segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Políticas do Ser e políticas do Haver

“Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser”

(Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, #63)

Haver. Ser. Universo. Via Láctea. Sistema Solar. Terra. América. Do Sul. Brasil. Belo Horizonte. Baixo Anchieta. Pium-í. 512. Casa C. 

Fevereiro 2014.

Vivemos tempos difíceis do ponto de vista do mal-estar na civilização, como Freud colocava. Esse mal-estar é caracterizado pelos tipos de relações que se estabelecem entre as pessoas. Vemos no Brasil uma crescente cisão social se consolidando, o que pode levar a uma guerra civil num sentido mais específico do termo – pois já há uma guerra civil não declarada. Especialmente após as manifestações de junho de 2013, todos os segmentos sociais estão se sentindo no direito de reivindicar algo – sejam eles da chamada ‘direita’ (vulgos ‘coxinhas’, ‘reaças’, ‘fascistoides’, etc.), sejam eles da chamada ‘esquerda’ (vulgos ‘comunistas’, ‘petralhas’, etc.). Não direi todos, mas grande parte dos debates sobre o acirramento do conflito social que tem se estabelecido é polarizado entre essas duas (o)posições políticas – ou seria melhor dizer éticas?

Nunca fui muito chegado a oposições: o bem contra o mal, o belo contra o feio, o certo contra o errado, a esquerda contra a direita, etc. Isso porque quando se defende a oposição, sempre se está em um dos lados dela: ‘isso é bom’ (porque sei o que é o bem), ‘isso é belo’ (porque aquilo é feio), etc. Ora, me parece óbvio que o significado de cada uma dessas palavras – o ‘bem’, o ‘belo’, o ‘certo’ – não é universal, variando no tempo e no espaço (social). Então, hoje posso estar do lado do ‘bem’, mas daqui a algum tempo posso perfeitamente perceber que o que eu considerava ‘bem’ é, retrospectivamente, ‘mal’. E me surpreendo enquanto dividido entre as duas (o)posições: é o lusco-fusco da consciência. O filósofo Heidegger, alemão, aderiu à ideologia nazista para depois perceber a cagada que era fazê-lo, se arrependendo disso profundamente. Por muito tempo ficou estigmatizado como um cara ‘do mal’, até recuperar alguma credibilidade. Vemos como é fácil uma posição ‘do bem’, claramente oposta ao ‘mal’, se tornar, na verdade, o próprio ‘mal’. Fernando Pessoa é límpido nesse aspecto: “não sei o que é o bem, nem sei se o faço quando julgo que o faço” (Livro do Desassossego, #208). Consolidar-se numa das (o)posições e combater a Outra está no coração daquilo que Freud chamou de ‘narcisismo das pequenas diferenças’, na qual tomamos como bode expiatório de nossos grupos (ou de nosso próprio ‘eu’) o outro no que ele tem de mais íntimo conosco. Um grande exemplo disso é a disputa de arianos vs. judeus. Hitler disse uma frase que mostra nitidamente o que é esse narcisismo: “O judeu habita em nós. Porém é mais fácil combate-lo na sua forma corporal do que sob a forma de um demônio invisível” (http://www.scielo.br/pdf/pc/v19n1/05.pdf). É precisamente o demônio invisível que habita em nós o nosso próprio Outro, que sempre desconhecemos tão bem, presos que estamos na (o)posição com a qual nos identificamos, sem perceber que, mais cedo ou mais tarde, seremos (se já não somos) o Outro. E esse movimento entre uma posição e outra é feito na penumbra...

Assim, o que me incomoda na crescente cisão sócio-política entre a esquerda e a direita no Brasil é a identificação cada vez mais decantada sobre o que é ser de ‘esquerda’ e o que é ser de ‘direita’. Ora, vejamos o governo Dilma, do PT, que é praticamente “o” nome tradicional da esquerda nesse país – vide a fundação do partido com Lula, proletário, etc. Logo que assumiu, o governo Dilma (o do Lula nem tanto, eu diria) sistematicamente tem cumprido uma agenda tradicionalmente ligada à direita: sempre beneficiando as grandes empresas que exploram, segundo os descaminhos do capitalismo, os próprios trabalhadores que fundaram o partido, como FIFA, Belo Sun, EBX, Odebrecht, etc.; fazendo alianças com partidos de direita para se manter no poder ao preço da decadência de sua ideologia original esquerdista (vide Lula defendendo Sarney...); promovendo remoções populacionais higienistas e ‘progressistas’ (pois índios e pobres são pessoas ‘atrasadas’); o descaso com questões ambientais e de direitos humanos em prol de empresários ruralistas, e várias outras posturas que sempre foram consideradas de direita. Com uma ex-querda destas, ninguém precisa de direita. Isso já mostra o reviramento que houve na posição política do PT e da esquerda desde que chegou ao poder.

Não apenas no plano político há uma ‘esquerda’ e uma ‘direita’ que frequentemente invertem papeis (geralmente é a esquerda se ‘direitificando’, não o contrário), mas no plano de cada um de nós, seres ditos humanos, há uma cisão (o termo freudiano é Spaltung) entre (o)posições. Chama-se mecanismo mental, vulgo Inconsciente. O que quero dizer é que o próprio mecanismo mental dos seres humanos é fundado em uma divisão entre (o)posições que se reviram uma na outra com extrema facilidade (apesar das inércias estacionárias) – como vemos acontecer todos os dias na vida: é o judeu que mora em Hitler, é a direita que mora na esquerda, o mal que mora no bem, o ódio que mora no amor. E vice-versa. Por isso é que não gosto muito das oposições, pois elas sempre fazem o desfavor de exacerbar um dos lados em detrimento do outro. Prefiro quando elas transitam entre si, mais indiferentemente.

Mas também sei que tentar escapar das oposições é um sonho que não se torna realidade. Jamais. Isso porque tudo o que existe, existe como sendo alguma coisa e não outra, logo participando do jogo de oposição: sou Bernardo, e não outra pessoa (qualquer que seja). A gravidade cai pra baixo, e não pra cima; estou em Belo Horizonte, e não em outro lugar; o azul não é vermelho, o dia não é a noite, etc. As realidades se constituem como reificação de um dos polos da oposição – notem que não falo do real, mas sim das realidades; o real é outra coisa. Então não há escapatória das realidades, elas se impõem: o fundamento da própria existência é oposicional, modal. Logo, há que se fazer escolhas – não há escolha quanto a isso. De modo que ou se é de ‘esquerda’, ou se é de ‘direita’.

No senso comum que vige em nossas redes sociais de cada dia, me alinho com o que a geral chama de ‘esquerda’. Mas se isso incluir o atual PT, não me considero isso mais. Além disso, outras posturas de pessoas de ‘esquerda’ me desagradam; a arrogância de acharem que eles, sim, sabem o que é o Bem, pois os direitistas são uns trogloditas, uns ‘coxinhas’, uns babacas, desconhecendo a própria Spaltung que os constituem: há o ‘coxinha’ dentro de cada um de nós; vejo mais uma vez o narcisismo das pequenas diferenças aí. Os direitistas fazem a mesmíssima coisa, só que com as palavras ‘comunistas’, ‘petralhas’, e tal. Todos se xingando por pertencerem a grupos diferentes, mas no coração de cada um o Outro está lá, latente. E é difícil se alinhar com o que os esquerdistas e o s direitistas dizem ser a esquerda e a direita porque até a diferença entre essas duas (o)posições políticas varia se você perguntar pra um ‘esquerdista’ e para um ‘direitista’

É claro que, na hora de um embate do qual não se pode ficar ‘em cima do muro’ - como uma guerra civil, por exemplo - há que se tomar partido. Aliás, partido é o próprio nome de uma realidade; sempre parciária, sempre hemiplégica. Então quero aqui tomar o meu partido, não antes sem definir, para meu próprio uso na hora de tomar algum, o que sejam ‘esquerda’ e ‘direita’, com o mínimo de ambiguidade possível, para manter alguma coerência comigo mesmo.

Para tal, parto do pensamento de Deleuze e o adapto a uns esquemas que já tenho em mente. Não sou leitor de Deleuze, mas conheço algumas coisas de sua obra. Ele tem uma entrevista em que faz um abecedário de definições de termos filosóficos, políticos, etc. Perguntaram a ele: “’E’, de esquerda; o que é ser de esquerda?” Primeiramente, ele responde que não há governo de esquerda – que o diga o PT! “Não é que não hajam diferenças entre os governos. O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências de esquerda. Mas não existe governo de esquerda porque a esquerda nada tem a ver com governo”. Como podemos entender essa última frase? Eduardo Viveiros de Castro dá uma ideia a partir de uma própria cisão que há na esquerda, entre ‘tradicional’ e ‘libertária’: a primeira, “com sua incapacidade de escapar de uma visão produtivista da relação entre homem e natureza, de sua fascinação não dita pela força disciplinar do Estado, pela organização política sob a forma do partido e pela sua crença na história como realização progressiva que marca com o selo do arcaísmo aquilo que sempre esteve fora do processo de modernização capitalista. Contra isso, apareceria uma ‘esquerda libertária’, à sua maneira tributária dos ideais antitotalitários de maio de 1968, ciosa da afirmação das diferenças e desconfiada dos arranjos institucionais que a esquerda tradicional procuraria preservar”. A ‘esquerda’ tradicional é o que Deleuze chama de ‘governo favorável a exigências de esquerda’ (aqui cabe tranquilamente o PT), enquanto a esquerda esquerda mesmo seria a ‘libertária’ (existe algum partido que se encaixe aqui?).

Mas, levando a discussão para termos mais abstratos e formais, Deleuze precisa melhor do que se trata: é uma questão de percepção. Ele não fará a oposição em termos de esquerda e direita, mas de esquerda e não-esquerda. “Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo”. É um pensamento que, de diferença em diferença, de particularidade em particularidade (começando com a maior delas, o próprio ‘eu'), tece uma malha social ‘universalizante’: forma um ‘todo’ a partir das partes, sem abrir mão delas. Mas, como sabemos, a soma das partes não é o todo: não existe síntese, por mais que Hegel sonhe. Nada de harmonia aí. O importante é notar que parte-se da diferença particular para atingir um suposto universal. Parte-se do ‘eu’ para o ‘nós’: o 'nós' é fundamentado no 'eu'. É como pensar que os problemas da China estão tão longe quanto o país está do Brasil – isso nada tem a ver conosco, já temos os nossos próprios problemas. Essa é a raiz do segregacionismo, do narcisismo das pequenas diferenças – o termo é preciso porque mostra que fica-se idolatrando a própria diferença, identificado a ela, recusando-se a ser outro, a haver outro. Como no esforço de Hitler para não deixar o judeu dentro dele sair do armário - ele se esforçava para olhar no espelho e ver apenas o Hitler, e não o judeu. É a posição geradora de nacionalismos, de ufanismos, de 'dois pesos-duas medidas', do culto à ordem-tal-como-eu-a-entendo - é só ver como a ditadura se instalou no Brasil para restaurar a ordem e o progresso da nação...

Enquanto a percepção dos esquerdistas seria o contrário: primeiro, eles “percebem o contorno. Começam pelo mundo, depois o continente – europeu, por exemplo –, depois a França, até chegarmos à rua Bizerte, e a mim. (...) Primeiro, percebe-se o horizonte. (...) Ser de esquerda é começar pela ponta”, e, adaptando o que ele disse, ser de esquerda é perceber que os problemas da China estão mais próximos de nós do que os problemas do nosso bairro – talvez os problemas da China estejam causando os do nosso bairro, e vice-versa. Neste tipo de percepção, não se parte das diferenças individuais de cada logradouro ou de cada indivíduo, cada parte – aliás, o indivíduo não existe, visto que o ser humano é dividido ‘por natureza’ (ou ‘por cultura’, como queiram) – para se chegar a um impossível Todo enquanto soma delas. Parte-se de uma indiferença (no sentido de que não interessa qual é a sua situação em particular, não interessa qual é a sua especificidade, a sua diferença, o seu endereço) que está no ‘contorno’, no ‘mundo’, ou seja, é um para-todos em que não há espaço para privilégios particulares: em suma, o que Parmênides chamava de Um. Um-niversal, eu diria. Quer dizer, parte-se do Todo (o Um) para abordagem da interdependência e indistinção entre as oposições, as partes. Em linguagem utópica poderia-se dizer: como resolver os problemas do mundo para que eu consiga resolver os meus? – já que não há fronteira entre os meus problemas e os do mundo porque sou parte desse mundo e esse mundo é parte de mim. Parte-se do ‘nós’, quer dizer, da indiferença quanto às particularidades, para o ‘eu’, que já não pode ser mais considerado como sozinho: ‘eu’ é que passa pelo ‘nós’. O Um como regente dos processos do Múltiplo, e não o contrário. O Um não como síntese entre oposições, isso não existe, mas o Todo como o Absoluto, o que significa nada mais nada menos do que o pré-opositivo como tal, chamado de Real, ou pré-ontológico, se quiserem. Essa postura implica a garantia das diferenças, pois, se se é indiferente às diferenças, todas têm espaço, tanto faz (valetudo em latim é saúde). Isso é o contrário do segregacionismo. É um agregacionismo, pois agrega valor aos discriminados, aos diferentes: todos são iguais perante o Um, que trata a todos indiferentemente, ou seja, com o mesmo valor. Ninguém é mais (diferente) que ninguém. Todos são igualmente diferentes, logo as possibilidades de existência das diferenças se equiparam entre si – todas as diferenças têm que ter a mesma possibilidade de existência.

Vemos que há uma oposição muito clara entre os dois tipos de percepção. Vou retomá-las em outros termos, os de uma certa psicanálise. A percepção de esquerda começa no que Deleuze chamou de ‘mundo’, ou ‘contorno’; quero chamar isso de existência, ou, pra ser mais preciso, de Haver. Se há algo que vincula todas as pessoas, independente de credo, cor, raça, nacionalidade, etc., independentemente de quaisquer diferenças em particular entre si, é o fato que há, para todos nós: todos nós compartilhamos a existência, pré-ontologicamente. Há o Haver, para todos; mas ninguém sabe como haver, como existir (se sendo atleticano ou cruzeirense, ariano ou judeu, etc.) – é só a partir daí que a ontologia entra. Haver é fora da oposição em que se engendram os seres, as diferenças em particular: todas as diferenças estão nele, mas, como tal, haver se situa para além delas – chama-se real, impossível de ser apreendido, como Lacan e Kant queriam; tudo é-feito de Haver. Haver é o ‘contorno’, é o Um; já o 'endereço' é o que se forma dentro do haver, ou seja, as diferenças, as particularidades (que vem de partícula, lembro-lhe), as oposições: as formações do Haver. Vemos aqui as funções do Todo e da Parte (donde a palavra ‘partido’): o Haver e as suas formações.

A função do Haver indiscerne fronteiras, borra limites, acende a penumbra, o que permite a percepção de que há uma indistinção entre os problemas ‘de lá’ e os ‘de cá’; permite a percepção da homogeneidade existencial entre ‘eu’ e o ‘outro’, ou seja: ‘eu é outro’, como dizia Rimbaud; ‘o outro sou eu’, é o complemento dessa frase. Toma-se um choque do Haver quando uma situação de indistinção entre (o)posições emerge: eu e tu, por mais que sejamos opostos, temos uma única coisa em comum: existirmos, juntos, dentro do mesmo barco, chamado Haver – que, obviamente, nunca veio de lugar nenhum e nem nunca vai pra lugar nenhum, presos que estamos, todos, independentemente do que nos difere enquanto tais, na imanência absoluta da existência. Perceber isso é perceber o ‘mundo’ e o ‘contorno’. Tem-se aí o vetor da esquerda deleuziana: da indiferença entre as diferenças – todas são interdependentes a ponto de não ser possível discernir completamente entre uma e outra coisa. É a alteridade da identidade. É perceber que, como na anedota do arqueiro zen, quando atiro no outro, acerto em cheio a minha própria nuca.

Enquanto que a direita é aquela posição tomada a partir das formações do Haver, que, como tais, sempre se medem a partir de sua diferença para com as outras formações: é Hitler identificado com a diferença que o constitui (ser ‘ariano’), recalcando (esse é o termo) as outras diferenças (judeus). É a identidade da alteridade: uma alteridade (uma diferença) identificada consigo própria, impermeável à sua transmutação para com a alteridade de si – é Hitler querendo matar do lado de fora o judeu que habitava seu coração (veja que Hitler era, afinal, humano...). Assim, só a minha diferença é privilegiada quanto às demais: minha diferença é mais diferente que as outras, e nisso se perde completamente o contato com o Outro. As formações do Haver resistem, recalcitram quanto à possibilidade de seu reviramento em Outro: eu é eu, eu não é você: isso é assim, aquilo é assado. A fronteira, a distinção, se impõe enquanto segregação de todo e qualquer tipo: físico (pois o universo é feito de matéria, não de antimatéria - esta última está segregada do nosso universo), social, racial, sexual, individual etc. 

Podemos então resumir o que foi dito alinhando o pensamento de direita com o paradigma das formações do Haver, onde prevalecem as diferenças entre as diferenças, ou seja, faz diferença o outro ser diferente de mim, pois não há a menor chance de eu ser outro – resisto na minha identidade, minha propriedade privada maior; e alinhamos a esquerda com a indiferença entre as diferenças, quer dizer, não faz diferença que você seja diferente de mim; ambos existimos, estamos jogados no Haver, sem saber de onde viemos nem para onde vamos, e, pelo menos nisso, somos todos Um. É o reconhecimento de que, se hoje sou do bem e você é do mal, há a possibilidade de amanhã isso se revirar, e eu estar na pior... É uma identidade que não se identifica consigo mesma: sem propriedade privada, na penumbra entre ‘eu’ e ‘outro’.

Então temos os dois vetores: um que vai do múltiplo das diferenças rumo ao Um, e outro que vai do Um da indiferença rumo ao múltiplo. Não há Terceiro Lugar aí; estamos falando da existência e de seus modos; a existência, o Haver, é Um porque só há um Haver, só há “O” Haver, só há a existência, e, obviamente, não há o Não-Haver, não existe a inexistência – como o próprio nome diz. É o estado puro da Imanência: não existe transcendência. Logo, o que há é o Um, sem oposto inexistente – não existe o oposto do Haver e, como tal, Haver é pré-opositivo, pré-ontológico. Como surge então a oposição? Como se faz o Ser, o Partido? Ora, só pode ser de 'dentro' do próprio Haver (já que não existe o externo Não-Haver), para consigo mesmo: a chamada auto-diferença. Só há Uma oposição no seio do Haver, e é consigo mesmo: ou o Haver se manifesta como (o)posições, diferenças, realidades (como tais, múltiplas), ou o Haver se manifesta como Um, como real, como o próprio Terceiro Lugar indiferente às oposições entre as suas formações – o Haver é bífido, ele é uma única e mesma Spaltung. Mas essas oposições são mutuamente excludentes (por isso não há terceiro aí) – ou o Haver comparece como diferença ou como indiferença – ecce Spaltung! Em suma, a oposição é entre posturas direitistas, ancoradas no Ser, nas diferenças, e posturas esquerdistas, navegantes do Haver, na indiferença. Por isso, há que se tomar partido, sim, pois não se constitui realidade ficando em cima do muro; é a famosa covardia, fruto da angústia. Angustiar de nada adianta se não se faz uma escolha – aliás, não há escolha: há que escolher (o que não é dizer que se é obrigado, que é inevitável escolher um lado em específico – não: o inevitável é escolher). Por isso, aqui se escolhe a esquerda, se entendida nesses termos. Escolho por gosto (ou seja, sintoma) pessoal, não por motivos ‘nobres’ (como quem sabe o que é o Bem). Acho que é preciso se olhar no espelho e ver o Outro, não a própria imagem - é o que fundamenta minha decisão. Tento ver o coxinha que há em mim também... Mas não posso obrigar ninguém a ser como eu, a ter essa mesma postura: não posso impossibilitar alguém de ser diferente de mim (isso seria incoerente a indiferença) - a não ser que me impossibilitem de ser (in)diferente: nesse caso, há que se partir pra guerra, para não ser um voluntário da servidão. O que eu posso fazer é possibilitar que outros pensem assim (espero que não todos, pois aí iria tudo por águabaixo), que tomem o meu partido, a Esquerda. Por isso o texto e as argumentações.


Mas por quê chamar isso de ‘esquerda’, visto que no próprio seio da definição tradicional de esquerda há uma cisão, além do lastro de direita horroroso que passou a se decantar nessa palavra ao longo dos tempos? Por mim, chamem isso do que quiserem; pouco importa. Inclusive seria muito bom que se chamasse isso de ‘direita’, mas o lastro é qual horroroso, até mais. Chamem do que quiserem: o importante é a postura, a percepção; destas só existem duas, dentro do mesmo Um. O que vai ser? 


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sobre "Ninfomaníaca", de Lars von Trier

Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir...

Socorro!
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...

Socorro!
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento, encruzilhada
Socorro! Eu já não sinto nada...

("Socorro", Arnaldo Antunes)

(Se você não viu o filme e não quer saber sobre ele antes de tê-lo visto, não leia este texto.)

Ninfomaniaca, o novo filme de Lars von Trier – que já é-nos conhecido de longa data por seus filmes controversos (ou seja, contra o verso, contra a versão dos conceitos em vigor) –, é provocativo pelo nome e pelo marketing. No cartaz oficial, os rostos de uns doze personagens se contorcendo em orgasmo. A antecipação que se tem é a de que o filme há de ser uma putaria, praticamente gozando na cara do espectador. No entanto, o que se vê (pelo menos nessa versão ‘light’, cortada) é um filme muito lúcido sobre a sexualidade humana (encarnada numa mulher) e um questionamento sobre os modos de sofrimento que as pessoas conseguem construir para si.

A trama é basicamente a seguinte: um homem judeu, Seligman (que em hebraico significa ‘homem feliz’) encontra Joe, uma mulher caída num beco, machucada, e a leva para sua casa para cuidar dela. Nisso, Joe começa a contar sobre sua vida, marcada pela sexualidade desde a mais tenra infância: “descobri minha buceta com 2 anos de idade”, diz ela. Desde criança ela teve muito interesse e excitação pelo sexo; ela e sua melhor amiga, “B”, pressionavam suas vaginas contra o chão, dentro do banheiro; contra a corda de escalar, na educação física, etc.

Chegada a puberdade, Joe se dirige até o garoto mais popular da escola – Jerome, um rapaz mais velho que tinha uma moto – e pede-lhe que este tire sua virgindade. É digno de nota as coordenadas simbólicas que esse rapaz tem para ela: ser o mais popular e ter uma moto. Não é à toa que foi ele que ela escolheu para deflorá-la. Porém, foi uma cena de sexo sem a menor emoção; o lugar era a oficina onde ele estava tentando consertar a moto (que não ligava); ela se sentou num colchão, no chão, e ele diz: é melhor você tirar a calcinha, né? Então ele se deita sobre ela e dá 3 estocadas; em seguida a vira e dá mais 5 por trás. Era o fim de sua virgindade; sem beijo, sem carícia, sem carinho, sem emoção, sem amor: sem sexo. Foi um sexo mecânico; ele a tratou como uma moto. Na verdade, ele tratou a moto melhor do que ela, visto que ele estava se dedicando a consertá-la. Foi um sexo reduzido a números: o 3 e o 5 das estocadas que ele deu; a marca não é emotiva, significante. É a marca de um vazio de experiência, de um vazio da própria marca. Ele em seguida se levanta, volta a tentar consertar a moto, como se nada tivesse acontecido ali, segundos antes. Ela se levanta e se vai – não antes sem passar por ele, mexer em algo da moto, que passa então a funcionar. É como se ela tivesse dito: “você não sabe fazer nem uma moto funcionar”. 

Joe passa a ter um certo desgosto por Jerome. Desde então não o viu mais. Então entra em cena a compulsão sexual de Joe. Isso começa com uma brincadeira que ela e sua amiga B se propõem a fazer: entram num trem e quem fizer sexo com o maior número de estranhos ganha um saquinho de chocolates. Assim ela começa a se tornar uma serial fucker; transa com vários e nunca mais do que uma vez com cada. Ela começa a participar de um grupo de pessoas com a mesma filosofia. Só que após um tempo, um dos membros diz que transou três vezes com a mesma pessoa, e foi repreendida por Joe. Essa outra garota então lhe diz: “você acha que sabe tudo de sexo, né? Só que você não sabe o ingrediente secreto do sexo: o amor”. Isso a irrita, pois ela não acredita nisso.

Enquanto ela conta esses casos a Seligman, este funciona como a voz da razão, tentando articular os desvarios dela em termos de conhcimento e ciência; por exemplo, quando ela falava da caça aos homens, ele comparava tudo o que ela dizia com pescaria; a isca, o anzol, as técnicas pra pegar um peixe. Ou os números 3 e 5, como os números da série de Fibonacci, que ele ainda tem a pachorra de explicar-lhe o que seja.

E Joe continua a contar os mais diversos casos que teve com os homens. Conta que era difícil conciliar a logística de ter um emprego normal e ter tempo para fazer sexo com dez homens num mesmo dia – os horários eram seguidos à risca. Às vezes um esperava na sala enquanto ela terminava com o outro. Ela conheceu vários tipos de pênis – e parece que era a isso que os homens eram reduzidos em sua vivência: pirocas. Pois em nenhum desses casos ela sentia emoção. Sua falta de emoção fica demonstrada por uma técnica que ela inventou para produzir “sentimentos”. Quando ela chegava em casa e tinham várias mensagens em sua secretária eletrônica, ela não se lembrava quem eram as pessoas que haviam ligado – ele não conseguia associar qual nome era de qual pica. De modo que pegava um dado, e jogava. A escala de 1 a 6 era a de dar uma resposta calorosa até não dar resposta alguma. Seus “sentimentos” por cada um dos homens eram produzidos pelo lance de dados. Ou seja, não havia sentimento dela por nenhum desses homens. O sexo era sempre mecânico; era como se ela não estivesse realmente lá. Era uma compulsão por fazer sexo sem emoção, sexo insosso. Era apenas um sexo “tapa buraco”: não era erótico, de forma alguma – eram apenas buracos a serem preenchidos por pirocas; não era um sexo entre uma mulher e um homem. Fica claro, então que sua compulsão sexual é uma repetição da sua traumática primeira vez – traumática justamente por não ter emoção. É como se ela estivesse eternamente repetindo essa primeira vez, não se sabe se na busca de algum sentimento ou se na fuga dele – inclusive tem um certo ponto do filme em que ela realmente diz que na verdade não são com muitos homens que ela transou; era como se eles fossem, todos, um único e mesmo amante. Provavelmente ela fugia da possibilidade de sentir algo por alguém; no entanto, ao se jogar tanto por aí, torna-se mais provável que uma contingência a faça sentir algo por algum desses homens. Se pensarmos que ninfas são animais em estágio ainda não desenvolvido (como Seligman explica a Joe), ninfomaníaca adquire o sentido de ser alguém maníaca, fixada, em uma fase mais arcaica do desenvolvimento – como a infância, ou seja, antes de ser desvirginada. Assim, é como se a compulsão de Joe fosse uma compulsão em ser desvirginada (até mesmo para aplacar sua efervescente sexualidade de ninfa), coisa que, de fato, não aconteceu com ela.

E foi uma contingência que a levou a reencontrar Jerome. Ela procurava um emprego como secretária no lugar onde Jerome trabalhava, numa gráfica. Ele tenta transar com ela, mas ela nega, pois ainda tem certo ranço dele pela "primeira vez" que nunca houve. Com isso, ele fica com raiva e dá umas pequenas humilhadas, pedindo por serviços mesquinhos, etc. No entanto, à medida que o tempo passa, ela começa a pensar em partes do corpo de Jerome, em especial as mãos, e tentar encontra-las em outras pessoas, formando um quebra-cabeça: uma peça de um homem qualquer era o nariz dele, outra o cabelo, outra a mão, etc. Ela começa a pensar que ama ele, que está apaixonada por ele, o que é questionável, pois ela não pensa nele, no que há de simbólico nele, tipo sua 'personalidade'. Ele é reduzido às partes do corpo, o que parece mais com algo da ordem do fetiche; não se trata do olhar, do tocar, do dizer (que extrapolam o mero corpo), mas sim do olho, da mão, da boca. Ora, lembremos que ele foi a pessoa que desvirginou o corpo de Joe, mas não desvirginou-a simbolicamente: ela não foi tocada por dentro – Joe é uma virgem de sentimento. Então esse “amor”, essa “fórmula secreta do sexo” talvez seja uma tentativa de sentir alguma coisa com a pessoa que a anestesiou para os próprios sentimentos. Talvez ela esteja tentando se ‘curar’. É questão complexa decidir se há amor aí ou não; não é porque ela chama esse fetiche de “amor” que há, de fato, amor (o que quer que isso lá seja): talvez ela apenas precise que seja ele para que ela possa realmente perder a virgindade. O fato é que ela escreve uma carta se declarando para Jerome e quando vai entrega-la em mãos, ele não está mais na gráfica. Havia fugido com a outra secretária, com quem se casou.

Seligman, em suas comparações didáticas dos sentimentos de Joe, evoca a polifonia de uma das obras de Bach para dizer da polifonia de homens da vida de Joe. Ele toma como exemplo uma peça que tem três vozes em contraponto. Ela, por sua vez, toma esta comparação e compara com três dos homens com quem já teve “relações”. Um deles é um homem meio banana, que faz tudo por ela, só quer o prazer dela, faz tudo o que ela manda. O segundo, ao contrário, é quem domina a cena, como um felino: ele é que a domina. E o terceiro é Jerome, que ela reencontra no parque após ele retornar do casamento falido. E os compara com as três vozes da polifonia, em que o amor, encarnado em Jerome, juntaria o sexo a alguma emoção, formando então o Cantus Firmus (nome da voz principal entre as três): a 'hamornia' musical entre sexo e sentimento.

Ela então descreve a cena de sexo com a pessoa amada: seu corpo treme de tesão, ela parece mais entregue a alguém do que nunca antes - até o modo de filmar já é diferente: trata-se de sexo propriamente humano, não apenas um coito. Enquanto ele a beija, a chupa e a penetra ela solta uma das frases mais importantes do filme – a penúltima frase: “preencha todos os meus buracos”. Ora, Jerome encarna o amor para ela; o amor é o ingrediente secreto do sexo; ela quer que Jerome a preencha; ela quer o que o amor preencha todos os seus buracos. Com isso, ela tem esperança de sentir algo, qualquer coisa. Isso lembra aquela música “Socorro”, de Arnaldo Antunes, citada na epígrafe. O amor, como a última esperança de sentimento, é o seu grito de socorro diante do sofrimento de nada sentir: ela esperava finalmente perder a virgindade com o homem que a desvirginou. Diante do pedido para preenchimento de seu vazio, Jerome se esforça genuinamente: tapa-lhe todos os buracos, até a hora em que o orgasmo vem. Nesse momento, Joe para, inerte, e Jerome pergunta: “qual é o problema? O que foi?” Joe responde: “não sinto nada”, e começa a chorar. O filme termina, orgasmaticamente broxante.

O que é interessante nessa última cena é que, quando ela se toca que não sente nada, isso a afeta. Ela chora, há algo de trágico em constatar isso: há um sentimento. Ela finalmente sente alguma coisa: algo se corta, algo se rompe nisso. Não é como nas outras vezes; é como se ela tivesse descoberto que nada sente, pois até então ela nem sentia que nada sentia: e perceber isso a afetou, a angustiou. E foi justamente com o amor que ela sentiu que nada sente: o amor, de fato, a fez sentir algo: o próprio nada. Pela primeira vez, Joe é marcada: ela perde sua virgindade sentimental. Se na primeira ‘primeira vez’ (e nas suas subsequentes repetições), ela nem diz, e nem sente que nada sente, quer dizer, não há marca de sentimento, nesta segunda ‘primeira vez’ algo parece a marcar: a ausência de sentimento. E isso ela sentiu. Há um paradoxo nessa marcação de ausência de sentimento. Pois pela primeira vez, não sentir nada a afeta, a marca. Talvez ela tenha se dado conta de que não adianta preencher todos os seus buracos: há um buraco impossível de ser preenchido, e esse buraco não é no corpo: é um buraco que não existe.

Quais serão as consequências dessa revelação para Joe? Como ela irá se rearranjar em seu sofrimento a partir dessa experiência de derrelição? Como ela passará a sofrer agora? Aguardemos o volume II, previsto para estrear em Março.


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sou Outro Sou

Ouvindo o disco de John Zorn, "Seis Litanias para Heliogabalus", realizei algo. 

Da importância de não deixar nenhum de nossos lados ser extinto, devido a nossos princípios, morais e éticas. Prego a liberdade, porque gosto dela, porque gozo dela; mas também gosto e gozo de ser um prisioneiro de várias situações na vida, o que me faz ser o que sou - e gosto do que sou, seja Assim ou Assado. Tão importante quanto ser livre é ser prisioneiro de si e prender-se a si mesmo; sou meu próprio carcereiro. Só houvesse a liberdade eu não seria livre, pois também quero me libertar da liberdade. Só posso ser livre com a condição de estar preso. Por isso prezo minha prisão, preso meu próprio desprezo, onde estou prezo e do qual me quero livre, pois sem o corpo eu não saberia o que é o espírito. 

O disco de Zorn é uma ladainha (litania) religiosa para o imperador romano Marcus Aurelius Antoninus Augustus, que, não sendo um governante laico, levou sua crença na deidade Heliogabalus para o poder e se deu mal por isso; ganhou muitos inimigos por querer forçar o deus e seus costumes goela abaixo do povo. Tantos que chegou ao ponto de surgir um mito de que ele queria matar vários deles de uma vez e de maneira inusitada: sufocando-os com rosas que ele teria feito cair sobre eles a partir de um 'fundo falso' no teto. Inclusive um quadro já foi pintado retratando o episódio:


De modo que coisas das mais delicadas - as rosas - seriam ao mesmo tempo aquilo que causaria mais horror - a morte. Esse mito mostra que Heliogabalus superpôs em um mesmo ato o horror e a beleza. Ora, se considerarmos o disco de Zorn como um conceito, veremos que ele tenta fazer essa mesma sobreposição: utilizar da música, que produz o mais sublime da espécie humana, para que ela venha a ser o veículo de um horror, mostrando com precisão cirúrgica do que a espécie humana é capaz: usar o Bem para fazer o Mal e vice-versa, até o ponto em que é impossível saber onde está o limite entre um e outro, de modo que há que se admitir que ambos participam da 'mesma' identidade subjacente (sub-jectum) a eles. E nunca se sabe quando o pior de alguém trará o seu melhor; e nunca se sabe de quantos defeitos é feita uma qualidade; de quantos certos é feito um errado; com quantos bens se faz um mal... Acolho meu mal - pra fazer o bem: não me esqueço dele, reconheço-o como eu mesmo, e não como um estrangeiro. Sou (nor)mal - por isso, posso ser (tão)bem. Sou (o) além, como um Übermensch gödeliano: se sou bem, logo sou mal; se sou mal, logo sou bem - sou Outro sou. 





sábado, 23 de novembro de 2013

A função de onda (Ψ) da interpretação psicanalítica

“A que silêncio deve agora obrigar-se o analista para evidenciar, acima desse pântano, o dedo erguido de São João de Leonardo, para que a interpretação reencontre o horizonte desabitado do ser em que se deve desdobrar sua virtude alusiva?”

(Lacan, “A direção do tratamento”)


A teoria da interpretação psicanalítica, com Lacan, passa a ser concebida a partir dos três registros que ele propõe para se dar conta dos efeitos do inconsciente, nomeadamente o imaginário, o simbólico e o real.

Num primeiro momento de seu ensino, Lacan procura mostrar aos analistas, especialmente aos pós-freudianos, que a interpretação não deve atuar no registro imaginário, que é o lugar-tenente do sentido na estrutura do inconsciente. “Isso para nós não é novidade, mas na época era uma grande novidade porque até então o analista ouvia o paciente procurando sempre o que aquilo queria dizer, isto é, o sentido. Os kleinianos ainda hoje só trabalham com o sentido e a interpretação consiste em estabelecer o sentido para o paciente”, diz Marcio Peter, psicanalista brasileiro. Na verdade, não são apenas os kleinianos (ou seja, aqueles que operam a partir do ensino de Melanie Klein) que se valem desse manejo. Outro dia, escutei uma pessoa me contando sua passagem por um psiquiatra, oito anos atrás, devido a um sintoma obsessivo clássico: essa pessoa tinha que tocar nas superfícies dos lugares onde se encontrava (tal como todas as bordas de mesa, no chão, etc.), para afastar os pensamentos de que se ele não o fizesse, sua mãe morreria. A psiquiatra, ao ‘ouvir’ o relato, já começou com as ‘interpretoses’ (categoria nosológica aplicável a ‘psicanalistas’ que operam com o imaginário na interpretação): “você está sofrendo de um Transtorno Obsessivo-Compulsivo porque você deseja a morte de sua mãe”. A pessoa me contou que se sentiu muito frustrado quando notou essa postura da psiquiatra, pois ela já tinha uma resposta pronta para seu problema e “nem me escutou” (palavras dele). À época do tratamento ele contava 12 anos, e não suportou a situação de não ser ouvido, de sofrer interpretoses, por isso não ficou muito tempo e logo parou de frequentar a psiquiatra. “Qual é a função própria da interpretação kleiniana, que se apresenta como uma intrusão, de coisa posta sobre o sujeito?” (LACAN, 1986, p. 90 – grifo nosso). Respondemos: a função imaginária. Fica claro assim o que Lacan tentava alertar aos psicanalistas da época: não se trata de fornecer sentido para o que se escuta do analisando – isso não é senão interpretose. Mas do que é que se trata, então? Como deve proceder uma interpretação?

Nessa época de seu primeiro ensino, Lacan queria mostrar a função simbólica da interpretação, em oposição à sua função imaginária. Como para Lacan o inconsciente é estruturado como uma linguagem, não se trata de intervir fornecendo o sentido para o paciente, mas sim, de intervir nas palavras que ele profere (o simbólico) para que ele descubra por si só o sentido daquilo que diz no que ele mesmo diz. Uma interpretação simbólica daria a chance d’a pessoa poder SE perguntar pelo sentido do seu sintoma. Assim, o analista interviria, perguntando, por exemplo, algo muito simples, como “por quê você sonhou isso?”, pedindo assim ao paciente que faça o trabalho de associação para se chegar ao “conteúdo latente” do sonho, e não dando isso para ele prêt-à-porter. A interpretação simbólica ainda assim busca o sentido, mas a partir dos elementos fornecidos pela fala do paciente, que ainda tem que ter o trabalho de associar (e o analista direciona o tratamento nesse aspecto) os elementos para se chegar ao sentido daquela formação do inconsciente. Interpretar aqui ainda está articulado com a compreensão de um sentido para o sintoma, mas essa compreensão parte do próprio paciente – a partir das intervenções do analista que o guiam nessa direção.

Mas ao longo de seu ensino Lacan ainda dá outra virada sobre sua teoria da interpretação. Ora, como Freud diz, todo sonho tem um umbigo, um ponto que nunca será interpretado:

“Mesmo no sonho mais minuciosamente interpretado, é frequente haver um trecho que tem de ser deixado na obscuridade; é que, durante o trabalho de interpretação, apercebemo-nos de que há nesse ponto um emaranhado de pensamentos oníricos que não se deixa desenredar e que, além disso, nada acrescenta a nosso conhecimento do conteúdo do sonho. Esse é o umbigo do sonho, o ponto onde ele mergulha no desconhecido. Os pensamentos oníricos a que somos levados pela interpretação não podem, pela natureza das coisas, ter um fim definido; estão fadados a ramificar-se em todas as direções dentro da intricada rede de nosso mundo do pensamento” (FREUD, Vol. V, Cap. VII).

De modo que esperar uma formalização lógica da interpretação a partir da descoberta do sentido do sintoma não condiz com o que Freud nos mostra como resto indecifrável de um sonho, ou de uma formação do inconsciente qualquer. Lacan tentou realizar essa formalização a partir da estrutura da linguagem; porém, o inconsciente não é, ele todo, linguagem; “a linguagem é imperfeita” (LACAN, Sem. 25, 10/01/1978). E, na verdade, o desafio maior aos analistas é precisamente investigar como intervir no inconsciente por algum outro caminho que não seja unicamente o da linguagem, que não seja unicamente o do sentido que ela desvelaria no trabalho analítico. Pois o inconsciente, não é ele próprio todo interpretável – ele não é todo sentido. É a partir daí que Lacan começa a privilegiar esse ponto não interpretável do inconsciente, chamado de Real, para descobrir como o analista pode operar a partir dele. Isso porque “importa não o que já está lá [no inconsciente, como conteúdo latente], o que carrega efeitos, mas, sim, como um efeito se produz nele de modo aleatório” (SANTIAGO, p. 44 – grifo meu). Isso significa que não importa tanto o conteúdo recalcado, o sentido que a intervenção simbólica faz o paciente descobrir. Até porque descobrir isso não tem plenos efeitos de cura – a repetição retorna mesmo após tais descobertas. Assim, o papel da psicanálise é descobrir como interpretar sem contar exclusivamente com o simbólico – que, como tal, é sempre falho, furado, sempre passível de outra interpretação. É como diz Jacques-Alain Miller: “nenhuma interpretação está, para falar com propriedade, terminada” (MILLER, 2011, p. 44). Esse furo nuclear da interpretação simbólica é o que faz Lacan mudar de orientação no que concerne o interpretar analítico. “A interpretação não é propor outro sentido [função imaginária] ou girar o sentido manifesto para fazer surgir um sentido escondido [função simbólica]. A interpretação visa desfazer a articulação do destino [a ‘sobredeterminação’ freudiana] para mirar o fora-de-sentido [função real], o que quer dizer que a interpretação é uma operação de desarticulação” (MILLER, 2011, p. 82). Ora, isso se harmoniza mais com o fato do umbigo do sonho, ou seja, com o Real, que, como tal, em sua definição mesma, é aquilo que exclui o sentido, é o próprio não-senso. Assim, o paradigma da interpretação na psicanálise passa do imaginário ao simbólico, mas finalmente desemboca no real. Como o real não tem sentido, não se trata mais de buscar o sentido na interpretação: “seu esforço [de Lacan] é o de abrir uma prática pós-joyceana da psicanálise, aquela que não recorre ao sentido para resolver o enigma do gozo” (Ibid., p. 87). Se a interpretação não é mais uma função do sentido, não se trata de descobrir nada no inconsciente, ou de ‘ajuizar do sentido do pensamento’. Trata-se de fazer o inconsciente produzir algo, um significante novo, diria Lacan – que não tenha espécie algum de sentido (LACAN, Sem. 24, 17/05/77). De modo que a ‘interpretação’ precisa intervir no Real para que algo novo seja produzido a partir de Lá – algo que não tenha sentido, algo que não se compreende. Por isso, Lacan solta uma frase que queremos analisar aqui com cuidado: “uma interpretação não é feita para ser compreendida; é feita para produzir ondas” (LACAN, citado por COUTINHO JORGE, p. 213). Lacan está dizendo duas coisas aqui. Uma, é que se uma interpretação não é feita para ser compreendida, é porque ela não se orienta mais simbólico-imaginariamente, não se orienta pelo sentido do que se diz – seja ele doado ou descoberto; sua orientação é para aquilo que não pode ser compreendido, nem dito, que é justamente o real. Outra, é que se a interpretação é feita para produzir ondas, há uma estreita relação entre o real que ela visa e as ondas que ela produz. De modo que Lacan está dizendo de um caráter real das ondas ou de um caráter ondulatório do real na interpretação.

Como de costume, Lacan não ‘explica’ o que quer dizer com tal frase, o que quer dizer com ‘ondas’, deixando as descobertas ao encargo de seu leitor. Era parte de seu estilo, e sobre isso ele se justifica: “…a linguagem é verdadeiramente o que só pode avançar torcendo-se e enrolando-se, contornando-se de uma maneira da qual afinal de contas não posso dizer que não dou aqui o exemplo. Não se deve acreditar que, ao aceitar o desafio lançado por ela, ao marcar em tudo que nos concerne até que ponto nós dependemos dela, não se deve acreditar que faço isso assim de bom grado. Acharia melhor que isso fosse menos tortuoso” (A Terceira). Essas torções (topológicas) que ele produz em seu estilo, nos seus textos, são exemplos dessas ondulações às quais ele se refere quando fala da interpretação. “Alguma coisa que é característica de meus Escritos é que não os escrevi para que se os compreendesse, eu os escrevi para que se os lesse” (LACAN, citado por COUTINHO JORGE) – aforismo esse que se relaciona diretamente com o da interpretação. Isso exige que cada leitor se coloque como tal naquilo que lê – pois Lacan se faz tortuoso –, que produza um entendimento próprio, e não apenas porque Lacan o diz – em suma, que o leitor, ao ler Lacan, interprete Lacan, cujos seminários eram sua própria análise. De modo que nossa intenção aqui, seguindo Lacan por um caminho por onde ele não foi – e assim interpretando-o –, é investigarmos que articulações podemos traçar entre o real, como o umbigo do inconsciente, impossível de ser interpretado, mas também como aquilo que não se compreende numa interpretação, e as ondas que uma interpretação que toca esse real produz. Para tal, recorreremos a um campo que nos traz de bandeja essa articulação: a física quântica.

O que há de fundamental no campo quântico é uma distinção entre duas entidades físicas, a saber, a partícula e a onda. Uma partícula é um ponto – indivisível – no espaço, onde há matéria, ou energia. Podemos pensar em uma bola bem pequena que segue uma trajetória pelo espaço. Já uma onda é uma perturbação que se propaga em um meio, tal como a água (‘como uma onda no mar’), e que se espalha pelo espaço (PESSOA JR., 2003, p. 2). Essa perturbação que se propaga é a energia, que é o próprio movimento das partículas do meio (no nosso exemplo, a água). De modo que uma onda, por ser espalhada, não tem uma trajetória definível (pois segue várias ao mesmo tempo), nem posição determinada (ela está espalhada pelo espaço, ao contrário da partícula que se situa bem distintivamente).

Pois bem, o que a física quântica revela é que os objetos que ela descreve possuem as duas propriedades! Ora, isso é uma contradição lógica, pois afirma-se que a mesma coisa (um objeto quântico) segue uma trajetória (no caso da partícula) e não segue (no caso da onda, porque a trajetória é espalhada, logo não é trajetória). Essa foi a primeira surpresa, demonstrada por um experimento que descreveremos dentro em pouco.

Antes, é preciso detalhar mais as características de uma onda. Como se sabe, uma onda é feita de oscilações, de perturbações. As oscilações são movimentos de ascendência e descendência, quer dizer, algo que sobe e desce ao longo de uma direção. A amplitude é a distância entre um pico e a linha mediana da onda (ver ilustração). Ora, se duas ondas ocupam o mesmo lugar no espaço e seus picos e vales estão alinhados dizemos que as ondas estão em fase e a onda resultante dessa soma terá o dobro da amplitude (é só somar as duas amplitudes). Já se as ondas estiverem fora de fase, ou seja, se o pico de uma coincidir com o vale da outra, as ondas se destroem, anulando-se. De modo que essa interferência é uma propriedade típica das ondas, não das partículas. Sabemos que a luz tem características ondulatórias, pois já foram verificados padrões de interferência nelas (tanto construtivos, quando as ondas estão em fase, quanto destrutivos).



Isso nos ajudará a explicar outro fenômeno, que é o de divisão de ondas. Se jogarmos um feixe de laser (luz) em um espelho semi-refletor (que reflete metade da luz e deixa a outra metade passar) a onda se divide, e seus componentes ficam fora de fase. É possível recombinar os feixes que se originaram da divisão com um aparelho denominado interferômetro de Mach-Zehnder. São os experimentos com esse aparelho que deram origem às questões profundas que a física quântica trouxe para o mundo.

No entanto, a luz também manifesta características corpusculares, de partículas; se reduzirmos sua intensidade suficientemente, veremos que a detecção da luz se dá pontualmente, ou seja, a luz incide no aparelho detector como pontos, partículas, denominadas fótons. O efeito fotoelétrico, que rendeu a Einstein o prêmio Nobel, é a prova da propriedade particular da luz. Assim, aqui mais uma vez o paradoxo quântico se manifesta na contradição lógica da dualidade onda-partícula.

Sem mais delongas, então, analisemos o interferômetro para compreender melhor a origem desses paradoxos.

O interferômetro é um aparelho composto de um espelho semi-refletor (S1), que divide o feixe de luz (aqui considerada em seu aspecto ondulatório) em duas partes de igual amplitude. Sabemos que numa divisão assim, as ondas resultantes saem de fase; a onda refletida sofre um deslocamento de ¼ em sua amplitude. Em seguida, cada um dos feixes é refletido por um espelho (totalmente refletor), E1, E2, de modo a se cruzarem novamente em um espelho semi-refletor (S2), após o qual são colocados dois aparelhos de detecção (D1, D2), um para cada feixe (figura).



Como cada componente do feixe de luz original incide em S2, era de se esperar que sua medição pelo detector mostrasse 50% de cada componente (pois que o espelho S2 divide o feixe). Mas não é o que acontece. O que se observa é a medição de feixe em apenas um dos detectores (D1), e o valor dessa medição é o mesmo valor do feixe original, antes de ter passado por S1!

Isso se explica pelo seguinte: o feixe que seguiu a trajetória A, ao incidir em S2, se dividiu em dois componentes, um dos quais foi refletido para D1, e o outro seguiu seu caminho rumo a D2. O feixe que seguiu o caminho B também é refletido em S2 rumo a D2 e seu outro componente segue seu caminho em direção a D1. Como a cada reflexão há uma alteração nas fases das ondas, o que ocorre é que ao incidir em S2 os componentes dos feixes A e B que vão em direção a D2 se interferem destrutivamente, se cancelando, por estarem fora de fase; e os componentes que seguem para D1 se somam, por estarem em fase. De modo que é perfeitamente lógico que um dos detectores meça a superposição construtiva e ou outro não, pois os feixes se anularam de S2 a D2 devido ao padrão destrutivo de interferência das ondas.

Esse é um experimento arranjado para ondas, com comportamento clássico, ainda não é nada quântico. Para tornar o experimento quântico é preciso reduzir a intensidade do feixe de luz até que apenas um fóton incida em S1 por vez. Assim, o que ocorre é que uma partícula (um fóton) incide em S1 e lá pode ser ou refletida ou seguir seu rumo, e passa por S2 (também podendo ser refletida ou seguir o rumo) de modo a incidir ou em D1 ou em D2, com 50% de probabilidade para cada incidência. No entanto, o experimento mais uma vez mostra que apenas o detector D1 mede a presença da partícula, com o mesmo comportamento de um experimento ondulatório! Ou seja, é como se a partícula tivesse viajado pelos dois caminhos, ‘interferido’ consigo mesmo em S2, de modo a criar um padrão de interferência destrutivo entre S2 e D2 e um construtivo entre S2 e D1! Como é que uma partícula, que tem posição e trajetória definidas, pode ‘se espalhar’, como uma onda, e interferir consigo mesmo? Como é possível a uma partícula exibir propriedades de onda?

A grande questão é a seguinte: por qual caminho o fóton rumou após passar por S1, antes de incidir em S2? A ou B? Os problemas começam a surgir.

Suponha que o fóton se encontre em A. Isso pode ser realizado experimentalmente com o próprio interferômetro ao se retirar o S1, de modo que o feixe incide em E1 e é refletido rumo a S2. Lá o feixe se divide e há uma probabilidade de 50% de incidência em D1 e 50% em D2, ou seja, não ocorreu o padrão de interferência. Isso é um comportamento clássico, não-quântico: ou ele incidirá em D1, ou em D2. O mesmo ocorre se arranjarmos o experimento de modo que o fóton percorra o caminho B.

No entanto, quanto ao interferômetro completo (com o espelho em S1), veja só que situação: “se o fóton estivesse ou em A, ou em B, continuaríamos a ter uma probabilidade de 50% de detectar o fóton em D2. Isso segue da própria definição do conectivo lógico ‘ou’: se em A é 50%, e em B é 50%, então ‘A ou B’ tem que ser 50%. No entanto, vimos que no experimento [interferômetro completo], para um único fóton, a probabilidade de o fóton atingir D2 não é 50%, é 0%! Logo, é falsa a afirmação de que o fóton está OU em A OU em B!” (PESSOA JR., p. 12, grifo meu). Essa situação é explicitamente paradoxal: o mesmo objeto passou por dois lugares diferentes ao mesmo tempo? Por onde ele foi? O que aconteceu com o fóton no intervalo entre as medições? Ele era partícula? Ou era onda? Essa é a essência da dualidade onda-partícula; assim, a teoria quântica estuda as propriedades ondulatórias que ela atribui às partículas.

Para falarmos mais rigorosamente sobre a dualidade, enunciemos o seguinte: um fenômeno quântico é um conjunto composto pelo objeto quântico e pelo aparelho de medição, que, dependendo de seu arranjo, determina se o objeto terá aspecto corpuscular ou ondulatório. Por isso, o aparelho de medição deve ser incluído no conceito de fenômeno quântico: nos dois tipos de experimentos com o interferômetro, um teve aspecto corpuscular e outro teve aspecto quântico. Daí que um fenômeno é corpuscular se, após uma medição, segundo certo arranjo do aparelho, para ele puder ser discernida uma trajetória, quer dizer, se for possível (mesmo que em apenas em princípio, sem de fato ocorrer uma medição) saber se ele passou por um ou por outro dos caminhos possíveis. E será um fenômeno ondulatório se uma trajetória não for distinguida, devido a uma superposição de suas possibilidades, assim como ocorre com o fenômeno de interferência de ondas; a oposição entre os caminhos, representada pelo conectivo lógico ‘ou’, não se aplica nesse caso. Não se trata aqui de ter passado por um ou outro caminho. Mas como poderia ter o objeto passado por um e por outro caminho?

Apesar de todas essas perguntas, há um formalismo mínimo, uma equação, produzida por Erwin Schrödinger, que permite lidar com todas essas probabilidades, com todas essas incertezas, de maneira que funciona o suficiente para construir computadores, televisões, etc. E muitos físicos dizem que é só isso que importa, tanto faz se passou ou não passou por um ou outro lado: nós temos as equações e pronto! O problema é que eles se esquecem que foi a partir de respostas a perguntas de cunho interpretativo, como essas, que muitos passos foram dados até que se chegasse a tais equações preciosas, além da proposição de experimentos que confirmam ou refutam partes principais da teoria. De modo que investigar o campo não é supérfluo, e todos os grandes nomes da Física se detiveram nessas questões, procurando respostas, tentando simbolizar esse real que escapa à nossa compreensão. E nada garante que, ao ignorar a interpretabilidade da teoria, os físicos pragmáticos não estejam, justamente, interpretando-a.

De modo que um dos pontos de maior interesse aqui é tentar entender o que o dualismo onda-partícula nos trouxe. Ele pode ser expresso em um dos princípios fundamentais da Teoria quântica, a saber, o princípio de superposição. Como já vimos na descrição das propriedades ondulatórias, a soma de duas ou mais ondas é uma superposição de seus estados. Essas superposições podem ser de dois tipos: construtivas ou destrutivas, de acordo com a coincidência ou não de suas fases.

Outra definição propedêutica é a de estado do sistema quântico. No experimento do interferômetro, o estado é definido como o valor medido pelo detector (autovalor) quando a partícula tiver passado ou pelo caminho A ou pelo caminho B, ou seja, é a posição da partícula. Esses dois estados são ditos ortogonais, porque se a trajetória A for medida, a trajetória B não será: elas são mutuamente exclusivas.

No entanto, o princípio quântico de superposição enuncia que se um sistema quântico (como uma partícula que passa pelo interferômetro) tiver dois ou mais estados possíveis, a soma desses estados é também um estado possível para o sistema (PESSOA JR., p. 23). Assim, no interferômetro, antes da medição efetiva do estado da partícula, há a possibilidade de que seu estado inclua as duas possibilidades de trajetória. Mas o que isso quer dizer? A partícula está nos dois lugares ao mesmo tempo? As equações não respondem a essas perguntas, nem se interessam (e alguns intérpretes da teoria as imitam).

A dificuldade que se impõe então é: quando o estado quântico está em superposição – ou seja, ele ainda não foi medido por um instrumento de detecção – trata-se de uma onda ou uma partícula? E, mais ainda: essa superposição é real, quer dizer, própria do objeto físico, ou reflete apenas a ignorância do observador e seu aparelho de medição, que não conseguem medir com precisão a posição em que a partícula se encontra? Outra pergunta: no estado superposto, a partícula tem realidade física? Há realmente um objeto físico nesse momento? Se não, o que é que há?

Esse é o núcleo fundamental da função de onda na física quântica: ela não comporta as distinções entre os estados (as trajetórias) da partícula; ela é o próprio indiscernível, a própria indistinção da matéria. O que é dizer que não é possível saber se há alguma partícula ali, atravessando o interferômetro. Em outras palavras, é impossível saber o que ocorre com uma partícula em seu estado de função de onda: não sabemos sequer se é partícula. É um umbigo na física quântica, tal como Freud mostra o umbigo do sonho: lá, não temos como saber o que se passa, pois a posição para a partícula se ramifica para todas as possibilidades de trajetórias disponíveis. No entanto, é de lá que as partículas surgem como tais somente após passarem pelo interferômetro, no momento da medição. Antes de uma medição ser efetuada, não é possível saber nada a não ser as probabilidades de a partícula estar passando por uma ou outra trajetória.

Um ‘experimento de pensamento’ reflete isso de maneira exemplar. Antes de passar à sua explanação, podemos perceber pelo que foi dito até aqui que o ato de medir a posição da partícula (ou seja, a interação entre o objeto quântico e o aparato macroscópico) altera o sistema quântico. Por exemplo, porque uma partícula, enquanto não é detectada, exibe comportamento ondulatório, mas quando se a mede, ela reduz seu estado quântico para um comportamento corpuscular?

Imagine que no experimento com o interferômetro completo queiramos medir de fato o momento em que a partícula está entre o espelho semi-refletor S1 e o espelho E1, que direciona a partícula rumo a S2, para vermos por qual caminho ela passou. Assim, colocamos um detector D3 entre S1 e E1. 

Se o detector D3 for acionado, a partícula passou pelo caminho A, ao passo que se nada for detectado, a partícula passou por B. Com isso, teremos 50% de probabilidade para cada caso. No entanto, o que acontece é algo surpreendente: se na experiência original o único detector no qual as partículas incidiam era D1, devido ao padrão de interferência causado por S2, ao se medir por qual caminho o fóton passou, o padrão de interferência desaparece! Ou seja, 50% das vezes haverá detecção em D1 e 50% em D2! Isso mesmo se o detector não medir nada, (caso em que houve trajetória B), quer dizer, sem que haja qualquer interação direta entre a partícula e o detector, o que implica que não é devido à interação com o aparato de medição que faz o padrão de interferência desaparecer; é o simples fato de ter havido uma trajetória. Isso quer dizer que se os caminhos dos fótons forem discernidos, ou seja, se houver trajetória detectável para as partículas, elas deixam de exibir a função de onda, deixam de interferir: o seu estado quântico reduz drasticamente – “colapsa”, no jargão –, e o comportamento exibido passa a ser de partícula. Por que a medição destrói o padrão de interferência? O que significa o ato de medir um objeto quântico? O observador está implicado nisso, enquanto medidor?

Erwin Schrödinger, que produziu o fundamento do formalismo mínimo com uma equação da evolução do sistema quântico, propôs o seguinte ‘experimento de pensamento’: ponha um gato dentro de uma caixa junto com um átomo radioativo e um detector que aciona um mecanismo que mate o gato caso o decaimento do átomo (que ocorrerá ou não, de acordo com as leis probabilísticas da mecânica quântica) ative o detector. Antes de abrir a caixa, o gato estará vivo ou morto? Há uma probabilidade de 50% de o átomo decair, acionando a ‘máquina diabólica’ que mata o gato, e há uma probabilidade de 50% de o átomo não decair, deixando o gato vivo. As duas possibilidades de decaimento estão superpostas. Isso quer dizer que a vida e a morte do gato também estão em superposição? O gato está em um estado meio-vivo e meio-morto, como um zumbi? Ora, se abrirmos a caixa e olharmos (ou seja, se efetuamos uma medição), o gato estará em apenas um dos estados. Mas e enquanto não olhamos? Há físicos que afirmam categoricamente que o gato, também, está com a vida e a morte superpostas, ou seja, é fisicamente indiscernível se o gato está vivo ou morto – é como se ele estivesse vivo e morto. E o fato de olharmos o conteúdo da caixa determina o conteúdo da caixa – ou o gato estará vivo ou morto, colapsando assim a função de onda que mantinha o gato em superposição.

Interessa aqui com esse exemplo é ressaltar essa propriedade fundamental da função de onda: a superposição das possibilidades de orientação topológica de seus elementos. Nessa superposição nos deparamos com um Real, no sentido que Lacan coloca: o de impossibilidade de marcação para a posição do gato; não há significante, não há discernível para expressar o seu estado quântico (ou seja, superposto). Isso é o que significa uma onda na física quântica: uma função de superposição de possibilidades para distinções e orientações topológicas de um elemento físico (nomeadamente uma partícula). A função de onda (que se grafa com o símbolo Ψ – o que é muito digno de nota) é propriamente uma impossibilidade radical de se saber o que se passa em nível quântico; é um furo, um indiscernível que nenhum saber poderá capturar. É como diz Anton Zeilinger, da Universidade de Viena: “A superposição de amplitudes [...] é apenas válida se não houver maneira de saber, mesmo em princípio, qual caminho a partícula tomou” (ZEILINGER – grifo nosso). Ou seja, a função de onda é algo que não faz sentido na física quântica – bem literalmente: por qual sentido (trajetória) a partícula passou? É impossível saber. É precisamente aí que se manifesta na física (poderíamos ainda dizer: na ciência mesma) o que Lacan chama de Real. O real, na física quântica, é precisamente o que a função de onda materializa. Ou melhor: a função de onda demonstra fisicamente a ‘ek-sistência’ do que Lacan chamava de Real – para além de qualquer possibilidade de nomeação e significação. Por isso é que as reações ocasionadas pelas descobertas que se desenvolveram nesse campo foram as mais estupefatas: Niels Bohr, um dos nomes mais importantes da física moderna, foi taxativo: “aqueles que não se chocam ao entrar em contato com a teoria quântica não podem tê-la compreendido” (NETO, 2010, p. ix) – isso deveria também valer para a psicanálise, a propósito. Richard Feynman, prêmio Nobel, disse: “é seguro dizer que ninguém entende a mecânica quântica” (bid.). Sir Roger Penrose: “A mecânica quântica não faz o menor sentido” (Ibid.). Não é preciso dizer mais para demonstrar que os físicos também se depararam com aquilo que Freud chamou de Unheimlich, o estranho, o inominável – o umbigo.

Pois bem, vemos com clareza que o real com que a física quântica se depara é propriamente ondulatório. É na função de onda (Ψ) que se encontra, na física, o que Lacan chamava de real. Mas como compreender que a interpretação incide sobre o real e produz ondas? O que é ‘produzir ondas’? O que Lacan queria dizer com ‘ondas’?

Lacan, ao final de seu ensino, comparava a interpretação ao chiste e à escrita poética. Isso porque ambos fazem equívoco (bévue) e ressoam o sentido. “Com a ajuda do que se chama escrita poética, vocês podem ter a noção do que poderia ser a interpretação analítica”; “Estar eventualmente inspirado por algo da ordem da poesia para intervir enquanto psicanalista? É precisamente para isso que é necessário orientá-los” (LACAN, Seminário 24, 19/04/77). A escrita poética, o chiste, são efeitos do inconsciente que não são de maneira alguma unívocos – são precisamente equívocos –, ou seja, não impõem o sentido, senão como impossível. Na interpretação, o sentido se torna impossível, e é daí que aparece sua eficácia enquanto demonstração do real. Lacan dá exemplos disso até mesmo nos títulos de seus seminários: “les non-dupes errent”, ou “l’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre” – frases cujos sentidos são indecidíveis, pois oscilam (como quem diz ‘ondulam’) entre dois ou mais sentidos – entre dois ou mais significantes. Digamos que, na interpretação, o sentido espalha sua trajetória, sua consistência, tal como uma onda. É isto que a operação de interpretação tem que fazer com os elementos que se apresentam na fala: reduzi-los a equívocos, para que a partir deles as possibilidades de decantação do sentido emerjam por si sós – mas a emergência de sentido é secundária à intervenção analítica, que visa o real. “Nada mais fácil que patinar na equivocação (bévue), quer dizer, em um efeito do inconsciente” (LACAN, Seminário 24, 10/05/77). Assim, o equívoco, enquanto efeito do inconsciente, está alinhavado com o real, por ser uma articulação simbólica (feita a partir dos elementos significantes na fala) em que o sentido se dissolve, se espalha, pela miríade de sentidos que tal elemento simbólico possa ter – já que esse elemento originalmente não tem nenhum sentido, ele é sem-tido. Não se trata de encontrar os sentidos (latentes) para o significante, mas sim de simplesmente realizar o significante, ou seja, reduzi-lo ao sem-tido (sens/sans, no francês) que ressoa, que produz ondas nele mesmo – como uma partícula de propriedades ondulatórias (objeto de estudo da física quântica): “isso consiste em servir-se de uma palavra para outro uso que não aquele para o qual ela está feita, se a retorce um pouco e é nessa torção que reside seu efeito operatório” (LACAN, Seminário 24, 17/05/77). Torção que é da ordem de uma topologia unilátera, como a banda de Möebius: de um sentido a outro na mesma superfície.

"No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer 
nascimentos - 
O verbo tem que pegar delírio."

(Manoel de Barros, "O Livro das Ignorãças", VII) 

Podemos então perceber que a estrutura do equívoco na interpretação analítica é exatamente igual à da função de onda na física quântica. Tomemos o exemplo do gato de Schöedinger. O gato, assim como o significante, está em um dado estado, em um dado sentido – “vivo” ou “morto”. A ênfase recai nesse “ou”: quando digo uma palavra na análise, quero dizer alguma coisa, e não outra. A interpretação incide na palavra não para dar-lhe outro sentido, nem para buscá-lo enquanto recalcado. A interpretação só serve para exibir o não-senso radical do significante, em que não se sabe se o gato (como significante) está “vivo” ou “morto”; se a palavra é “les non-dupes errent” ou “le nom du père”. A homofonia é um caso dessa lógica. Mas a lógica, para além do caso da homofonia, é uma lógica em que um mesmo elemento, uma mesma partícula, um mesmo e único significante, (o “gato”) está superposto em, no mínimo, duas possibilidades opostas (ou seja, simbólicas enquanto tais) de seu estado: presente/ausente, vivo/morto, ou, como Slavoj Zizek prefere, “undead”. Freud mesmo diz: “a alternativa ‘ou... ou’ nunca se expressa nos sonhos” (FREUD, 2006, p. 679). Esse efeito não é algo que se compreende – até mesmo por ser paradoxal –, mas que se demonstra como tal na sua própria impossibilidade de compreensão. Essa demonstração do impossível é o efeito que a interpretação analítica propõe. Digamos que entre estar vivo ou morto, o gato está “ou”, enquanto puro equívoco entre seus estados quânticos. É para a função “ou”, ou seja, para a função Ψ, que o analista deve apontar como uma bússola na direção do tratamento – para essa região imprecisa e inabordável em que o significante não está nem vivo, nem morto, mas e(qui)voca tanto a vida quanto a morte. O analista não diz o sentido (topológico) do gato: diz o silêncio unilátero do “ou”, apontando, como o São João de Leonardo da Vinci, para o topos impossível e equívoco da função de onda – o ‘horizonte desabitado do ser’:



Há um conhecido verso budista que parece ter sido feito para descrever a interpretação, especialmente se o articularmos com o quadro de Da Vinci:

Quando curiosamente te perguntarem, buscando saber o que é aquilo, não deves afirmar ou negar nada. Pois o que quer que seja afirmado não é a verdade. E o que quer que seja negado não é verdadeiro. Como alguém poderá dizer com certeza o que aquilo possa ser enquanto por si mesmo não tenha compreendido o que é? E, após tê-lo compreendido, que palavra deve ser enviada de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde possa seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece-lhe apenas o silêncio. Silêncio – e um dedo apontando o caminho.

O verso deixa muitas coisas bem claras: quando um analisando pergunta ao analista o sentido de seu sintoma, o analista não responde nem uma coisa (tipo “o gato está vivo”) nem outra (“o gato está morto”). O analista também não compreende. Sua função é apenas apontar para o analisando a experiência de real, ou seja, a experiência do indizível “ou” (“o gato está undead”). E essa experiência é do analisando, não do analista, cuja função é apenas a de apontar o caminho para (o analisando ‘compreender’) o impossível, o indizível. O dizer de um analista tem que apontar para o Silêncio (do) real do ‘horizonte desabitado do ser’: de lá dessa região o analisando traz na sua carruagem simbólica as meias-palavras (já que a verdade só pode ser semi-dita – ou o gato está “vivo” ou está “morto”) que digam dessa experiência – aí sim, reabitando o horizonte do (seu) ser. Se a psicanálise é o tratamento que se deve esperar de um psicanalista, como Lacan diz, a única coisa que se deve esperar de um psicanalista é que ele aponte para esse caminho quando age. De resto, só há psicologia. Poderíamos dizer que a diferença entre a psicologia e a psicanálise é análoga à diferença entre física clássica e física quântica.

Dessa forma, se a interpretação não é feita para ser compreendida, é porque a interpretação não se confunde com compreensão. Isso concerne tanto analista quando analisando. O analista não deve ‘compreender’ o analisando, interpretá-lo hermeneuticamente, kleinianamente; nem o analisando precisa compreender uma interpretação propriamente analítica, pois ela evoca justamente o real, o impossível de compreender. Lacan mesmo já dizia: “uma das coisas que mais devemos evitar é compreender muito, compreender mais do que existe no discurso do sujeito. Interpretar e imaginar que se compreende, não é de modo algum a mesma coisa. Eu diria mesmo que é na base de certa recusa da compreensão que empurramos a porta da compreensão analítica” (LACAN, 1986, p. 90).

Na verdade, esse modo, real, de conceber a intepretação torna a palavra ‘interpretação’ um nome “equivocado” para a operação analítica, já que ‘interpretar’, no dicionário, significa “traduzir [que é propriamente simbólico], ajuizar da intenção, do sentido [que é propriamente imaginário], exprimir o pensamento” (LEXIKON, p. 442). Até porque o próprio do real é justamente não poder ser interpretável, apenas demonstrável: e, por isso, ao contrário, é o real que interpreta, no que ele se demonstra – a interpretação parte do real. Poderíamos então equivocar o nome “interpretação” seguindo a maneira pela qual Lacan passa da intersubjetividade – enquanto a função de comunicação e sentido da linguagem – para a intra-subjetividade – enquanto monólogo e equívoco: “a linguagem não é, ela mesma, uma mensagem” (LACAN, 2007, p. 32). O ‘inter’, que significa entre, implica o Dois, a articulação S1 – S2 que produz o sentido, a mensagem a ser decifrada no inconsciente; já o ‘intra’, que significa para dentro, é da ordem do Um, do equívoco do Um consigo mesmo, sem sentido latente, sem Outro significante. Isso equivale a passar da suposição de que se fala com alguém, que compreende o sentido do que se diz, para a compreensão de que “estou falando com as paredes. Nem com vocês, nem com o Outro maiúsculo. Estou falando sozinho. É precisamente isso que lhes interessa. Cabe a vocês me interpretar” (LACAN, 2011) – com todo o equívoco que a palavra ‘interpretar’ tem aqui: entre o hermenêutico e o psicanalítico. Assim, a operação analítica bem poderia se chamar “intrapretação”, pois não é uma função inter-significantes, de articulação e sentido, mas uma função intra-significante, de desarticulação, indistinção e equívoco – não é da ordem do Dois, mas do Une-bévue, da superposição do Um consigo mesmo, do “caráter bífido do Um” (LACAN, 2012, p. 130). Não se trata de buscar o Outro significante latente, mas de intervir em cada Um significante para equivocá-lo.

Dito isso, o fundamento real da 'intrapretação', analítica como tal, é uma intervenção que requer o qualificador de “quântica”, ou “não-clássica”; a função da interpretação é uma função de onda (Ψ) que incide no significante. “Com efeito, é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera. É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe” (LACAN, 2007, p. 18 – grifo nosso). Ψ tem a estrutura de ressonância do equívoco, da superposição ondulatória de sentidos do significante, tal como a escrita poética para Lacan: “usar a escrita para equivocar pode servir... porque precisamos do equívoco para a análise... Nós precisamos do equívoco, é a definição da análise” (Lacan, Sem. 25, 15/11/77). De modo que a única intervenção que pode ser descrita como propriamente psicanalítica é aquela que tem efeito de uma função de onda – seja isso na escrita, na fala, na imagem, no som, onde quer que seja. Essa intervenção não é para ser compreendida – e nem há como compreendê-la –, basta que demonstre, produza, a hiância real do inconsciente, que faz o significante ressoar como uma onda quântica. Em suma, a intrapretação é feita para produzir um gato de Schrödinger – como MC Escher sempre deixa muito claro em seus trabalhos:


REFERÊNCIAS:

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

SOUZA LEITE, Márcio Peter. Sobre a Interpretação. Disponível em: http://www.marciopeter.com.br/links/ensino/direcao/09_sobre_a_interpretacao.pdf. Acesso em 28/05/2013.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos Sonhos. ESB, Vol. V. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

SANTIAGO, Jésus. O Tempo como Contingência na Experiência Analítica. In: O tempo, o Objeto e o Avesso – ensaios de Filosofia e Psicanálise. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.


CUNHA, Antonio Geraldo da. Dicionário etimológico Lexikon. Rio de Janeiro: Lexikon, 2007.

COUTINHO JORGE, Marco Antonio. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan, vol 2: a Clínica da Fantasia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

___________________________ (org). Aforismos de Jacques Lacan. Disponível em: http://www.macjorge.pro.br/pdfs/intervencoes/textosbreves/Aforismos_de_Lacan.pdf Acesso em 03/06/2013.

LACAN, Jacques. A terceira. Disponível em: http://www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=jlacan031105_2. Acesso em 28/05/2013.

PESSOA Jr., Osvaldo. Conceitos de Física Quântica, Vol. I. São Paulo: Livraria da Física, 2003.

ZEILINGER, ANTON. Experiment and the foundation of quantum mechanics. Rev. Mod. Phys. 71: S288 – 297. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Quantum_superposition. Acesso em 28/05/2013.

LACAN, Jacques. O seminário 1: o escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

LACAN, Jacques. O seminário 19: ...ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.

LACAN, Jacques. O seminário 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

LACAN, Jacques. O seminário 24: L’Insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Inédito.

LACAN, Jacques. O Seminário 25: O momento de Concluir. Inédito.

______________. Estou falando com as paredes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011.

NETO, Nelson Pinto. Teorias e interpretações da mecânica quântica. São Paulo: Ed. Livraria da Física, 2010.