segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Eleições, classes paradoxais, burrice e canalhice

Quero ser livre insincero
Sem crença, dever ou posto.
Prisões, nem de amor as quero.
Não me amem, porque não gosto.

(Fernando Pessoa "Quero ser livre insincero")



Fim de eleições em Belo Horizonte no ano de 2012. O prefeito Lacerda foi reeleito no primeiro turno. Devo dizer que uma das coisas que ainda me impressionem em política é a cegueira que toma conta das pessoas quando apoiam um candidato (quem sabe 'canditado'...) ou um partido. 

O contexto é o seguinte: Márcio Lacerda, o prefeito, tem um modo de governo que para certas classes sociais (ou melhor, para classes dessas classes) é considerado cruel, desumano, elitista, corporativista, e etc. Para outras classes de outras classes, ele é visto como "o melhor prefeito do Brasil", em grande parte por ter sido eleito com tal título por uma pesquisa 'suspeita' que foi veiculada na mídia acentuadamente. Essas são as duas principais classes que se me apresentaram, e que formavam, entre si, uma 'oposição'

Lembremos que, por quatro anos, até dois meses antes das eleições, os dois elementos da oposição (seus dois alelos, tecnicamente), PT e PS(D)B eram aliados políticos, defendendo os mesmos 'ideais' (leia-se: cargos), sobre quem era o melhor prefeito para nossa cidade. A separação se deu devido às 'divergências' quanto aos seus próprios 'ideais': Lacerda havia prometido 'ideais' ao PT e não entregou. Assim, o PT, puto de raiva e às pressas, resolve lançar o vice de Lacerda, Roberto de Carvalho, como candidato de 'oposição' nessas eleições. Porém, no último minuto, após uma reunião de cúpula do partído, ficou decidido que Roberto de Carvalho retiraria a sua candidatura para dar lugar a Patrus, que o PT sabia ter muita simpatia junto à 'esquerda' belorizontina (leia-se, principalmente: classe artística - e simpatizantes da causa -, que, após muitos entraves com  o prefeito, se institucionalizou como oposição especialmente com o 'movimento fora Lacerda'). Desnecessário dizer que isso irritou o ex-vice-prefeito, mas talvez o alto escalão tenha pensado que é pelo bem do Partido.

De modo que, então, a legenda 'PTS(D)B' se cindiu em PT e PS(D)B, criando uma 'oposição'. Assim, chegou-se à configuração à qual me referi no começo, em que coexistem o tinhoso Márcio lacERDA e aquele que encarna os ideais da cultura, de uma cidade diferente, "de ação e coração", livre da gestão PS(D)B.

Quanto a isso, abro um parêntese, quando os PTistas acusam Márcio lacERDA de realizar desocupações mediante violência àqueles que não têm onde morar, esquecem que o VICE-PREFEITO era PTista, tal como recalcam que a gestão que tanto passaram a criticar era da sigla 'PTS(D)B'. Fecho parêntese.

E nas redes sociais choveram mensagens denunciando as podridões que M. lacERDA fez no governo, enquanto depositavam em PaTrus a esperança de um novo dia, em que todos seríamos tratados como 'humanos' (whatever that means...). vi mensagens do tipo "Sim, patrus! somos responsáveis", e tals. E essa classe de 'responsáveis', era, em grande maioria, pessoas ligadas às artes de algum modo, seja profissionalmente, seja indiretamente, seja por amor. Realmente nem vi manifestações apaixonadas de apoio a M. lacERDA. Até porque Lacerda comprou apoio político, não precisa ser espontâneo... O que é de se pensar...

Mas, retomando meu raciocínio, criou-se essa 'oposição': Lacerda no qual a maioria votaria, segundo as pesquisas, mas que não tem lá muito apoio explicitamente apaixonado como no caso do Patrus, e o PTista, cujo partido, oriundo da cisão com o PS(D)B agora se apresentava como 'alternativa' à gestão horrorosa do Lacerda (e só dele - tanto que o movimento é o 'fora LACERDA', e não 'fora roberto de carvalho').

Para formular uma leitura psicanalítica dessa situação me utilizarei de Jean-Claude Milner, um linguista estudioso de Lacan, que é muito bom de se ler. Cara preciso, sucinto e denso. Pois bem , ele tem um conceito que trata do que ele chama de 'classes paradoxais'. Uma classe é uma nomeação que rotula certa situação em uma determinada significação. Por exemplo: "ah, aquela mulher é uma histérica!", com aquele ar jocoso. "histérica" aqui representa uma classe (cujo nome é 'histérica) que contém certos atributos, ou propriedades: 'exagerada', 'fingidora', 'chata', etc. Assim, uma classe se funda em quaisquer atributos que acaso cofiramos aos nomes, os quais, por sua vez, se prestam a quaisquer deles. Temos várias classes, inclusive classes clássicas, que são o 'trabalhador', o 'burguês', o 'humano', etc. Inclusive esse é o fundamento de todo e qualquer agrupamento, todo e qualquer Laço Social: que o sujeito estabilize seu ser em algumas das propriedades dessas classes: 'filho', 'brasileiro', etc.

Ora, a ideia de classe paradoxal que milner nos fornece é algo interessantíssimo: ela é uma nomeação de classe cuja função é precisamente a de desagrupamento. Aqui, cito um parágrafo meio extenso: em psicanálise "quando alguém diz 'o neurótico, 'a histérica', 'o perverso', 'o obsessivo', dá a entender, sob as espécies do singular genérico, a unicidade de um sujeito, que lhe é homônimo (...) Quem de fato vai acreditar que se trata de classes fundadas em propriedades, quem vai acreditar que os neuróticos se assemelham entre si e se opõem a um complementar? Ou, pelo menos, quem vai acreditar que é isso que o nome visa, quando é do ponto da análise que ele se articula? Mas no instante mesmo que, por homonímia, a psicanálise retoma os nomes recebidos, ela sabe, ou devia saber, que se trata aí de semblante: algo, para além, subsiste e não está esgotado na classe representável.. Algo que diz, mas não o que os neuróticos têm de mutuamente substituível e sim o que cada um deles tem de insubstituível; é que o laço que, segundo toda aparência, é constituído pelo nome comum só tem de substância o que separa para sempre os ligados. E, se entendermos esses últimos pelo que os faz se assemelhar, deveríamos estar, ao mesmo tempo, seguros de ter perdido o que, pelo nome, era visado de real. O nome de 'neurótico', de 'perverso', de 'obsessivo' nomeia ou finge nomear a maneira neurótica, perversa, obsessiva, que tem um sujeito de ser radicalmente dessemelhante de qualquer outro" (p. 91).

Admito muita emoção a citá-lo, pois é muito bonita e precisa a sua escrita. Mas o que quero frisar disso é que a classe paradoxal é um modo de-classificar, quer dizer, um modo maroto de usar um nome de classe para desclassificar. Lacan, quando fundou sua escola de psicanálise, tentou ao máximo impedir que se formasse uma igreja ao seu redor, para que a teoria psicanalítica não ficasse intocável por suas próprias sábias palavras e tentasse constantemente se renovar, sempre, a despeito do próprio Lacan. Por isso, ele 'diz-solveu'-a, dizendo: "vocês podem ser lacanianos, se quiserem. Quanto a mim, eu sou freudiano".. O estranhamento, o 'tchan' da frase é: "Lacan não-lacaniano? Como assim?" Esse é um exemplo de uma classe paradoxal. Essa é uma postura de indiferença com relação às classes, pois os atributos ou propriedades delas não podem ser totalmente unívocos, mas comportam um elemento de equivocidade e possibilidades de sua sub-versão. Se uma classe serve para assemelhar, agrupar, a classe paradoxal comporta a presença de uma auto-diferença em seu próprio seio, onde o duplo-sentido, sempre possível, desvela a falta de sentido radical para as atribuições que fazemos às classes. 

O que é ser lacaniano? O que é ser PTista? O que é ser 'de' tal ou tal partido? Diante da multipliCIDADE de (o)posições ideológicas, políticas, partidárias, que se constituem classes ao fortalecer sua (o)posição quanto às demais, a classe paradoxal vem mostrar que uma maior indiferença quanto às oposições serve para reduzir a burrice e a canalhice que tanto assolam eleitores e candidatos (não necessariamente nessa ordem). Isso porque, como conceitos, burrice e canalhice têm uma relação bem próxima. Para Milner - seria trágico se não fosse cômico -, a burrice tem um axioma: "não existe corte que desfaça o Laço" (p. 102) (leia-se laço social). Isso significa que a burrice é simplesmente que "tudo o que se diga, que o ser persevere sem ser afetado pelo fato de ser falante, que a linguagem una e comunique, que haja algum discurso que não seja semblante, eis alguma palavras enunciadas pela burrice, ou, pelo menos, por ela aplicados". (p. 103). Assim, burrice é acreditar no significado do que se diz, decantando-o cada vez mais; burrice é crer em Deus, o Laço Supremo, que para cada um tem um rosto; burrice é acreditar no Amor, cujos mal-entendidos expõem sua indelével fratura sexual. Burrice é crer em "deixa o homem trabalhar" ou "prefeito de ação e coração" (slogans de Lacerda e Patrus), como se um estivesse de fato trabalhando ou o outro tivesse de fato um coração. Resumindo, é crer que estamos INTEIROS, 'juntos e misturados', nesses PARTIDOS. A burrice é "a paixão pelo próprio laço" (p. 104). Completo eu: ser burro é crer ser (burro)...

De modo que, se por um lado, a classe paradoxal é precisamente aquela nomeação que não serve para agrupar, mas sim dispersar, causar um corte com o Laço, a burrice é a crença nesse próprio Laço, ignorando apaixonadamente, ou seja, resistindo à própria possibilidade de dispersão desse laço - como PTistas, PMDBistas, lacanianos... É crer que o Laço é tudo e Todo. Não é. Não necessariamente. 

Agora, não é porque constatamos que o Laço é burro que vamos ser canalhas de dizer foda-se ao Laço, foda-se o semblante, sendo inclusive burros de achar que isso é possível. O canalha - vou chamar de babaca de agora em diante -, o babaca, tenta recusar ser burro e acaba sendo os dois. Isso é que mais vemos nos políticos atualmente: mandam os semblantes à merda e agem simplesmente como se eles  (laços) não existissem, ou seja, faz o que quiser com o dinheiro 'público' (que é semblante) e se apropria dele (mostrando que de 'público' aquele dinheiro só tem o semblante, já que é simplesmente dinheiro na mão dele, e ele pode fazer o que quiser, inclusive roubar). Canalha também é quem não vota ou anula ou abstém: acha que não tem que preocupar com política, sem saber que sabe que dizer que não se envolve com política é tomar uma posição política. Quem é canalha também é burro: burrice é condição da canalhice. Ele é burro por achar que vai escapar do semblante ao ser canalha (que é só mais um semblante). E é canalha pelo mesmo motivo. Pois escapar de um semblante só leva a outro: é sair de um buraco pra cair em outro. 

Por isso é que a postura psicanalítica pode nos ajudar a reduzir a burrice e a canalhice: uma maior indiferença quanto aos semblantes que as nomeações partidárias, ideológicas, etc. nos atolam implica em uma política (ou melhor, uma polética) mais alinhada com o Real que é o para-além das oposições político-partidárias e ideológicas, em que as diferenças são mais indiferentes, em que possamos (como o Inconsciente) acolher e incluir elementos de quaisquer dessas oposições, sem sermos burros ou canalhas em relação a elas. 

Votar, sim; escolher, sim; tomar partido, sim; mas tentando sempre exercitar a indiferença, a classe paradoxal, quer dizer, resistir à burrice e à canalhice de supor que ou é tudo Um ou não é nada. Sem paixão ao Laço: menos amor, menos amor (como quem diz: menos ódio, menos ódio)... ou pelo menos, "ame ao próximo como se não fosse a ti mesmo", porque, de Narciso, tá cheio de gente no mundo... votando e se elegendo. Lacan deu o exemplo de tentar que não se construa uma igreja com o seu 'partido' lacaniano... (e fracassou, certamente...) Fernando Pessoa disse: "prisão, nem de amor as quero".

Como diz a 'Gina Indelicada': entre Michel Teló e Gusttavo Lima, prefiro o 'ou'"... 'Democracia' (se é que esse nome presta) começa aí...

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