domingo, 28 de outubro de 2012

Há Deus: Onimpotente, Inconisciente, Oniausente


"Não acredito em Deus porque nunca o vi. 
Se ele quisesse que eu acreditasse nele, 
Sem dúvida que viria falar comigo 
E entraria pela minha porta dentro 
Dizendo-me, Aqui estou! 
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos 
De que, por não saber o que é olhar para as cousas, 
Não compreende quem fala delas 
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.) 
Mas se Deus é as flores e as árvores 
E os montes e sol e o luar, 
Então acredito nele, 
Então acredito nele a toda a hora, 
E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. 
Mas se Deus é as árvores e as flores 
E os montes e o luar e o sol, 
Para que lhe chamo eu Deus? 
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; 
Porque, se ele se fez, para eu o ver, 
Sol e luar e flores e árvores e montes, 
Se ele me aparece como sendo árvores e montes 
E luar e sol e flores, 
É que ele quer que eu o conheça 
Como árvores e montes e flores e luar e sol. 
E por isso eu obedeço-lhe, 
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), 
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, 
Como quem abre os olhos e vê, 
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, 
E amo-o sem pensar nele, 
E penso-o vendo e ouvindo, 
E ando com ele a toda a hora."

(Alberto Caeiro, "Há Metafísica Bastante em não Pensar em Nada")


Certa vez estava eu nalgum lugar quando me formulei a seguinte pergunta: se Deus pode qualquer coisa, se Ele é onipotente, será que Ele poderia deixar de sê-Lo? Ou seja, poderia Deus deixar de ser Deus? Tipo assim: "ah, cansei dessa estória de existir!". É possível para Deus não ser Deus? Em outras palavras: Deus pode suicidar, do alto de seu Livre-Arbítrio?

A única resposta lógica, considerando que Espinosa disse "Deus sive Natura", ou seja, Deus é a própria existência, é não. Deus é condenado a existir e não tem possibilidade de não existir. Isso significa que Deus, por mais completo que seja, é definitivamente castrado da possibilidade de não sê-Lo. Lacan dizia que não há Outro do Outro, o que quer dizer que não há Deus de Deus. Deus é um só, e é tudo o que existe e tudo o que é possível existir. E para Ele, qualquer coisa é possível de existir, exceto uma: Sua não-existência. Deus  não foi criado (o que que havia antes de Deus? Não-Deus?) e nem morrerá (o que existirá se não for a existência?). E, se Deus deseja alguma coisa (quer dizer, se há Deusejo), é pular fora de si mesmo. 

Daí que, tendo isso em mente, é preciso reformular o estatuto divino de acordo com as possibilidades lógicas trazidas pela psicanálise. Deus tem três propriedades fundamentais, e se alguma delas forem contraditas, já não se trata mais de Deus. São elas: Deus é onisciente, onipresente, onipotente. Sabemos o que isso significa: Deus sabe tudo, está em tudo e pode tudo. 

Ora, como vimos, logicamente Deus até pode tudo, quando 'de dentro' da Sua existência: Ele pode ser qualquer coisa, como diz Fernando Pessoa, "as árvores e as plantas", e etc. No entanto, a castração divina vem na sua relação 'de fora': Deus não pode deixar de ser Deus, ele não pode ser outra coisa, ele não pode não existir (caso ele exista...). Enfim, temos aí a castração Originária de Deus: ele sempre houve, ou seja, não houve momento da existência (já que Deus está em tudo, em toda a existência) em que Deus não existisse, porque Deus é a (Sua) própria existência. Assim, reformulemos a impotência de Deus: ONIMPOTÊNCIA. Pois, dentro da existência, Deus pode ser qualquer coisa (onipotência, com 'o' minúsculo), mas não há Deus fora da (Sua) existência.

Outro ponto: se Deus não pode tudo, ele não sabe precisamente daquilo que ele não pode. Deus sabe o que é ser toda e qualquer coisa, mas não sabe o que é não ser Deus, ele não pode saber disso porque é impossível, é sua Onimpotência. De modo que Ele sabe de tudo o que ele pode ser, mas Deus não sabe do que Ele não pode ser. Literalmente, o Deusejo não sabe o que ele quer, ou seja, ele não tem acesso ao que ele quer, nunca teve e nunca terá, simplesmente porque não se conhece o Não-haver, a Não-Existência. Assim, Deus é INCONISCIENTE: dentro Dele, Ele pode saber de tudo (que ele pode ser), mas ele não pode saber do fora-de-Si (como um louco...). Onisciência ao contrário.

E, finalizando: se pensarmos o único desejo possível para Deus, o de justamente não sê-Lo, Ele não está em todo lugar. Ele não está Lá, bem onde ele não pode estar, onde ele não pode ser. Uma vez que é possível pensar a não existência de Deus (como acabo de fazê-lo), nesse lugar utópico, onde Deus não existiria, Deus não está: Deus não está Lá onde ele não pode ser. E esse é o único lugar em que Deus não está, por completo, de modo que, para a sua própria inexistência, Deus é ONIAUSENTE, quer dizer, completamente ausente da Sua inexistência, já que Ele só é onipresente na existência. Sua onipresença não engloba sua ausência, sua inexistência, apesar de ser possível pensá-lo.

Lacan dizia que Deus é inconsciente, defendendo que isso era a fórmula do ateísmo. Isso porque se Deus é inconsciente, logo ele deseja (o inconsciente sendo precisamente o Desejo); se ele deseja, logo algo lhe falta; se algo lhe falta, Deus não é onipotente (porque não pôde ter o que lhe falta), nem onisciente (pois o desejo não sabe o que quer), nem onipresente (não está onde o objeto de seu desejo  estaria, se houvesse). Não vejo porque isso levaria a um ateísmo, pelo contrário: esse é o verdadeiro lugar da ARRELIGIÂO. Arreligião porque o desejo humano é, como o desejo de Deus ('o desejo do homem é o desejo do Outro' - Lacan) onimpotente, inconisciente, oniausente, e, assim como Deus, ficamos querendo precisamente que haja o que não pode haver: a inexistência da existência (de Deus, já que Ele É a existência mesma). O desejo do homem é fundamentalmente arreligioso, porque ele coloca o desejo do próprio Deus. O prefixo 'a', indicativo de negação, significa que o desejo não coloca conteúdos dentro da existência tais como, Alá, o Céu, o Velho de Barba, e etc. Isso são as religiões. O desejo é arreligioso porque visa esse lugar onde não há,  não há nem mesmo Alá, ou Velhinho. Mas a postulação do desejo é atingir o que não existe, e isso é a religiosidade do Deusejo (porque Ele acha que existe a inexistência, ela é seu objetivo, seu alvo), mas sem conteudização religiosa, já que Ele precisamente não deseja conteúdos. Arreligião é o fundamento da estrutura mental dos homens, à imagem e semelhança do Deusejo do Outro.

Assim, diante da impossibilidade de haver Suicídio, podemos realmente dizer: HáDeus. Deus sempre dando adeus à possibilidade de suicidar-se, por mais que deseje - e é Seu Único Deusejo... De modo que, diante da impossibilidade de não haver Deus, Ele só faz o que é possível: ser Deus, ora pois-pois (como diz Fernando Pessoas)!

Ateu, quem, cara-pálida? Nem Deus é. O Deusejo sendo Arreligiosidade humana: crer na inexistência. Deus é imanente.

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