domingo, 27 de janeiro de 2013

Quem ama, odeia


Quando ouvi dizer que Michael Haneke tinha lançado um filme que se chamava “Amor”, fiquei com a pulga atrás da orelha. Com certeza, não seria nada daquela imagem que todos fazem do amor, como a coisa mais pura e humana que existe; não, eu esperava alguma porrada, algum soco, algum pontapé – já que essa é uma de suas marcas registradas.

O casal de idosos Anne e Georges vivem uma vida simples, vão a um concerto de piano, chegam em casa, trocam palavras carinhosas, e todo aquele imaginário que temos sobre dois velhinhos que foram a vida inteira casados e vivem uma velhice feliz, que é o que todos nós imaginamos quando amamos, certo?

Até que aquilo que Freud chamava de “O Estranho” surge; uma manhã, os dois tomando café enquanto Georges contava uma história. Anne não reagia, não falava, não tinha expressão fisionômica alguma, nem se movia; era como se estivesse morta, de olhos abertos, na mesa de jantar. Georges sacudiu-a, e nada. Foi até o quarto para se trocar e leva-la ao hospital, e quando voltou ela continuava seu café como se nada tivesse acontecido, o que gerou um mal-entendido sobre o que de fato havia ocorrido: ambos estranharam a situação. O assunto foi então deixado de lado.

Mas o que havia ocorrido foi um entupimento da carótida; Anne precisou se submeter a uma operação que não teve muito sucesso e ficou paralisada no seu lado direito; era, a partir daí alguém que precisaria de cuidados especiais para o resto da vida (cuja expectativa já não era muito mais longa, devido à idade já avançada).

E aqui começa a entrar o gênio de Haneke para retratar a prova de amor Georges para com Anne. Um dos grandes sintomas do diretor em seus filmes é fazer tomadas longas, em que a cena onde algo está acontecendo não aparece na imagem: Haneke costuma esconder da cena momentos cruciais da narrativa, como em “Violência Gratuita” onde um espancamento que ocorre na cozinha é ‘mostrado’ com uma imagem da sala de estar onde uma TV está ligada passando futebol americano, e o som do espancamento ao fundo. De modo que, como ele mesmo diz: “Ao mostrar ou não mostrar certas situações você pode tornar um filme insuportável para o público”. Se no caso de Violência Gratuita era o não mostrar que causa o horror, em “Amor”, é justamente o contrário: ele mostra de maneira excessiva o amor, nos momentos mais insuportáveis; quando Georges ajuda Anne a fazer um movimento dos mais simples, o de sair da cadeira de rodas para se sentar numa poltrona, por exemplo; ou quando ela tem que atravessar uma sala de 3 metros para chegar à cadeira de rodas, o que leva uma eternidade; quando ela vai ao banheiro e ele lhe veste. Enfim, todas as dificuldades locomotoras de alguém incapacitado para tal, que geram uma lentidão, dificuldade e angústia enormes são mostrados até o último segundo por Haneke, o que torna o filme muito difícil de assistir. É um suplício, mostrado na lentidão da sua temporalidade. Haneke gosta disso, tendo dito que a cena ideal de um filme é a que faça o espectador não querer assisti-la...

Cada vez mais o estado de Anne se deteriora, a ponto de não conseguir articular mais as palavras para formar frases coerentes – perde a capacidade de fala. Além disso, grita o dia inteiro de dor, apenas parando quando Georges vem, acaricia sua mão esquerda e conta histórias ou canta pra ela.

Como se vê, Georges ajuda a esposa em todos os sentidos: na saúde e na doença, no melhor e no pior, etc. Quando retornou do hospital, após a cirurgia, Anne fez Georges prometer nunca mais levá-la a um hospital. À medida que seu estado piorava, manifestou o desejo de não seguir vivendo assim, que seria melhor morrer, para não ter que passar por uma situação tão difícil, e nem fazer o marido passar por ela também.

Goerges faz tudo o que é preciso para dar à sua esposa uma vida que seja um pouco digna, dentro das condições em que se encontram, com muita dedicação, com muito amor – por mais difícil que isso lhe seja. Pois, como mostra Haneke – com requintes de crueldade –, os momentos em que é mais preciso amar são exatamente os mais insuportáveis, de modo que o próprio amar torna-se insuportável. Ficar 24 horas por dia tendo que cuidar muito mais da vida de outro do que da própria, lidando com gritos, dor, excrementos, é enlouquecedor. Georges estava cansado e mal dava conta de continuar a cuidar de sua esposa: ele próprio precisava de cuidados.

Durante o filme, e por já conhecer um pouco da obra do diretor, comecei a me questionar. Georges estava amando demais, fazia tudo, vivia para manter a vida da esposa. Mas e a sua própria vida? Esse era o preço que ele estava pagando por esse amor. E, como a psicanálise mostra que não há amor sem ódio, fiquei esperando pelo surgimento do ódio no filme. Tudo na relação de Georges para com a situação de Anne era apenas amor – mas onde estava o ódio, contraparte inseparável do amor? Essa é uma questão clínica. 

Anne começou a recusar alimentação – com certeza a situação estava ficando mais e mais insuportável para ela também. Georges insistiu em dar-lhe água até que ela cuspiu-a em sua cara. Nesse momento, Georges a bateu. Cena nada imaginária: um velho batendo numa velha moribunda.

Em outra situação, enquanto acalmava Anne em uma das crises de gritos de dor, Georges contava uma história sobre uma situação insuportável de sua infância. A história era longa, a cena torturante de uma impossibilidade de acabar de vez com o sofrimento de Anne se arrastava – até que repentinamente, Georges pega o travesseiro e asfixia Anne até a morte.



O filme se chama “Amor”, mas poderia muito bem ser chamado de “Ódio”. Isso porque o que é essencial na mente humana é justamente a possibilidade de efetuar a função contrária do que se comparece. É o que Freud chamou de ambivalência da mente. “Em quase todos os casos em que existe uma intensa ligação emocional com uma pessoa em particular, descobrimos que por trás do terno amor há uma hostilidade oculta no inconsciente. Esse é o exemplo clássico, o protótipo, da ambivalência das emoções humanas” (FREUD, “Totem e Tabu”). O fundo do inconsciente não comporta oposições, de modo que nunca existe apenas amor em uma relação: a sua contraparte há, mas está recalcada. Ou seja, todos aqueles gestos de amor insuportável por parte de Georges também eram compostos de ódio pela própria esposa, por ela estar em uma situação que, mesmo não sendo 'culpa' dela, vem dela. Mas como Georges não se permite culpá-la por estar doente, enfatiza ainda mais seu amor, a um custo muito grande, o de abandonar os próprios afazeres, a própria vida, em prol da vida dela – sintomas de sua própria culpa por também odiá-la por privá-lo da vida que antes tinham. Não quero com isso dizer que o que ele verdadeiramente sentia era ódio, mas, sim, que não era apenas amor, pois em nenhuma relação existe apenas o amor, tal como também nunca existe apenas o ódio. O inconsciente é interesseiro e decide amar ou odiar de acordo com conveniências. Penso que é nisso que reside o maior valor do filme, pois é um filme sobre o amor, mas não sem uma crítica a ele. Haneke diz que se interessa em fazer uma análise da obra dentro da própria obra, e nisso “Amor” não decepciona: mostra o que há de ódio nessa imagem que fazemos de amar.

Por isso, digo que Haneke ocupa a posição analítica em seus filmes: quando se pensa estar seguindo determinado caminho, determinado sentido no andamento do filme, ele coloca a posição antitética, o sentido oposto, naquele mesmo caminho que se percorria. E isso é a base da técnica analítica, que poderíamos dizer, junto com MDMagno, que se expressa mais ou menos assim: “sempre que um homem lhes colocar uma questão, respondam com seu antônimo, de modo que um par de opostos se formará, como ir e vir. Quando a interdependência de ambos é inteiramente abolida, não há, em sentido absoluto, nem ida nem vinda. Se alguém estiver fixado em uma visão, desafiem-no com a visão oposta – não para convertê-lo a esta visão, mas para deslocá-lo de todas as visões de mundo de modo a poder escapulir entre elas”.

Podemos chamar o assassinato de Anne de crime de amor. Claro que Georges queria acabar com o sofrimento de Anne por amor a ela, mas também queria acabar com o próprio sofrimento, por ódio a ela - como se diz 'tirá-la de sua miséria', com toda a ambivalência que a frase comporta. É precisamente a grande cena ambivalente do filme: ele a mata por amor ou por ódio? Lacan tem uma frase que diz: “não conhecer de modo algum o ódio é não conhecer de modo algum o amor” (Seminário 20, p. 95). Concluo dizendo que, até por ter odiado Anne, Georges amou-a.

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