"I started a joke
Which started the whole world crying
But I didn't see
That the joke was on me, oh no
I started to cry
Which started the whole world laughing
Oh, if I'd only seen
That the joke was on me
I looked at the skies
Running my hands over my eyes
And I fell out of bed
Hurting my head from things that I'd said
Till I finally died
Which started the whole world living
Oh, if I'd only seen
That the joke was on me"
(Bee Gees, "I started a joke")
Recentemente, o filme "O Riso dos Outros" tem re-suscitado a questão sobre os limites - ou não - das piadas. Assim como acontece com programas de TV, livros, filmes, ideias e opiniões, sabemos que há piadas boas e piadas ruins. Mas o que as configuram como tais? Na verdade, para entender isso melhor, sem cair em senso comum (ou seja, tentando pensar em articulação), seria de bom tom perguntarmos: o que é uma piada? Como ela funciona?
Bom, começo a responder essas questões a partir dos depoimentos de quem entende do assunto e que figuram no filme: os próprios humoristas. Em seguida me debruçarei sobre o que eles disseram. Eis aqui o filme:
Logo no início, Mariana Ramelini diz: "Você ri de alguém que caiu na calçada. Isso é engraçado, porque é uma quebra de uma coisa que estava linear e de repente se quebrou. Quebras são engraçadas". Há também certo consenso entre os comediantes de que há uma matemática no humor: há timing, entonação, quer dizer, uma série de técnicas que cunham o cômico nas frases. Talvez podemos pensar que essa matemática do humor tenha a ver justamente com a consecução de uma quebra no seio do que se diz. Em seguida, há uma piada simplesmente sensacional feita por Rafinha Bastos, 'o infame': "fui no restaurante outro dia e pedi ao garçom: 'por favor, o sr. poderia embrulhar?', e o garçom pergunta: 'é pra viagem?', e eu disse :'não, é pra presente! Eu vou dar meio bife à parmegiana de Natal pra minha filha!'". Essa piada será nossa referência sobre a técnica, a lógica das piadas.
Outro ponto que quero destacar é uma fala de Danilo Gentili, que diz o seguinte: "O comediante tem que ser uma prostituta que... o que eu quero é riso. Eu me vendo por riso, se você rir, eu tô falando". Em seguida, o filme começa a abordar piadas de gordos, negros, caricaturas e etc. Um dos entrevistados chamou a isso de humor preconceituoso, humor rasteiro. E os comediantes são unânimes em afirmar que as piadas têm um alvo: seja ele o negro, o gordo, a mulher, o governo, alguém famoso, um objeto, a própria lógica, etc. André Dahmer chega a dizer que "o ataque às minorias é uma regra do humor", mostrando o que o humor tem de agressividade. Ele também defende que, já que o humor tem um alvo, uma vítima, que ele bata nas pessoas certas, as que merecem apanhar, pois negros e mulheres, por exemplo, já apanharam demais.
Aos poucos, o filme vai tornando mais nítida a oposição no campo do humor entre as piadas preconceituosas e as não. As primeiras são piadas que reforçam "visões tradicionais", como Laerte afirma. Já Dahmer sumariza essa oposição: "o humor, tendo a capacidade de perpetuar certos preconceitos, também tem a capacidade de quebrar com certos preconceitos, ou de ridicularizar certos preconceitos". Assim, piadas de gordo, de gays, etc. são consideradas por muitos como preconceituosas e que não deveriam ser contadas, enquanto outros comediantes dizem que não estão incitando preconceito, estão apensas contando piadas e fazendo as pessoas se divertirem. Mas ao mesmo tempo, os comediantes contra esse tipo de piada falam que não é que o tema seja intocável; apenas há que se saber fazer melhor a piada para que ela não recaia no tipo preconceituoso. Então um comediante faz um distinção entre as piadas que riem de algo ou alguém e as piadas que riem com algo ou alguém, dando o seguinte exemplo: Woody Allen tem um filme em que fala seus avós, que viviam uma situação precária na Polônia por serem judeus. Quando Hitler se apossou do país, eles disseram: "finalmente as coisas vão melhorar". Esse mesmo humorista diz que essa piada não ri dos judeus, de seu sofrimento, mas ri com eles da desgraça da vida. Outro entrevistado diz que "você tem que saber de que lado da piada você está".
Então o tema começa a se focar no politicamente correto/politicamente incorreto, e os comediantes (os que são considerados preconceituosos, politicamente incorretos), todos eles, falam em 'patrulha' do politicamente correto, que tenta cercear suas piadas, contra sua liberdade de expressão. Nesse ponto Idelber Avelar, professor de Literatura nos EUA, pondera que essa história de patrulhamento é usada por essas pessoas em relação a quem simplesmente tem opiniões diferentes das delas. Aí aparece uma piada: dois caras no palco, um preto, um claro. Após o segundo chamar o primeiro de negro, pessoas riram e o negro fala: "acho que cabe um processo aqui. Em quem falou e em quem riu. Porque agora não se pode chamar um coleguinha de negro, agora vocês são obrigados a me chamar de 'afro-descendente'. Essa lei mudou minha vida, eu conquistei respeito. Pois quando eu derrubo suco na mesa, agora me falam: 'só podia ser afro-descendente!'". Um dos comediantes que conta piadas preconceituosas diz a seguinte frase: "se você quer eliminar palavras preconceituosas, então que se elimine o preconceito, e não as palavras!". Em seguida, um comediante que não é a favor dessas piadas diz: "não é a palavra em si; é o que ela carrega. Agora, uma palavra que sempre foi usada pra desqualificar, e se você a usa, você sabe que essa palavra tá carregada". Jean Wyllys, deputado federal, diz que "os comediantes têm que ter a liberdade de fazer a piada, mas eles não podem achar que não podem ser contestados. Você tem todo direito de fazer sua piada, mas agora pague o preço de ser chamado de babaca, de racista, homofóbico; se defenda, se explique, refaça e reveja seu humor". Outra senhora diz que a piada não está acima do bem e do mal, ela pode ser criticada. Os humoristas muitas vezes são processados e perdem causas, sendo proibidos de falarem suas piadas; caso digam são multados por palavra que dizem. Os que contam piadas preconceituosas chamam isso de censura. Outros falam em limites da liberdade.
Laerte então entra com um termo precioso para nós aqui: "negociação da ofensa". Quando se conta uma piada é necessário ter para com o público uma certa negociação da ofensividade da piada, pois pode ter uma plateia que seja composta, digamos, de negros, a as piadas passarem e todos se divertirem; mas também é possível que as pessoas se sintam ofendidas. Isso depende de várias coisas, e Laerte diz que depende do momento histórico. "Em alguns momentos históricos, certas ofensas são, sim, passíveis de processo", diz.
A questão que surge então é: uma piada é só uma piada? Os considerados preconceituosos dizem que sim, e que não eles têm que ter responsabilidades, pois uma piada é só uma piada, pra fazer as pessoas rirem, sem levar a sério demais, etc. Já os politicamente corretos dizem que não, pois a piada tem um poder político muito grande e ajudam ou a solidificar tradições e preconceitos ou a criticá-los. Os primeiros tem o argumento de que "se vocês não rissem, eu não contava a piada", mostrando como é possível calá-los. Mas o povo ri... Como diz um dos comediantes: "quem se curva demais ao público fica de quatro pra ele". Dahmer: "é um humor imbecil porque dá mais audiência ou dá mais audiência porque é imbecil?"
Agora passo a meu comentário.
Começo tentando responder, de um ponto de vista psicanalítico, o que possa ser a piada, e o seu mecanismo. Freud dedicou um livro inteirinho à questão, para demonstrar que a piada tem um propósito inconsciente, ou seja, sempre implica outra coisa para além do que se diz. Isso é fácil de demonstrar com as piadas que vimos no filme. A piada do embrulho por exemplo. Como dizem os comediantes, qual é o alvo da piada? À primeira vista poderia-se falar que é o garçom, pois ele é o personagem de quem o piadista fala. No entanto, psicanaliticamente, temos que considerar a palavra 'embrulho' como o que foi deveras atingido no texto da piada. Pois se quando o cliente pede que se embrulhe, ele significa que é pra viagem, devido ao contexto em que a fala se encontra: dentro do restaurante, após uma refeição em que há sobra de comida. O termo 'embrulho' é sintomatizado (ou seja, 'carregado') como 'embrulho pra viagem'; fica meio que difícil que se use o termo embrulho para designar outra coisa qualquer que não seja 'pra viagem'. Mas quando o garçom comete uma redundância nesse contexto ('embrulhar pra viagem?'), o piadista se aproveita desa redundância para então subverter o contexto da palavra 'embrulhar' para mostrar ao garçom sua redundância - que não é seu erro, como muitos diriam, mas apenas o modo como ele comparece. Tal como Ramelini diz que a piada promove uma quebra... do sentido contextual daquele alvo. A piada serve para que o garçom se dê conta do modo como ele comparece e possa se refletir nisso. Apesar de que pode também servir para chamar o garçom de burro, dependendo do modo como a piada é dita, como tom de voz, melodia da voz e etc. Mas o mecanismo da piada é o de, a partir de uma indiferenciação de seu alvo (no caso a palavra 'embrulhar' é esvaziada de seu contexto 'para viagem', e daí pode seguir várias direções semânticas, mas nesse momento de esvaziamento ela está num limbo entre significações e isso é a indiferença: lugar das possibilidades), surgir com uma diferença (o outro contexto, 'pra presente'). Esse é o mecanismo fundamental da mente das pessoas: para qualquer opinião, neurose, crença, coisa que compareça na mente, é possível esvaziar seu conteúdo para dar lugar à possibilidade de surgimento de outro. Esse é o mecanismo central da piada, a que os comediantes se referem como matemática do humor. Essa lógica fundamenta tanto o humor politicamente correto (que chamaremos de bom humor) e o incorreto (mau humor). Se algum humor é bom ou mal, depende apenas do modo com que se lida com o mecanismo neutro da piada.
De modo que, mesmo sendo neutro o mecanismo da piada, a ampliação de possibilidades de sentido que ela coloca pode ser contextualizada em uma restrição das possibilidades semânticas quando ela se presta a repetir padrões estabelecidos socialmente, por exemplo. Isso acontece principalmente quando as piadas ficam restritas a determinados alvos já consagrados, como negros, gays, etc. Ou seja, quando o alvo não muda. A chamada piada preconceituosa é simplesmente a excessiva sintomatização dos alvos das piadas, ou seja, sua exaustiva repetição. Uma piada, em seu mecanismo fundamental, traz a diferença para o seio da fala. Piadas sobre negros, gays, têm sido excessivamente contadas e perdem seu caráter de inovação, de diferenciação, pois essas piadas apenas fazem coisas diferentes dentro de uma lógica preconceituosa, e não incluem o próprio preconceito como piada, ou seja, não o tornam passível de subversão. Então, isso é o que vai solidificando o CONCEITO (nada de pré - é conceito, decantado e instalado socialmente, como o racismo): apenas inovar nas maneiras de manter os negros ou os gays na pior, mas não fazer referência ao próprio ato de colocar o negro na pior. Um exemplo de bom humor (aquele que subverte e critica preconceitos) seria "por quê macho só faz piada de viado? Pra rir de si mesmo...". Agora a mesma piada, com mau humor: "por quê macho só faz piada de viado? Porque bater em gay é contra a lei...". Assim, a oposição bom humor x mau humor é o que um dos comediantes destacou brilhantemente com a oposição "rir de" (mau humor) x "rir com" (bom humor). Rir de alguém é usar a indiscriminação do mecanismo da piada (pois a piada não se importa se está fazendo bom ou mau humor) para reforçar discriminações, ou seja, diferenças dos contextos. Por exemplo, a piada do embrulho, dependendo do modo que for contada, serve pre chamar o garçom de redundante, que facilmente escorrega pra burro, analfabeto, etc., o que acaba discriminando-o: nós , que contamos e rimos da piada, não somos burros, como ele. Mas se contada de outra forma, a piada pode simplesmente ignorar o fato de que se trata de um garçom e se focalizar mais na lógica do que foi dito, sem discriminar quem o disse. Aí a piada indiferencia quem disse a redundância, para se ocupar apenas da redundância no seu substrato, o que significa rir com o próprio garçom, e não rir dele.
O problema nisso é saber se uma piada vai rir de ou rir com alguém. Isso é calculável, mas não completamente de antemão: as possibilidades de reação do momento histórico, do dia, da plateia, são demais para um humorista saber completamente o que está fazendo, e nisso corre o risco supremo da piada: o apedrejamento. Ou seja, é só depois de a piada ser contada que se saberá se é uma piada que ri com ou ri de alguém. Isso porque, como brilhantemente pontuou Laerte é necessário, em cada vez que se conta uma piada, negociar a ofensa com seu público. Eis o segredo de um Humorista (com maiúscula): sabe fazer passar aonde quer que vá tanto o bom quanto o mau humor. E não se restringir a apenas ao mau humor, principalmente: indiferenciar as piadas de bom ou mau humor, todas são válidas. O preconceito com o qual as atuais piadas de negros, índios, etc estão carregados se deve ao fato de que essas são a grande maioria das piadas que se contam. É necessário fazer piadas com mais coisas, para que aí as piadas de negros e gay sejam apenas mais uma em um caldeirão onde circulam piadas sobre os próprios preconceituosos também. Isso dilui o peso de se contar uma piada sobre negros que, afinal de contas, também têm o direito de serem o alvo da piada, tanto quanto o branco... Assim, essa negociação da ofensa tem que ser o mais ampla possível, para que qualquer coisa se torne risível, e não que haja um movimento de impedimento da circulação das expressões, da circulação do que é risível. Pois como disse um dos comediantes que não gosta de piadas sobre homossexuais, (porque não lhe parece ter graça a preferência sexual de alguém): "que então ria de um filme pornô"! E porquê não? Quem sabe daqui a alguns séculos ou milênios o sexo não vira um motivo de riso entre os seres humanos... Ou quem sabe nem precisaremos de piadas mais, não precisaremos de rir mais...
Então, ao invés de se propor que calem as piadas de mau humor, penso que mais importante é incluir mais piadas de bom humor e fazer páreo contra aquelas. Ambas as piadas fazem rir, e com um bom negociante de ofensas (que é o nome do humorista, do bufão), tudo se torna possível de risada... sem preconceito... Por exemplo, a piada que Pedro Caruso conta: "Pessoas que tentam te convencer de que você é viado. Vou explicar: eu gosto de caipirinha de morango. Aí, toda vez que saio com amigos meus e peço uma eles falam: 'caipirinha de morango? seu viado!' Isso pra mim é claramente fruto de um pensamento machista e preconceituoso. Eu duvido que a mesma coisa aconteceria se fossem dois gays, duvido que um gay iria encher o saco do outro por conta da bebida que ele bebe. Tipo 'caipirinha de limão? Seu machão!!! Aiaiai, só falta chupar buceta agora, né?'". Me pergunto o seguinte: porquê um gay não faria uma piada 'gayista'? Gays não fazem ou não podem fazer esse tipo de piada? Pra mim, essa piada é muito interessante porque, ao mesmo tempo em que critica o machismo (só machos fazem piadas sexistas) restringe os gays no seu senso de humor (contar piadas sexistas é só coisa de macho mesmo? Gay não pode?). Pois eu acho que os gays tinham, sim, que fazer mais piadas desse tipo, mais mau humor para com quem faz mau humor. Isso é responder às piadas machistas à altura delas, ou seja, se utilizando da mesma lógica machista de contar piadas sexistas, mas não em relação aos gays (que é o sentido tradicional), e sim com os próprios machistas (que é a 'quebra' a que Rimelini se refere). E é até por isso que essa piada é engraçada e de bom humor: subverte o que se espera dos gays e no entanto abre mais possibilidades comportamentais para eles, pois gays podem, sim, contar piadas gayistas, além de criticar o machismo. Essa piada é meio dúbia entre perpetuar um preconceito (de que gays não contam piadas sexistas) e ridicularizar outro (machos que contam piadas sexistas). Sempre tentando negociar as ofensas, mas já sabendo do risco que se corre de ser processado, xingado etc. Talvez se as piadas de bom humor fossem tão populares quanto as de mau humor, o peso opressor que elas contém quanto ao preconceito seria diluído e elas pudessem circular livremente, pois assim como disse um dos comediantes "se você quer eliminar palavras preconceituosas, então que se elimine o preconceito, e não as palavras!". Isso é claro na piada do afro-descendente: recalque uma palavra pesada e a substituta mantém o lastro, quer dizer: troquei seis por meia dúzia. Ou seja, não elimine as piadas, elimine o preconceito e tudo será risível, indiscriminadamente: sem carga discriminatória excessiva e exclusiva sobre os velhos "cachorros mortos" (como disse um dos entrevistados) que sempre apanham das piadas: negros, índios, oprimidos, etc. Se se distribuíssem mais os alvos das ofensas humorísticas, elas seriam muito mais negociáveis, porque doeriam menos para cada alvo (tipo uma 'distribuição de renda' dos alvos)... poderiam inclusive fazer cócegas...
Que riamos do máximo possível, com o máximo possível. Rir de tudo rindo com todos: indiferentemente - pois não somos todos iguais, mas não é necessário nos discriminarmos por isso. Como diz o judeu da Escolinha do Professor Raimundo: "fazemos qualquer negócio". Que negócio? A política [cf. posts abaixo sobre o tema, como "Brasil, Um País de Quem?"] do riso, ou seja, a negociação das ofensas. Isso porque uma piada não é só uma piada:
'uma piada é uma piada é uma piada'... (Como quem lê Gertrude Stein)
PS: A palavra 'alvo' significa branco também...
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