quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Whatever doesn't kill you makes you... str@nger


Toda vez que algo traumático acontece na vida de alguém, algo muda. Nitidamente acontece um 'antes' e um 'depois' de cada porrada do Haver, ou seja, o antes e o depois de se deparar com a infinitude da existência, chamada Real. Um trauma é um acontecimento de contingencia que te lembra (erinnern) que é impossível morrer, quer dizer, é impossível não haver a existência, e esse é O Desejo humano por excelência. Traumas são eventos na existência que te apontam o desejo de que exista a inexistência (ou que inexista a existência): "pára tudo que eu quero descer" significa, como diz Édipo: "mé funai" ("antes eu não existisse", "antes eu não houvesse"). Mas não há para onde 'descer' da existência, não é possível morrer. Quando um corpo para de funcionar, isso não significa a Morte, pois a Morte seria o gozo absoluto, seria viver a própria morte, ter o gozo dela, experienciá-la. Mas pense bem: se for possível viver a Morte, se houver a existência da Morte, se eu experimentá-la, ela não será a Morte (de acordo com a lógica do conceito freudiano de pulsão de morte), pois o desejo de morrer é o desejo de que nunca tivesse havido desejo em primeiro lugar. E isso é impossível, pois HÁ o desejo, e é desejo de que não tivesse havido desejo! Se houver, qualquer coisa, inclusive ele próprio, o desejo deseja que não haja e que não tenha havido. O que é impossível de saída, pois o desejo que não haja desejo HÁ. Não é possível morrer, ou seja, haver experiência de Morte, haver a satisfação total que só a Morte traria, já que nada na vida, na existência, (se) satisfaz por inteiro. O trauma é passar pela experiência de quase-Morte, digamos assim, quando se saca que não há Morte, e é isso que traumatiza: haver, sem escapatória, condenados a satisfações aleijadas, pois nenhuma prótese cura a existência: condenados à Vida - isso sem pecado original.

Felizmente - ou não - podemos esquecer que não podemos morrer e chafurdamos na existência, ou melhor, nas coisas da existência: escolhemos um modo particular para tentar morrer, produzimos um sintoma. Que nada mais é que um cover aleijado daquela satisfação total(mente) impossível: simulacro da inexistência, simulacro da Morte (que não há). Por isso Lacan disse: "a Morte entra no domínio da fé". O desejo é acreditar na Morte, e isso é inclusive arreligioso. Mas, retomando, quando estamos chafurdados num sintoma, num modo particular de haver, ficamos estagnados, seguindo programas que se instalaram em nossa linguagem e isso nos normaliza, nos dita as normas de haver, o que nos animaliza. É muito fácil esquecer que se é humano: mais de 90% do tempo somos animais ou robôs. Somos normais, obedecendo ordens, programações culturais, familiares, sociais, etc. Tudo isso são tentativas frustradas de morrer. Os programas, os sintomas, são modos particulares de chegar à Morte, mas por meio da Vida, da existência. Aí fica-se morrendo a vida inteira num programa falido, que só serve para atrapalhar que se morra em outras formas de vida: ele resiste. É nesse momento que se procura alguma coisa, uma auto-ajuda, um espírito ou um psicanalista. 

Desses três, o único que vai utilizar o trauma como cura (isso inclusive a ponto de usar a auto-ajuda ou o espírito para tal) é o analista. Isso porque sua postura deveria ser a de conduzir aquele rebanho de sintomas que as pessoas o entregam para o cume da relação entre haver e não haver, ou seja, entre a vida e a morte, a existência e a inexistência. É apenas passando por esse lugar que pode haver reprogramação de uma pessoa, o que pode deslocar seus sintomas, ou diluí-los na economia psíquica, que é o que se conceitua como 'cura' na psicanalise: é mais como uma procura por cura, e os arranjos emergentes dessa procura são as próprias curas para o incurável, que é haver, ainda. A cura é um processo, tal como a verdade, e não um resultado, uma configuração estática. Mas a pessoa só se dá conta de que ela pode ser qualquer coisa (ou seja, (pro)curar-se) quando ela se dá conta que não pode fazer nada quanto à possibilidade de realizar seu verdadeiro desejo: morrer. Já que não vai se conseguir o que se realmente queria, qualquer coisa serve pra satisfazer um pouquinho... é só o que dá pra fazer mesmo... Aí, fica-se mais disponível para diferentes formas de viver, ou seja, diferentes formas de morrer. De modo que, quando de algum modo, em alguma situação da existência, isso acontece, quer dizer, quando se toma consciência de que não é possível a Morte (e isso é traumático), tanto faz como se vive... nisso, o sintoma fica mais patético... aí percebe-se que não se precisa dele, pois não é o único, pode-se arrumar outro. É o que geralmente acontece. E então a pessoa se estranha, estranha as novas possibilidades de ser. Imaginem, ou lembrem, como é passar de heterossexual a homossexual. Estranho! Isso acontece porque a pessoa passou por esse Cais Absoluto, em que a consciência da inexistência da inexistência indiferencia as formas normalizadas de existir, de haver, e abre a possibilidade de que formas estranhas compareçam, novos sintomas, que nada mais são do que os novos modos de crer na Morte.

Enfim, tudo isso para falar do filme do Batman, o Cavaleiro das Trevas, que tem a atuação primorosa de Heath Ledger, aquele ator que viveu o Coringa e morreu de suicídio após vivê-lo. Em certo ponto do filme, uma pessoa pergunta ao Coringa: "what do you believe in?", se referindo aos sintomas que ele mesmo acreditava que deviam imperar: honra, moral, etc. Ao que o Joker responde: "I believe whatever doesn't kill you simply makes you... stranger"! Muito melhor do que Nietzsche. Para quem não entendeu, é o seguinte: a frase original é em alemão e é: "o que não te mata, te faz mais forte". Traduzida pro inglês, fica "whatever doesn't kill you makes you stronger". Ao trocar 'stronger' (mais forte) por 'stranger' (mais estranho), o Coringa ressalta o lugar para onde o analista conduz os sintomas que se lhe apresentam: para o lugar onde não se morre, e do qual só se pode retornar como um estranho às formas até então vigentes de viver. Sacar que é impossível morrer é o que te faz estranhar quaisquer modos de viver, e isso abre outras possibilidades de viver, quer dizer, de morrer. Apurando mais um pouco a frase, vemos que "whatever" é melhor descrito como "o que quer que", de modo que "o que quer que não te mata, te faz mais estranho". Isso se traduz em: o que quer que te lembre que é impossível morrer te faz mais estranho.

O analista, para haver, deve ser Coringa...

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