"Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer"
(Caetano Veloso, Panis et Circences)
("Queda D'Água", M.C. Escher)
Quero saber uma coisa: é possível haver experiência de nascimento e de morte para a espécie dita humana?
Perguntei a alguém (de 14 anos, diga-se de passagem) esses dias qual era a sua lembrança mais remota. Ela me respondeu que era ela brincando com um cachorro. Daí fiz a pergunta: você se lembra do seu nascimento? Obviamente, ela respondeu que não. Óbvio, porque não temos nem estrutura cerebral madura pra discernir coisas, tipo frio da fome, luz do toque, etc. E, segundo, e fundamental: há nascimento da existência?
Me explico: não é possível ter uma lembrança de seu nascimento porque não há como discernir a Existência (a partir do nascimento) da Inexistência (que é o que haveria antes do nascimento, ou seja, da existência enquanto tal). Nascer é a transição entre o antes e o depois da sua existência. Mas não é possível separar a Existência da sua própria existência: só existem coisas porque, antes de tudo, eu existe, eu é que experimento a existência; sem mim, não há existência. Dizer que 'há', é, antes de tudo, dizer que 'hei', pois, na verdade, não há distinção entre 'hei' e 'há'.
Por isso, como é possível existir algum momento entre a existência e a não existência? Dando um passo atrás, pergunto: como é possível sequer existir a inexistência? Isso foi o que Heidegger se perguntou quando disse: "por quê há o Ser e não antes o Nada?". Ora, mas isso é algo extremamente doentio, talvez a única Doença verdadeira do homem (grande triunfo, por sinal): ter feito essa pergunta. Pois é o seguinte: existir a não existência não é um paradoxo qualquer: ou a existência existe ou ela não existe! Ponto! Agora, se existir, o que quer que seja, é existência, e não inexistência! Isso é claro como águia. Isso quer dizer: a Existência não tem simétrico. Não existe a Inexistência, ou, em termos mais precisos, não há não haver. A experiência humana por excelência é precisamente a de Existir, de estar condenado a tal. Penso que existo: se penso, existe alguma coisa, e essa coisa que existe é o meu pensamento, que pensa que existe! É a existência desse pensamento que sustenta a Existência em si. Então é: penso, logo existe.
Ora, se a Existência não tem simétrico, ela não surgiu do "nada", quer dizer, a Existência não 'passou a existir' a partir da Inexistência (que é o que poderia existir antes da Existência), isso porque não existe a Inexistência, de modo que a única coisa que existe e nunca deixou de existir é a própria Existência. Não há nascimento da Existência, pois ela é a única coisa possível de existir. Não houve momento em que a Existência não existiu. E, se como muitos físicos acreditam hoje, a minha existência é condição concomitante de toda e qualquer Existência, é com o meu nascimento, enquanto Bernardo, ou seja, um conteúdo da Existência, que a própria Existência se constitui (inclusive, e ao mesmo tempo, para mim). Isso é o que o físico John Wheeler chamou de 'princípio antrópico participante', que supõe que "observadores são necessários para trazer o Universo ao Ser". Mas, ora, não é possível haver nascimento, pois não há passagem da Inexistência à Existência: sempre houve, sempre existiu - o que quer que seja. Por isso não é possível lembrar do seu próprio nascimento, porque simplesmente você não nasceu: você já estava aí quando do momento da sua 'primeira' lembrança. Quem nasceu foi o seu corpo. Pois não há lembrança do que havia antes do (seu) nascimento; nascer não é sair da barriga da mãe. É 'passar a existir'. Mas isso não existe: não existe Inexistência, a partir da qual surgiu a Existência. Você sempre existiu. Não há época da Existência em que eu não tenha existido, porque a Existência existe através da minha própria existência, ou seja, elas são a mesma coisa. Se ninguém tivesse lhe contado que você nasceu, e daquela mulher, se você nunca tivesse visto ninguém ser parido (deu pra entender?), você não ia achar que tinha 'passado a existir', ou seja, que você tinha nascido. Ia simplesmente entender que você existe, e não não existe, ou seja, que as coisas, inclusive eu mesmo, existem, e não o contrário. Você não se ocuparia de ter nascido, como diz a letra.
Por isso, o nascimento existencial não é possível. É até engraçado, porque toda a discussão que gira em torno do aborto, por exemplo, é pra saber onde se dá o nascimento existencial de alguém... Mas só esse próprio alguém é que saberia quando ele não nasceu... E essa é a experiência mais subjetiva possível, sendo assim a experiência mais objetiva possível...
Nascer seria viver a transição entre a sua inexistência e a sua existência. Eu não posso viver o momento entre antes e depois de eu existir, porque simplesmente (eu) não existia antes de (eu) existir, então não há passagem entre essas duas coisas simplesmente porque não há duas coisas aí: há apenas a (minha) existência, sem antes. Por isso digo: só os outros nascem. Eu tenho a experiência do nascimento dos outros, mas não do meu próprio, isso me é vedado. E o dito nascimento dos outros são só as modificações da (minha) existência: as coisas mudam, e as mudanças entre seus antes e seus depois são os seus nascimentos, inclusive dentro da (minha) própria existência enquanto conteúdo, mas a Existência nunca muda: ela sempre existe, existiu e existirá.
Mas aí pode-se pensar: e se de repente, algum dia, parar de existir? É possível? Duas possibilidades: se isso acontecer, você está falando que a não existência existirá? Ou que a não existência não existirá? Se optar pela primeira, você diz que a não existência poderá existir, logo ela não será não existência: ela ainda será Existência (mesmo que seja da não existência). Se optar pela segunda, você diz que a não existência não poderá existir, logo só existirá a existência (como já é desde sempre). Ou seja, não é possível escapar da existência. Mas isso é tudo o que nós queremos: acabar com essa encheção de saco de existir. Pra que se dar ao trabalho? Freud chamou isso de Pulsão de Morte: tipo Macunaíma falava: "Ai, que preguiça!" de viver, de existir, que é a Preguiça fundamental do ser humano: quero passar a não haver, a não existir. Morrer equivale a passar à inexistência. Mas como ela não existe, é impossível morrer. Se quando seu corpo morrer e você for pro inferno, você não terá morrido: terá apenas ido viver no inferno. Outro tipo de vida, mas isso não é morrer: morrer é morrer mesmo, nada mais haverá e nem nunca terá havido. Mas, como há (e essa é a única experiência objetiva, quer dizer, subjetiva, que há), só há a existência, só há o Haver. Não há Não-Haver. Por isso, a 'reencarnação' tem que existir: se eu, Bernardo, morrer, acho que simplesmente a existência vai passar a se manifestar em um outro Fulano qualquer, seja na Índia, ou no México, ou em outro planeta, sei lá. Mas a existência não morrerá com a minha "morte": ela continuará em 'outra' pessoa, que já estará 'nascida' existencialmente, da mesma forma que eu já estava aí, na existência, quando da minha primeira memória. De modo que é como se a própria existência se (re)encarnasse a cada vida que 'nasce'. De modo que quem morre são os outros, como sabiamente escreveu em sua lápide o Marcel Duchamp.
Então, apenas porque o Haver há e o Não-Haver não há, não existem nem Gênese (enquanto inexistência que passa a existência de repente), nem Apocalipse (como existência que passa a inexistência de repente): não há início nem fim desse nosso Morto Perpétuo... ou Vivo Perpétuo, dá na mesma...
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