Quando ouvi dizer que Michael
Haneke tinha lançado um filme que se chamava “Amor”, fiquei com a pulga atrás
da orelha. Com certeza, não seria nada daquela imagem que todos fazem do
amor, como a coisa mais pura e humana que existe; não, eu esperava alguma
porrada, algum soco, algum pontapé – já que essa é uma de suas marcas
registradas.
O casal de idosos Anne e Georges
vivem uma vida simples, vão a um concerto de piano, chegam em casa, trocam
palavras carinhosas, e todo aquele imaginário que temos sobre dois velhinhos
que foram a vida inteira casados e vivem uma velhice feliz, que é o que todos nós
imaginamos quando amamos, certo?
Até que aquilo que Freud chamava
de “O Estranho” surge; uma manhã, os dois tomando café enquanto Georges contava
uma história. Anne não reagia, não falava, não tinha expressão fisionômica
alguma, nem se movia; era como se estivesse morta, de olhos abertos, na mesa de
jantar. Georges sacudiu-a, e nada. Foi até o quarto para se trocar e leva-la ao
hospital, e quando voltou ela continuava seu café como se nada tivesse acontecido,
o que gerou um mal-entendido sobre o que de fato havia ocorrido: ambos
estranharam a situação. O assunto foi então deixado de lado.
Mas o que havia ocorrido foi um
entupimento da carótida; Anne precisou se submeter a uma operação que não teve
muito sucesso e ficou paralisada no seu lado direito; era, a partir daí alguém
que precisaria de cuidados especiais para o resto da vida (cuja expectativa já
não era muito mais longa, devido à idade já avançada).
E aqui começa a entrar o gênio de
Haneke para retratar a prova de amor Georges para com Anne. Um dos grandes
sintomas do diretor em seus filmes é fazer tomadas longas, em que a cena onde
algo está acontecendo não aparece na imagem: Haneke costuma esconder da cena
momentos cruciais da narrativa, como em “Violência Gratuita” onde um
espancamento que ocorre na cozinha é ‘mostrado’ com uma imagem da sala de estar
onde uma TV está ligada passando futebol americano, e o som do espancamento ao
fundo. De modo que, como ele mesmo diz: “Ao mostrar ou não mostrar certas
situações você pode tornar um filme insuportável para o público”. Se no caso de
Violência Gratuita era o não mostrar que causa o horror, em “Amor”, é
justamente o contrário: ele mostra de maneira excessiva o amor, nos momentos
mais insuportáveis; quando Georges ajuda Anne a fazer um movimento dos mais
simples, o de sair da cadeira de rodas para se sentar numa poltrona, por
exemplo; ou quando ela tem que atravessar uma sala de 3 metros para chegar à
cadeira de rodas, o que leva uma eternidade; quando ela vai ao banheiro e ele
lhe veste. Enfim, todas as dificuldades locomotoras de alguém incapacitado para
tal, que geram uma lentidão, dificuldade e angústia enormes são mostrados até o
último segundo por Haneke, o que torna o filme muito difícil de assistir. É um
suplício, mostrado na lentidão da sua temporalidade. Haneke gosta disso, tendo
dito que a cena ideal de um filme é a que faça o espectador não querer assisti-la...
Cada vez mais o estado de Anne se
deteriora, a ponto de não conseguir articular mais as palavras para formar
frases coerentes – perde a capacidade de fala. Além disso, grita o dia inteiro
de dor, apenas parando quando Georges vem, acaricia sua mão esquerda e conta
histórias ou canta pra ela.
Como se vê, Georges ajuda a
esposa em todos os sentidos: na saúde e na doença, no melhor e no pior, etc. Quando
retornou do hospital, após a cirurgia, Anne fez Georges prometer nunca mais levá-la
a um hospital. À medida que seu estado piorava, manifestou o desejo de não
seguir vivendo assim, que seria melhor morrer, para não ter que passar por uma
situação tão difícil, e nem fazer o marido passar por ela também.
Goerges faz tudo o que é preciso
para dar à sua esposa uma vida que seja um pouco digna, dentro das condições em
que se encontram, com muita dedicação, com muito amor – por mais difícil que
isso lhe seja. Pois, como mostra Haneke – com requintes de crueldade –, os
momentos em que é mais preciso amar são exatamente os mais insuportáveis, de
modo que o próprio amar torna-se insuportável. Ficar 24 horas por dia tendo que
cuidar muito mais da vida de outro do que da própria, lidando com gritos, dor,
excrementos, é enlouquecedor. Georges estava cansado e mal dava conta de continuar a cuidar de sua esposa: ele próprio precisava de cuidados.
Durante o filme, e por já
conhecer um pouco da obra do diretor, comecei a me questionar. Georges estava
amando demais, fazia tudo, vivia para manter a vida da esposa. Mas e a sua
própria vida? Esse era o preço que ele estava pagando por esse amor. E, como a
psicanálise mostra que não há amor sem ódio, fiquei esperando pelo surgimento
do ódio no filme. Tudo na relação de Georges para com a situação de Anne era
apenas amor – mas onde estava o ódio, contraparte inseparável do amor? Essa é uma questão clínica.
Anne começou a recusar
alimentação – com certeza a situação estava ficando mais e mais insuportável
para ela também. Georges insistiu em dar-lhe água até que ela cuspiu-a em sua
cara. Nesse momento, Georges a bateu. Cena nada imaginária: um velho batendo
numa velha moribunda.
Em outra situação, enquanto acalmava
Anne em uma das crises de gritos de dor, Georges contava uma história sobre uma
situação insuportável de sua infância. A história era longa, a cena torturante
de uma impossibilidade de acabar de vez com o sofrimento de Anne se arrastava –
até que repentinamente, Georges pega o travesseiro e asfixia Anne até a morte.
O filme se chama “Amor”, mas
poderia muito bem ser chamado de “Ódio”. Isso porque o que é essencial na mente
humana é justamente a possibilidade de efetuar a função contrária do que se
comparece. É o que Freud chamou de ambivalência da mente. “Em quase todos os casos
em que existe uma intensa ligação emocional com uma pessoa em particular, descobrimos
que por trás do terno amor há uma hostilidade oculta no inconsciente. Esse é o
exemplo clássico, o protótipo, da ambivalência das emoções humanas” (FREUD, “Totem
e Tabu”). O fundo do inconsciente não comporta oposições, de modo que nunca existe
apenas amor em uma relação: a sua contraparte há, mas está recalcada. Ou seja,
todos aqueles gestos de amor insuportável por parte de Georges também eram compostos
de ódio pela própria esposa, por ela estar em uma situação que, mesmo não sendo 'culpa' dela, vem dela. Mas como Georges não se permite culpá-la por estar doente, enfatiza ainda mais seu amor, a um custo muito grande, o de abandonar os próprios
afazeres, a própria vida, em prol da vida dela – sintomas de sua própria culpa
por também odiá-la por privá-lo da vida que antes tinham. Não quero com isso
dizer que o que ele verdadeiramente sentia era ódio, mas, sim, que não era
apenas amor, pois em nenhuma relação existe apenas o amor, tal como também
nunca existe apenas o ódio. O inconsciente é interesseiro e decide amar ou
odiar de acordo com conveniências. Penso que é nisso que reside o maior valor
do filme, pois é um filme sobre o amor, mas não sem uma crítica a ele. Haneke
diz que se interessa em fazer uma análise da obra dentro da própria obra, e
nisso “Amor” não decepciona: mostra o que há de ódio nessa imagem que fazemos
de amar.
Por isso, digo que Haneke ocupa a
posição analítica em seus filmes: quando se pensa estar seguindo determinado
caminho, determinado sentido no andamento do filme, ele coloca a posição
antitética, o sentido oposto, naquele mesmo caminho que se percorria. E isso é
a base da técnica analítica, que poderíamos dizer, junto com MDMagno, que se
expressa mais ou menos assim: “sempre que um homem lhes colocar uma questão,
respondam com seu antônimo, de modo que um par de opostos se formará, como ir e
vir. Quando a interdependência de ambos é inteiramente abolida, não há, em
sentido absoluto, nem ida nem vinda. Se alguém estiver fixado em uma visão,
desafiem-no com a visão oposta – não para convertê-lo a esta visão, mas para deslocá-lo
de todas as visões de mundo de modo a poder escapulir entre elas”.
Podemos chamar o assassinato de
Anne de crime de amor. Claro que Georges queria acabar com o sofrimento de Anne
por amor a ela, mas também queria acabar com o próprio sofrimento, por ódio a
ela - como se diz 'tirá-la de sua miséria', com toda a ambivalência que a frase comporta. É precisamente a grande cena ambivalente do filme: ele a mata por amor ou por ódio? Lacan tem uma frase que
diz: “não conhecer de modo algum o ódio é não conhecer de modo algum o amor”
(Seminário 20, p. 95). Concluo dizendo que, até por ter odiado Anne, Georges amou-a.
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