "é melhor a gente evitar o nível dele"! Mas a babá ainda insiste: "Tudo bem, eu já lidei com isso antes. Nós precisamos usar uma psicologia com ele". Assim, o que a babá tenta como técnica é conversar abertamente com Eric. Segue o diálogo:

BABÁ:
Eric, porquê você está com raiva?

CARTMAN:
Porque você pegou o meu X-box.

BABÁ:
Isso é mais do que pelo videogame? Você está com raiva de mim porque você acha que eu estou aqui para mudar sua vida?

CARTMAN:
Bem, sim!

BABÁ:
E você acha que eu não tenho direito de vir aqui e te dizer como viver.

CARTMAN:
É, eu acho que sim.

BABÁ [fala com a mãe]:
Vê? Você tem que ter tempo de conversar com suas crianças sobre os seus sentimentos.

Aqui vai um parêntese. A babá é explícita quanto à função dela: dizer como a criança deve viver. Ela vem como toda sua expertise e técnicas adaptar a criança ao que se espera dela nos termos sociais, uma criança 'de bons modos', como está em sua fala. Todo um discurso baseado na suposição de sua própria verdade a partir das palavras que a babá profere: ela sabe o que são 'bons modos', sabe o que uma criança deve ser e fazer e esta deve adaptar-se a essa imposição que ela tenta lhe aplicar. O discurso da babá é no sentido de alienar a criança em seus ditames para garantir o estabelecimento da ordem e da adaptação a ela: produzir uma criança falada, que assim não tem voz, apenas obedece. Por exemplo, quando ela usa a psicologia, está simplesmente colocando as palavras na boca da criança - não é Eric quem está falando dos próprios sentimentos, é a babá. Eric só concorda, como quem sabe disso... Mas o diálogo prossegue:

BABÁ:
O que mais você está sentindo, Eric?

CARTMAN:
Estou me sentindo confuso, porque não entendo porque você é uma babá.

BABÁ:
Porque eu amo crianças, como você.

CARTMAN:
Certo, mas... se você ama crianças, porquê não é mãe?

BABÁ:
Ah, eu só não tive filhos.

CARTMAN:
Por que não?

BABÁ:
Simplesmente não aconteceu.

CARTMAN: Você é estéril, não é? Se bem que não... seria uma desculpa muito conveniente. A verdade é que ninguém quis ter filhos com você, não é? Sempre a babá da mãe, mas nunca a mãe. Deve ser difícil pra você ver que os anos estão se esvaindo, seus amigos todos se casando e tendo filhos enquanto seu útero lentamente murcha, seca, ficando inteiramente inútil.

Desnecessário dizer que depois disso a babá foi-se e nunca mais voltou. Cartman pega num ponto nevrálgico do discurso da babá: é fácil estar de fora da situação e dizer a quem está lá dentro 'como ser uma mãe', como se a babá fosse um manual da criação dos filhos, tipo um "Do-it-yourself": ora, ela nem mesmo tem a experiência de ter um filho! Não que ter tido um filho credencie alguém a ser um manual, pois não existe tal coisa: todo e cada filho é único (sem trocadilho), não havendo maneira de modelar uniformemente suas manifestações; isso porque existe o "mal-estar decorrente do discurso do mestre [o discurso da babá], que, estruturalmente, é insuficiente para nomear o gozo particular de cada um" (BARROSO, 2010). No entanto, a babá vem tentar recuperar aquela função paterna que está se dissolvendo na contemporaneidade, através da severidade do Pai (como no castigo do banquinho), ou da Sua palavra (como na cena do banquinho e da conversa psicológica). Cartman resiste sistematicamente a esse retorno ao pai, em coerência com os questionamentos e derrocadas de padrões ideológicos e de significação que chacoalham nossa vida atual. "Quem é você pra vir aqui me dizer o que fazer? Que verdade você acha que tem que seria mais verdadeira que a minha? Você é que sabe o que é melhor pra mim, sua fracassada?".

"As mutações da família, cujos registros indicam dados elevados do número de divórcios, da procriação fora do casamento e, por outro lado, de baixa da fecundidade, também a colocaram sob a mira do Estado, além de ser alvo da ciência. Os especialistas são, portanto, convocados à presença e à intervenção junto à família, que, sob a responsabilidade das políticas públicas de saúde, se torna objeto das mais diversas formas de vigilância, observação, controle, acompanhamento e prevenção dos problemas da vida privada. São pesquisadores de diversas disciplinas que se colocam a serviço da atual desordem familiar, visando a regular a vida do casal de acordo com a boa forma de viver a sua sexualidade, ou aconselhar os pais quanto à melhor maneira de adaptar as crianças à realidade. É raro recebermos uma criança no consultório que já não tenha sido submetida aos mais diferentes métodos terapêuticos, dentre os quais se pode destacar a prevalência dos medicamentos." (BARROSO, 2010)

Mas ainda assim, a mãe de Cartman insistiu em chamar outra babá, dessa vez a verdadeira Super Nanny - que após três dias, foi parar no hospício, comendo as próprias fezes. Um funcionário do manicômio então recomenda à mãe que procure um outro programa para dar um jeito no seu filho.

E é aí que surge Cesar Millan, apresentador de "O encantador de cães". Sim, ela chamou um etólogo (se é que podemos chegar a dizer isso, talvez o melhor termo seja mesmo adestrador) para tratar do seu filho. Veja que esse tipo de coisa pode muito bem acontecer - ou já ter acontecido... O slogan de Millan é: "Nenhum cachorro é demais pra eu lidar. Eu reabilito cães, eu treino pessoas"... Não vou nem comentar a fina ironia de que esses métodos de 'educação' das crianças citados no desenho são simplesmente tratá-las como animais, domesticá-las, adestrá-las. 

Então, Millan chega à casa dos Cartman e já começa com suas técnicas. Fica entre a mãe e o filho (como um Pai), ignorando este último completamente. Conversa com a mãe sobre o seu comportamento, de costas pra ele, "para não lhe dar atenção, mostrar que não está interessado nele. Veja, a criança acha que o mundo gira em torno dela, e ela está certa. Porque tudo o que ele faz tem uma resposta de você". É, de fato, um bom diagnóstico, ao apontar como a posição da mãe da relação com o filho determina o seu sintoma. Cartman então tenta entrar entre os dois quando Millan lhe dá um forte cutucão no pescoço e diz: "Tsst". "O que você está fazendo?", pergunta a mãe. "Os cachorros mostram dominância ao cutucar uns aos outros no pescoço, mas funciona em crianças tanto quanto. Assim, mostro que sou dominante", nitidamente mostrando as origens do behaviorismo: experimentos com animais aplicados em humanos, e não algo que busque o que seja especificamente humano de dentro dessa animalidade. 

Num próximo exercício, Millan sai com Cartman "pra passear": leva-o numa coleira e mostra à mãe que não adianta ele espernear e querer sair correndo da coleira. Ela deve olhar pra frente e guiar o garoto, na coleira, e não deixar o garoto guiá-la (como metáfora, essa oração é importante e será esclarecida no final). Ele passa a coleira pra ela. Cartman tenta sair e ela dá o cutucão nele; Millan a elogia: ela está sendo treinada a domesticar o filho!

Um terceiro exercício é: Millan compra um balde de frango frito e come na frente de Eric, ignorando-o. Isso pega no ponto fraco de Eric, que é o frango frito com pele - o que é tão importante do ponto de vista do seu gozo que há um significante para essa comida: o 'Coronel'. Millan come e passa para a mãe, que tem que ignorá-lo até que ele fique "relaxado e submisso", como quer o encantador. Cartman fica enchendo o saco dela: "me dá!!"; Millan então começa uma série de cutucões até que Cartman caia no chão, imóvel, dominado pela postura fálica exibida pelo dominante. Após algum treino a mãe finalmente consegue que Cartman fique submisso e cabisbaixo. Millan novamente a elogia: "você é a líder da matilha!", como que dizendo que agora ele a obedece. E Cartman o faz. Ela o manda escovar os dentes e ele vai, mas enquanto escova, se pergunta: "o que ela pensa que está fazendo, me mandando escovar os dentes? [Se olha no espelho, estranhando-se] O que está havendo comigo?!". Isso mostra que houve mudança no seu comportamento, mas não na relação de significação dele: por mais que obedeça, ele não acha que o deve, isso lhe é estranho, gera-lhe uma angústia. 

De modo que Cartman melhorou na escola, além de perder peso por comer as coisas saudáveis que a mãe mandava. Millan volta para conversar com a mãe, como uma checagem, e ela lhe diz: "o melhor é que eu não deixo mais ele mandar em mim" (como quem não deixa o cachorro a guiar), ao que o etólogo responde: "bom, Sra. Cartman, muito bom! Parece que você está tratando o seu filho como um filho, e não como um amigo". Isso é bem contemporâneo mesmo: quantas vezes vemos esse tipo de relação entre pais e filhos, e vemos os psicólogos e psicanalistas dizerem que é preciso colocar o filho no seu lugar hierárquico inferior, em verticalidade, e não no mesmo nível, horizontal. Vemos com todas as letras a palavra Pai nessa estrutura discursiva: uma adaptação aos parâmetros sociais esperados: bom aluno, obediente, emagrecendo - quase um politicamente correto, se comportando como um 'filho', exemplar (aqui poderíamos questionar: o que é ser um 'filho'? Que significado se espera desse significante?). Mas a mãe coloca que "só tem um problema: ele luta comigo até o fim. Eu sinto que ele está fazendo o que eu digo, mas por dentro ele é ainda uma criança mimada", mostrando que o que Eric significa de si mesmo está intacto, por mais que o comportamento tenha mudado. 

Cartman vai para a casa de seus amigos e diz: "gente, é sério. Preciso matar minha mãe. Ela nem me deixa vestir mais o que quero", e mostra a roupa de 'bom menino' ridícula que está usando. Ele propõe um plano em que seus amigos a matam, mas eles simplesmente o ignoram, absorvidos que estão no videogame. "Então vou fazer tudo sozinho!", e sai, puto da vida. 

À noite, entra no quarto da mãe enquanto ela dorme, munido de uma faca e guardanapos de papel (pra limpar o sangue, rrsrs...): "Você me forçou a fazer isso. Você não podia simplesmente me amar como um filho. Você teve que me humilhar e me degradar com suas regras. Não vou deixá-la dominar mais a minha vida. Adeus, mãe". É uma linda metáfora do mito freudiano de Édipo, só que ao contrário: o Pai que ele quer matar é justamente a sua mãe (aqui vale dizer que nem Cartman, nem a própria mãe sabem que é seu pai biológico - ela é prostituta -, de modo que ele 'não tem' um pai), pois é ela mesma quem está introduzindo a função de interdição paterna, sua lei. É como se Eric estivesse matando tanto o Pai quanto a própria mãe. 

Porém, bem na hora em que ia cravar-lhe a faca, surge uma série de pensamentos contraditórios: "Talvez eu não tenha o direito de matar minha mãe"; "Não! Ela é minha mãe e eu posso fazer o que eu quiser com ela! É mais importante que eu viva como eu quero!"; "Ela não é um objeto que você possa possuir. Ela é um ser humano!"; "Ela não é um objeto que eu possa possuir. Ela é um ser humano!"; "Não, ela só te faz sofrer"; "Talvez essas mudanças sejam boas pra mim. Talvez..."; "O mundo não gira ao meu redor?"; "O mundo não gira ao meu redor!"; "Idiota!". A contradição entre esses pensamentos é mostrada como as transfigurações do rosto Cartman entre os dois lados da contradição de sua mente. No final, Cartman vomita, sai do quarto enquanto parece sofrer várias mutações até cair no chão, desmaiado. Nada mais claro para indicar a incidência do real em Eric: foi o momento em que ele se vê dividido no núcleo de seu ser, para além das determinações que ele já tinha em si (ser um 'mau garoto', por assim dizer) e as que a sociedade esperava dele (ser o 'bom garoto'). É um momento de Hiperdeterminação, em que o surgimento contingencial dessa angustiante contradição permite um rearranjo das determinações ali em jogo. Eric se deparou com o vazio de sua existência: "sou assim ou sou assado?". Poderíamos dizer que é o momento em que Eric é simplesmente "ou": nem um nem outro, apenas um questionamento puro do seu ser ("Che Vuoi?"), algo que é da ordem do pré-ontológico, como diria Lacan, emulando Heidegger. Um efeito específico e propriamente psicanalítico ocorre, "ou seja, a possibilidade de ser afetad[o] pela determinação última e radical que é capaz de produzir eventos que suspendam as outras formas de determinação em vigor e possibilitem assim o surgimento de novas formações no sistema. Em outras palavras: a possibilidade de ocorrência de neutralização no conjunto das forças que existem em uma dada situação para a emergência do novo" (ALONSO, S/D). É

No dia seguinte, a mãe acorda e vê a faca e os guardanapos na cama e procura Eric. Ele está na cozinha tomando um café da manhã saudável e estudando antes da aula. Ela vê aquilo e fica super-orgulhosa! César Millan chega nesse momento para fazer uma checagem do tratamento. Ela diz que acha que houve a mudança de personalidade, pois Eric faz as coisas por si só agora e parece estar estar aceitando isso. "Eu perdi um amigo, mas ganhei um filho". Millan responde: "É muito mais saudável pra ele, e quando ele crescer, poderá ser seu amigo também". Em agradecimento, ela o convida para ir a uma peça de teatro, claramente interessada nele. Ele recusa, dizendo que seu trabalho terminou ali, e que teria que voltar para Los Angeles. Ela diz: "Mas achei que estávamos ficando amigos", ao que ele responde: "Bem, não. Você é só uma cliente. Boa sorte pra você. Tenho que ir". Cara de decepção dela. Eric se aproxima, dizendo que está indo pra escola e vai chegar mais tarde pois vai estudar com seu amigo. Segue o diálogo final:

MÃE:
Eric, que tal ir comigo assistir ao teatro hoje à noite?

CARTMAN:
Não, valeu. Vou fazer o projeto de ciências. 

MÃE:
E se eu te levasse pra comer um Coronel depois? Daí vamos na loja e compramos um Mega-Ranger!

CARTMAN:
...poderiam ser... DOIS Mega-Rangers?

MÃE: 
Claro, querido. Você pode ter o que quiser... [Abraça o filho, que faz um sorriso de gozo, por ter recuperado sua mãe de volta]. 

Fica claro então o que Freud dizia: 

"No texto de 1914, Freud comentava as relações entre pais e filhos, explicando o amor e o investimento libidinal dos pais nas crianças, segundo a política dos ideais. O amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é senão o narcisismo dos pais renascido, o qual, transformado em amor objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior (FREUD, 1914/1976, p.108). A transformação em jogo do lado dos pais implica a substituição de uma satisfação autoerótica pelos ideais civilizatórios, que visa a amalgamar os ideais com as pulsões. A atitude dos pais afetuosos para com os filhos é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que de há muito abandonaram. Assim, eles se acham sob a compulsão de atribuir todas as perfeições ao filho e de ocultar e esquecer todas as deficiências dele". (BARROSO, 2010)

A mãe de Cartman, na sua relação com ele, coloca antes de tudo a relação consigo mesma, a relação com aquilo que a comove em primeiro lugar, adestrando-o a ser o 'amigo' que ela não tem (e em cujo lugar ela colocou o 'pai' Millan), que a satisfaz e a aliena de suas próprias dificuldades. Ora, quando o encantador de cães não quis ser seu "amigo", ela não pôde arranjar outro, presa que é da/na própria fantasia, e teve que retornar a mimar o filho para que ele se reencaixasse em seu sintoma. Podemos dizer que ela é apaixonada (pathos) por algo que ela tenta fazer o filho ser: o filho ocupa precisamente o lugar desse seu objeto. "A posição da criança enquanto objeto da subjetividade materna, compensador de seu 'a menos' de gozo [o 'amigo' que ela não tem], somada à demissão paterna, coloca no horizonte de nossa época a tendência à objetalização do sujeito" (Ibid). Como vimos, a 'demissão paterna' afeta tanto crianças como adultos, e as crianças de hoje, com seus sintomas contemporâneos, são o fruto dessa falta de pais de seus próprios pais. Seus pais são os precursores da própria crise paterna que as crianças vivem, foram eles que iniciaram o processo que as crianças de hoje levam adiante. Isso assusta os pais, que têm um ataque de pânico diante do esvaziamento cada vez mais progressivo de sua referência: como se horrorizassem diante do espelho que é essa nova geração de travessia entre um mundo antigo em pleno colapso e um mundo que ainda há de ser 'moderno' (fala-se muito em pós modernidade, mas opino, junto com Magno e Bruno Latour que "nunca fomos modernos" - talvez estejamos começando a sê-lo). A mãe de Cartman tenta introduzir, resgatar um Pai não apenas para vida do filho, mas para própria vida, tentando fazer com que Cartman não seja seu 'amigo', seu gozo particular, pois o modo pelo qual ele responde a essa demanda é insuportável pra ela; no fundo, ela também tenta não fazer de Cartman um objeto de sua fantasia. Mas quando se frustra com a recusa do 'pai adotivo' Millan, ela não dá conta do vazio e tem uma recaída sintomática: seduz Eric a voltar a ser seu 'amigo'. Vejam que quem seduz é a mãe, ela é que propõe o incesto, ela é que não tem pai, não tem referência. Isso se transmite pro filho, que percebe desde o início que o mundo é biruta (como sua mãe) e não há referência mesmo (importante frisar que não é que FALTE referência, ela simplesmente NÃO HÁ, é isso que está sendo percebido). Com essa pressão do gozo de sua mãe na sua falta de referência, Eric então encarna nosso Zeitgeist e responde com os típicos sintomas contemporâneos - e ficamos chocados diante disso: pura hipocrisia, puro reacionarismo, pura denegação dos pais. É normal, considerando que não sabemos o que fazer com esse vazio de referência que se nos apresenta: ainda não conseguimos inventar um futuro, então repetimos cacoetes do passado, assim como a mãe de Eric repete a objetalização do filho após a queda da referência paterna que Millan encarnava - o que reforçará, como consequência, um retorno de Eric à sua posição de 'amigo' (enquanto objeto materno), e não 'filho da mãe' (como seu Ideal perdido - aliás, nunca havido...).



Referências:
Barroso, Suzana. A criança de Freud a Lacan: do Ideal ao objeto. Disponível em: 

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