É algo realmente interessante: Apareceu uma foto no Facebook, postada pela revista australiana Zoo Weekly. Esta aqui:
Embaixo da imagem, a seguinte pergunta, dirigida aos homens: 'qual das partes você prefere?'. Obviamente, as respostas foram as mais hilárias: "a da direita, pois dois buracos é melhor do que um', disse alguém. Outro: 'a da esquerda, pois ainda poderia me fazer um sanduíche', e etc. Aí, os fiscais da propaganda exigiram à justiça australiana que removesse a imagem do Facebook, sob a alegação de que é inaceitável para as mulheres serem tratadas como objeto. E assim foi feito.
Bom, primeiro digo que para além do corpo em si, a oposição que a foto comporta é entre a parte da mulher que fala e a parte que interessa: o sexo dela. É a famosa oposição corpo/mente. Claro que as respostas masculinas, como exemplificado acima, tendem para a direita. Não interessam as chatices femininas, não interessa o que ela fala, o negócio é bu@#$#: essa foi a mensagem dos homens. Daí vem o alegado sexismo, machismo, que a fiscalização denunciou.
Agora, vejamos o que os homens querem (pra contrariar Freud um pouquinho). O fato de a maioria esmagadora deles escolherem o corpo da direita mostram que eles querem uma vagina ao invés de uma boca. Quer dizer, os homens querem o corpo da mulher e não o discurso, a fala chata dela.
Mas sabemos desde a psicanálise que sexo não é diferença anatômica, corporal, física. Sexo é uma relação da linguagem; uma pessoa só se constitui como homem ou mulher na e pela linguagem. Ser 'homem' e ser 'mulher' (inclusive esses nomes para os diferentes sexos estão muito estupidificados, sintomatizados), são modos lógicos de se situar na linguagem. Nada mais. Um corpo macho ou fêmeo pode pressionar - e o faz - para o lado masculino ou feminino. Mas o corpo, quando empurra, empurra para uma posição lógica na linguagem. É só ver o que essa foto está dando a chance de percebermos: os homens escolhem apenas o corpo fêmeo, mas não escolhem o que determina a feminilidade daquele corpo fêmeo: a boca do corpo, de onde ele fala, de onde ele pode ser homem ou mulher. Porque para esses homens, que tratam a mulher como objeto, só interessa o corpo, e não a mulher. Papo, conversa?Só de homem... É igual eu vi numa propaganda da Kaiser, chamada "mulheres 'diferentes'": as mulheres gostosas falando o que os homens falam: tipo fazendo cantadas que os homens fazem e convidando pra assistir futebol e tal. Essa propaganda mostra precisamente a homossexualidade desses caras que tratam mulheres como objeto: o que eles gostariam mesmo é de foder um homem num corpo de mulher. É isso o machismo.
Mas o que me espanta é a hipocrisia geral da galera. O Facebook vai, recebe uma reclamação de machismo e tira a foto do ar. Tá. Isso porque são homens tratando a mulher como objeto. Mas pouco é falado sobre como que as próprias mulheres são machistas e tratam a si mesmas como objeto. É mulher-pêra, mulher-melancia, mulher-morango... Colocam dois litros de silicone na bunda, no peito (e tem uma brasileira que é caso famoso no mundo, quase morreu de OVERDOSE DE SILICONE...), no lábio, na vagina, e onde quer que caiba. Fora as joias de marca, brincos enormes, colares espalhafatosos, e todos os objetos que elas vestem (ou melhor, incorporam) para serem mais mulher que as outras... Depois não querem ser tratadas como objeto: a bunda siliconada, o rosto botocado, o peito turbinado, etc... As mulheres machistas tentam ser mulheres pela via mesma desses objetos que (el)as consomem: maquiagem, botox, silicone, etc. Chamo-as machistas porque elas se tornam o que os homens querem: bunda, peito e partes. Aí, a mulher posta um foto no Facebook toda-toda, como se fosse a parte direita daquela foto australiana, nitidamente se objetalizando, e é tranquilo. Aliás, não é só no Facebook não... As ídolas sexuais brasileiras são assim, e ninguém as acusa de sexismo, objetalização, machismo, de contribuírem para a lógica machista... Não, elas são glamurosas, divas, etc. Parece que as mulheres se permitem se tratar como objeto, mas os homens não o podem. Muitas vezes, as mulheres são mais machistas que os homens... É tipo a história da manicure negra que não fazia unha de preto (http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/12/manicure-negra-se-orgulha-de-ser-racista-nao-faco-unha-de-preto.html).
Então, sexismo não é um preconceito entre os diferentes sexos anatômicos, mas sim preconceito entre as sexualidades do discurso. E chamar essas sexualidades discursivas de 'homem' e 'mulher' é a piada maior... e o pior é que as pessoas acreditam nisso, pois 'homem' é quem tem pinto e gosta de futebol e 'mulher' é quem não tem e gosta de sapato. Podiam se chamar X e Y que dava na mesma... ou 0 e 1. É só observar em vários casais, anatomicamente homossexuais, que a mesma historinha caseira de papai-e-mamãe se repete: um é o 'homem' da relação e o outro é a 'mulher'. São heterossexuais que gostam do mesmo tipo de corpo (macho pros baitolas e fêmeo pras lésbicas), tal como machistas em geral são homossexuais.
Repito, o sexo de alguém não é subordinado a nenhuma configuração anatômica com o qual se nasce. E também não é, como diz o deputado militante do LGBT, Jean Wyllys, uma opção discursiva com a qual se nasce - identificado com a própria homossexualidade que ele é. Não, as pessoas se constituem sexualmente, e podem mudar de X a Y na medida de seu (im)possível pessoal. Homens e mulheres são os sintomas da sexualidade humana, a qual está para além deles: o que as pessoas querem mesmo é foder com a Morte - vide Pulsão de Morte em Freud: essa é que é a essência do Tesão humano.
Comercial mostrando o que é o homem:
Comercial mostrando o que é a mulher:
Nenhum comentário:
Postar um comentário