segunda-feira, 1 de março de 2010

Ninguém aprende a falar

Você aprendeu a falar? Será que você consegue dizer tudo o que você quiser? Tudo o que pensa? Penso que não.
Freud descobriu que as pessoas não sabem o que dizem, porque elas não sabiam porque sofriam. Tentavam dizê-lo, mas fracassavam; ou diziam outras coisas ou diziam "não sei". Mas Freud não o aceitava: tinha que haver uma causa para o sofrimento. Como só-depois de algum tempo elas conseguiam saber as causas de seus sintomas, Freud chamou esse (não-)saber de Unbewusst - inconsciente. Mas descobriu que L'une-Bévue tinha um buraco, um-bigo, impossível de abordagem (topologicamente falando), impossível de s'escrever, vazio que se faz objeto de nosso desejo. Lacan chamou isso de objeto a, o objeto do qual não se tem ideia (A Terceira), indizível, porém causa de desejo. Tudo o que se diz é para tentar dizê-lo e Lacan funda sobre isso toda uma ética da psicanálise, na qual parte-se do princípio que o inconsciente não pode dizer-se todo. Se o inconsciente pudesse dizer-se por completo, haveria o objeto a, e seríamos alguma coisa... mas o objeto-não-.
O objeto a é o objeto da pulsão, é o objeto do desejo (LACAN, Seminário 11, p. 229). Se pudéssemos dizer tudo, a pulsão teria (também no sentido de possuir o) objeto. Todos os objetos parciais que a pulsão rela (Lacan diria contorna) são relativos, e não absolutos; quando se o rela, ele passa pra Outro. Nenhum deles são objetos do desejo da pulsão, mas sim de seu gozo. Só Um objeto do desejo: "que não haja". Enunciação fantasmática que só quer o impossível, mesmo que o impossível não haja. Tudo o que todo mundo deseja é que não haja (desejo). Isso é a Pulsão de morte, que Freud achava ser uma tentativa de retorno ao inanimado, mas não é nem um retorno e nem ao inanimado. Era pra ser uma ida sem volta, porém sempre se frustra; o que retorna é a existência, o Haver (conceituado por MD Magno), o próprio movimento pulsional. A Pulsão não deseja existência, apenas goza dela (porque não há Não-Haver pra ela ir, não há outra coisa do que gozar; só se goza de 'dentro' do Haver).
Em sendo impossível dizer tudo (ou seja, dizer o Haver e o Não-Haver [que já é impossível de saída]), Lacan afirma que é necessário então Bem-Dizer o Haver. Mas isso não significa conseguir dizer todo o Haver. Bem-Dizer o Haver é produzir o que o francês chamou de "saber de não sentido" (o qual ele ainda afirma ser o único que há - "Televisão"), o equívoco que constitui a lei do significante, e o saber que emerge por intermédio desse equívoco. Quer dizer, o Haver não é todo dizível: "o Bem-Dizer não diz onde está o Bem" (Ibid.). Nada é tudo na lógica do significante. É sempre possível dizer algo que não se sabia, e se a análise serve pra algo, é para isso. Nosso acesso ao real é dublado pelo simbólico, que o fragmenta em significantes, cuja lógica não faz o Um real.
Por isso é sempre possível criar coisas que até então não foram ditas, seja individualmente, seja culturalmente. Por isso nenhuma língua está acabada: ela vai se dizendo, criando gírias, ditos populares, etc.
As pessoas fingem (sem-blante) que sabem falar, especialmente com os outros. Mas bota ela deitada pra falar de "si": gagueja e engasga. E ela não sabe o que diz. Por isso, ninguém aprende a falar: sempre erramos nas escolhas das palavras.

Um comentário:

  1. Olá Bernardo!
    Encontrei teu perfil entre os seguidores do 'Cine Freud' e vim agradecer!

    Gostei muito desta postagem. Freud e Lacan são dois autores dos quais me interesso muito e achei super interessante a maneira acessível e contundente como abordou tais conceitos!

    Um grande abraço!

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