terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A psicanálise se autoriza de si mesma

"O Tao é vazio, mas inesgotável"

(Lao-Tsé, "Tao Te King", #4)

"Conhecer o Não-saber é elevação.
Não saber esse Conhecimento é doença."
(Ibid., #71)



O que é a psicanálise? Lacan dizia que essa pergunta responde a si própria, já que a psicanálise é essa própria questão. Sabemos que Freud queria de tudo quanto é jeito dar um estatuto científico pra psicanálise, tanto que fez um livro renegado por ele mesmo, chamado “Projeto para uma psicologia científica”. Tá na cara que deu com os burros n’água, pois não conseguiu dar esse estatuto a ela. Psicanálise é algo que oscila entre psicologia, filosofia e até mesmo mágica, como já chegou a dizer um cientista chamado Richard Feynman...

Podemos dizer que a psicanálise é ciência? Depende do que se considera que seja ciência. O que é ciência? É só recorrer aos milhares de livros de epistemologia para descobrir que há uma constelação de definições, altamente contraditórias. Quem tradicionalmente se ocupa disso é a filosofia, que fica em palpos de aranha pra (não) dar conta do recado. Mas gente como Kuhn e Feyerabend, por exemplo, mostram como que a ideia de objetividade simplesmente não se sustenta objetivamente...O que há são apenas ‘pluralismos culturais’, dentre os quais a ciência dita ‘objetiva’ é vista como apenas um caso dentre os inúmeros modos de conhecer.

Ora, se a própria ciência já não consegue entender a si mesmo, tadinha, como é que a psicanálise fica? Se a própria ciência tem dúvidas sobre seu estatuto científico, como é que a psicanálise poderia se atrever a supor que seu próprio fundamento seria científico? Lacan, junto com Popper, dizia que a psicanálise não poderia ser ciência, por causa do critério de demarcação de Popper, que diz que se uma hipótese (como a do inconsciente) não puder ser testável, ou seja, falsificável, não é ciência. Ok, mas esse é o modo que Karl Popper, aquele ser humano, entende o que é e o que não é ciência. Mas tivemos desde então Kuhn, Feyerabend... Ou seja, dizer que a psicanálise não é ciência também não serve, pois se ela souber o que não é ciência, é porque ela sabe o que é. E achar que se sabe, objetivamente, o que é ciência é ser pouco científico...

Então, dizer que a psicanálise é ciência não serve; dizer que ela não é, também não. O mínimo que devemos fazer então é não procurar fundamentar a psicanálise num discurso ‘científico’: há que se achar outro lugar pra ela.

Seria então filosofia? Lacan, curiosamente chamava a psicanálise de filosofia. Só que ao contrário: ela seria uma anti-filosofia. Isso porque, ao contrário da produção grega, a psicanálise estaria em outro discurso, avesso ao sentido – charco no qual se banha a filosofia, com, por exemplo, Heidegger e seu sentido do Ser... Outro modo de dizer que a filosofia nada tem a ver com o real, já que ele é precisamente o que não pode ser filosofado. Mas o curioso é que Lacan tenha definido a psicanálise, nesse aspecto, por uma denegação: ‘a psicanálise não é uma filosofia’, tipo o cara que sonha com uma mulher e diz: ’não é minha mãe’...

Se a orientação da psicanálise é em torno do real, ou seja, do que é impossível de ser escrito, dito, visto, entendido, etc., e a filosofia tenta justamente falar ele (tipo ‘o que é o ser?’, ‘o que é ético’...), a psicanálise não pode ser uma filosofia mesmo. Isso porque o real que a psicanálise visa é uma experiência, e, como tal, indizível em si mesma, absolutamente arrebatadora de qualquer palavra, de qualquer discernimento. O que a psicanálise precisa entender é qual o estatuto dessa experiência (não-científica) de indizível, de ausência de lei. E esse estatuto não é fundamentável cientificamente nem filosoficamente, já que ambas se mostraram um desastre nesse papel.

Ora, o que sobra, então? A psicanálise é o quê? Ela é alguma coisa? Ou não responderemos à pergunta? Como indagar sobre o estatuto do real que a com-cerne? Lacan diria que essa é uma pergunta louca, mas também diria que “há que ousar formulá-la como tal, para afirmar de que modo, seguindo a experiência instituída, poderiam surgir proposições a ser demonstradas para sustentá-la” ("Escritos", p. 535).

Em seu seminário 20, Lacan fala sobre santa Tereza D’Àvila e São João da Cruz, que tiveram experiências limítrofes na linguagem (como ‘experimentar Deus’, ou seja, experimentar a falta de sentido do real) e retornar com uma ‘jaculação mística’, como diz Lacan, ou seja, um testemunho, em linguagem, de uma experiência para além dela. “É claro que o testemunho essencial dos místicos é justamente o de dizer que eles o experimentam, mas que nada sabem dele” (p. 82). É esse tipo de testemunho que a psicanálise visa: conduzir o sujeito ao real, para que então ele possa contar a sua singular experiência ‘de Lá’, após retornar para o simbólico que corre na análise. Mas essa não é uma experiência abordável nem científica, nem filosoficamente. E nem mesmo psicanaliticamente... Nada do que se diga é capaz de esgotar o escopo do indizível - como diz o sábio Lao-Tsé (#4).

Ser afetado pelo real é ter uma experiência incomunicável de ‘despertar’ da realidade, na qual nos chafurdamos sintomaticamente, para o vazio de seu sentido, ou seja: ter a experiência real de contingência de uma realidade, e não de sua necessidade. O sintoma, enquanto realidade, se impõe como uma necessidade, sempre se repetindo, nunca deixando de comparecer. Tocar o real (que é o mesmo que ser tocado por ele) é experimentar esse sintoma como uma contingência, ou seja, como algo que não é necessário. Pois o real é a única necessidade; realidades são contingentes – quaisquer que sejam. A ilusão, o imaginário, que há na realidade é tomá-la por necessária, e a suspensão da realidade lograda no despertar é a experiência de que as realidades são necessariamente contingentes.

A incomunicabilidade dessa experiência, a sua impossibilidade de ser falsificável (pra ficarmos apenas com um critério de cientificidade), indemonstrável (no sentido filosófico) e indizível (no sentido psicanalítico) impõe que a psicanálise não tente reduzi-la a epistemologias com seus ‘critérios de demarcação’ ou demonstração, e a mantenha no seu lugar: inabordável. Inabordável significa ‘sagrado’, que vem do latim sacer, ‘lugar reservado e respeitável’ (Dicionário etimológico Lexikon, p. 697). De modo que a experiência do real é uma experiência sagrada, inabordável, e falar dela, como o fizeram santa Tereza e São João da Cruz, é ‘ganir diante do Nada’, como diz Hilda Hilst, em “Do Desejo”.

Como não há garantias científicas e nem filosóficas para estatuir a experiência psicanalítica, que nome podemos dar a seu estatuto? Começo pela definição desse nome: “em que há mistério ou razão incompreensível” (segundo o Priberam). De modo que o mínimo que podemos afirmar sobre o estatuto de atingimento de um real é que ele é místico: não sabemos o que ocorre na experiência de real, nem como ela se dá. E reduzi-la a ser científica ou filosófica é confundir a realidade de cada um desses conhecimentos com o conhecimento da experiência do real (Lao-Tsé #71).

Porém, aqui, trata-se de uma mística do vazio, e não de uma mística religiosa, que sempre coloca uma máscara no real e chama-o de Deus, ou Alá. Pelo contrário, a mística psicanalítica é Arreligiosa, pois não coloca no lugar do real nem Deus, nem a Ciência, nem a Filosofia. Ela aponta para o lugar sagrado, e nisso ela é religiosa: justamente porque aponta o sagrado. Mas é como o dedo de São João Batista no último quadro pintado por Da Vinci: apontando para uma região imprecisa, indiscernível, em que é impossível dizer para onde. Apontando para o lugar Nenhum: onde o real há. Como a psicanálise pretende não colocar conteúdos nesse lugar, ela é Arreligiosa: não há saber, seja ele de qualquer religião (incluindo aí a ciência, a filosofia, qualquer discurso), que coincida com o real. A mística é o que melhor explicita a inefabilidade da experiência psicanalítica, e é por isso que ela é o que expressa de maneira melhor (ou melhor, de maneira menos pior...) o estatuto da experiência do real, de onde a psicanálise parte. É como Clarice Lispector reescrevendo a vida após tropeçar num rato morto. Sabe-se lá como ou porque aquilo foi um despertar para ela naquele momento; poderia ter passado em branco. E sua escrita foi sua jaculação mística, tentando explicar a sua experiência de real.

Se chamo a psicanálise de mística aqui é para que ela não tenha que fundamentar sua experiência em moldes científicos ou filosóficos, pois que a lógica real do inconsciente tem o escopo muito maior do que essas lógicas. “É preciso estabelecer um discurso da psicanálise que dê conta de si mesmo. Não se trata de isolacionismo, e sim de dar conta pelo menos de seu próprio discursar, e em cima de algo que não se possa contestar a partir de externalidade alguma [como ciência, filosofia], o que é mais difícil” (MAGNO, 2006, p. 142). Poderíamos dizer, uma vez que, segundo Lacan, o psicanalista se autoriza de si mesmo - com ou sem outro que lhe diga que ele é analista -, que a psicanálise se autoriza de si mesma - com ou sem ciência ou filosofia que a digam o que é ser psicanálise. 




"Quando curiosamente te perguntarem, buscando saber 
o que é aquilo,
Não deves afirmar ou negar nada.
Pois o que quer que seja afirmado não é a verdade
E o que quer que seja negado não é verdadeiro.
Como alguém poderá dizer com certeza o que aquilo 
possa ser
Enquanto por si mesmo não tiver compreendido plenamente o que é?
E, após tê-lo compreendido, que palavra deve ser enviada de uma região
Onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha 
por onde possa seguir?
Portanto, aos seus questionamentos oferece-lhes apenas o silêncio,
Silêncio – e um dedo apontando o caminho."
(Verso Budista)

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