Caetano Veloso pode ser o que as pessoas quiserem, visto que há opiniões completamente simétricas sobre ele: um chato, um pedante, um musiquinho, um intelectual, um grande músico, e etc. No entanto, sendo ele tudo isso, ou independente disso, Caetano pode nos transmitir psicanálise, no entanto, sem ensiná-la.
É que a canção "O Quereres" (que na minha opinião é uma das mais criativas e lúcidas já produzidas) descreve com muita clareza a lógica do inconsciente, no que a lei do significante se articula à pulsão. Toda a canção lida com jogos de palavras em oposição. Mas ele determina a oposição entre uma palavra e outra simplesmente pelo sentido que dá a elas. Acompanhemos:
"Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres 'não'
Onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
Onde queres o chão minh'alma salta
E ganha liberdade na amplidão"
Caetano joga o tempo inteiro opondo uma palavra a outra. Mas há palavras que ele usa que não têm significação oposta no seu uso comum. Um revólver não é um oposto de coqueiro: essas palavras não têm antônimos! Como é que a arte faz então? Ela diz que 'revólver' é a mesma coisa que 'guerra' e coqueiro é o mesmo que 'paz'; aí, sim, há uma relação de oposição. É o famoso 'sentido figurado', o sentido metafórico das palavras... Com isso, Caetano mostra que é possível opor qualquer palavra a qualquer palavra, com a condição de se manejar com precisão lógica os sentidos com que se as dotam, com os sentidos que se adotam...
Só que o que a psicanálise descobriu é que nenhuma palavra em si tem sentido, a não ser em uma relação com outra. É o que Lacan chamava de relação simbólica, relação de identidade de algo por sua alteridade, pela sua Outridade. O trabalho do sonho, por exemplo, ou o trabalho do sintoma, eram a formação de sentido a partir de dois significantes que tinham que se significar mutuamente, mas esses significantes podem significar uma miríade de sentidos, o que leva a supor que o sentido que se os dá depende apenas de seu uso na relação simbólica, não tendo antes desse uso sentido algum.
Sabemos pela psicanálise, também, que o imaginário insiste em dar unidade às coisas, em supor que haja 'propósito', 'destino', ou qualquer sentido. E os sentidos se fixam nos corpos, formando sintomas deles, quer dizer, formações estacionárias que só querem se manter, se repetir (como automaton sintomático). Mas o Real vem para abolir o sentido em prol de Outro. E o Real é a própria demonstração de que há outro sentido para qualquer relação de significação. E Lacan é textual: "Eu garanto que, numa frase, se possa fazer com que qualquer palavra venha dizer qualquer sentido". É uma frase de impacto! É apenas pela via da neutralização do sentido que a palavra perde consistência. E é precisamente o que Caetano faz. Esvazia o sentido de 'revólver' e injeta-lhe 'guerra'; da mesma forma, de 'coqueiro' passa-se a 'paz'. Então, isso tudo implica que só há sentido figurado, porque se qualquer palavra pode ser qualquer outra (por ser vazia), sempre é necessário dar sentido (ou seja, fazer metáfora) aos significantes para dizer algo. O que ma leva a supor que o sentido literal é não-sentido. Literal é x=x. Como disse Gertrude Stein: "Uma rosa é uma rosa é uma rosa". Ora, o princípio da identidade é derrogado na lógica do significante, uma vez que só a alteridade pode fazer sentido, fazer metáfora, significar outra coisa além (ou aquém) de si mesma.
Toda relação simbólica é relação de oposição. S1 e S2 não têm conteúdo. O que interessa é que há um vazio e outro vazio, há uma diferença pura, relação que poderíamos chamar de x e -x. Poderíamos chamar também de esquerda ou direita. Ou de revólver e coqueiro. Posso dar o nome que eu quiser a essa oposição, a essa diferença entre uma coisa e outra, o que conta é que essas duas coisas não são a mesma. E são opostas porque, se não for 'uma coisa', obviamente será a 'não-uma-coisa', o seu negativo, oposto, a "outra coisa". Ou seja, como nos mostra Caetano, 'revólver' é oposto de 'coqueiro'. E Caetano mostra que, na estrutura, paralém dos conteúdos que damos às palavras, o que resta é a relação de oposição, visto que em todas as linhas ele dá os sentidos das palavras para que elas tenham um 'sentido figurado' de oposição. Da mesma forma, dinheiro (que compra as coisas) e a paixão (que não pode ser comprada); desejo (incansável até ser realizado) e o descanso; o desejo (afirmação do desejado) e o não (negação do desejado); e etc.
"Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o louco, eu sou irmão,
E onde queres caubói, eu sou chinês
Ah, bruta flor do querer"
A estrutura básica do texto é que, diante do desejo do Outro (Lacan), só se consegue ser o oposto desse desejo: 'Onde queres uma coisa, sou seu oposto'. O desejo do Outro nunca é atingido; porque se 'o desejo do homem é o desejo do Outro' como disse Lacan, e o desejo desse homem está submetido à lei do significante, isto é, à lei da interpretação, do equívoco, só se deseja o que se interpreta que o Outro deseja. Interpretar o que o Outro deseja só pode ser falho porque o que se supõe (e só pode-se supor pela linguagem) de Seu desejo pode ser equivocado. Ou seja, nunca interpretamos corretamente o desejo do Outro e assim não podemos evitar ser exatamente o contrário desse desejo. Quando supomos algum significante como significante do desejo do Outro esquecemos (recalcamos) que esse significante é passível de auto-diferença, que cai em sua oposição. E é exatamente lá que residem as singularidades de cada sujeito: não se fazer o objeto literal do desejo do Outro, mas sim opor-se a ele, porém numa relação (simbólica) com ele.
Volto a ressaltar que a poesia do texto de Caetano está em que ele cria relação de oposição com palavras que não têm antônimos ao equivocar os sentidos dessas palavras. Leblon não é o oposto de Pernambuco, porém Caetano mostra que é, sim, já que Leblon é chique, sofisticado e Pernambuco é rústico e tosco; a cultura chinesa é tão diferente da de um caubói americano que elas se opões simplesmente por não terem nada a ver uma com a outra.
"Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és"
A estrutura da pulsão é catóptrica (katoptron, grego: 'espelho'), ela requer apenas o seu oposto, que é não existir mais, não viver mais, não ser mais pulsão. Mas isso ela não consegue, a não ser na 'morte' (apesar de que isso não existe - mas é assunto pra depois), por isso Freud a chamou de Pulsão de morte - aliás, a única que há. Como o significante também se catoptriza, nenhum significante que se coloca como lugar do objeto da pulsão é absoluto, sempre recaindo no seu oposto, como está nas duas últimas frases: o Outro não me quer como sou e nem se quer como é. Quer dizer, nem o que sou, nem o que és são o objeto do desejo (do homem e do Outro): tudo o que é não é objeto. Nada é objeto.
"Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim"
Com essa letra de música, Caetano nos transmite a lógica do significante sem precisar de explicar uma palavra de psicanálise (isso eu que tive que fazer). "O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual " é simplesmente a condição do sujeito, representado de significante a significante, diante do Outro, que só deseja o que não é, só deseja Outro significante, porque nenhum significante é completo, em si mesmo (S de A barrado).
Pra finalizar, o título. "O quereres" mostra que os vários 'desejos' que temos, resumem-se, na verdade, ao desejo sempre frustrado que a pulsão tem de desaparecer; e como ela não consegue, surgem vários significantes que tentam ocupar esse lugar de ser O objeto. O artigo definido "O" refere-se a esse único desejo que há: de morte. E o "quereres" diz dos gozos possíveis pela via do significante.
Mas já que não dá pra sumir ("mé funai", diria Édipo), gozemos com o que quer que haja por aí mesmo...
Velho, muito bom você ter usado uma linguagem tão acessível sobre um conteúdo o qual muitas vezes difícil de ser explicado.
ResponderExcluirAcho q tá na hora de vc escrever um livro. Um livro não acadêmico, mas q mostre o que se conhece em psicanálise e q seja acessível a todos, assim como Lacan não fez na psicanálise e como Stephen Hawking fez na fisica.
Me ajudem a compreender português
ExcluirTou aqui pra isso
ExcluirKátia Rosalva no Facebook
(eu adorei o comentário do colega acima.) eu acho que você tem o dom didática da psicanálise. e isso é muito muito muito raro de encontrar. é bom dialogar sobre com você.
ResponderExcluirEm verdade esta psicanálise da estrutura da musica de caetano,não leva em consideração a estruturação do pensamento a partir do abstrato.
ResponderExcluirMuito sem criatividade
ResponderExcluirVocê que não sabe trouxa
ExcluirSEUS PRATINA DE BOSTA ELLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL GAAAAATO
ResponderExcluirTosco é teu cu
ResponderExcluirainda bem que não foi só eu que achei isso, chamou PE de tosco, sério isso??!
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