No final de seu ensino, Lacan poliu a conceituação ética da psicanálise através de sua enodação ao que era (im)possível de saber do inconsciente. Ele dizia que a verdade não se pode dizer toda, pois que a lei do equívoco significante e seu real neutro impedem que haja um todo do conjunto significante (S de A/). Por isso, a verdade só pode ser meio-dita, o que implica só haver meias-verdades: tudo o que se diz se contamina de engano (L'une-Bévue).
E é a partir das meias-verdades que Lacan estatui sua ética psicanalítica: se não se pode dizer o real por inteiro, é necessário Bem-dizê-lo. E isso é estar em constante referência ao saber inconsciente, na medida de seu possível, e não em seu rechaço, o que Lacan considera uma covardia moral. Ou seja, uma vez que saber tudo é impossível, que se faça desse impossível de dizer um dizer possível sobre o não sentido do saber. E saber-fazer esse bendizer (ou bendizer esse saber-fazer) é sempre se referir ao "saber de não-sentido" promovido por Lacan, quer dizer, ao equívoco do inconsciente, à divisão do sujeito. Divisão essa que sabemos ser entre um significante que o representa junto a outro significante, o sujeito habitando esse intervalo; ou melhor, o sujeito é o intervalo mesmo, o que está no-meio de um e outro nome de seu gozo: e por isso é melhor dar um bom nome a esse gozo para que o sintoma recrudesça e passe a outros modos (simbólicos) de seu real. Lacan chega mesmo a dizer que "só há ética do bem dizer", o que me leva a supor que paralém (ou paraquém) dessa ética há apenas moral (civilizada ou não).
MD Magno, em sua Est'Ética da Psicanálise (Seminário 89), diz que a ética da psicanálise é a do bom entendedor: meia palavra basta, no que o significante se equivoca (meia-palavra) e evoca outro significante. Mas quero aqui subverter o sintagma, visto que é a boa palavra (quase diria palavra plena, segundo o primeiro Lacan) que divide o sujeito e o confronta com sua falta (de consistência) constituinte; uma ética que se diga psicanalítica deve seguir esse expediente: para meio entendedor ($), boa palavra basta (para bendizer a maldi(c)ção sintomática).
Socorro, menino! Quantos blogs sem sentido sensacionais vc tem?! Achei lindo esse sem-tido que transbordou em mim sem eu saber de onde e como! Sua escrita revela e desvela as coisas terrivelmente belas de existir e ser em falta! Que bonita essa fruição ética ! Bia
ResponderExcluirOi querido, descobri seu blog por um acaso meio mallarmeico....risos! Não conheço vc, mas me causa e interroga
ResponderExcluiraquilo que escreve! Sou analista lacaniana também e mineira também , mas estou em Sao Paulo. Vou lendo vc e gostando mais. Escreva sempre! Um abraço :Bia