segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Obsessivo ou obsessivo?


Quando se ouve falar das estrutras clínicas em psicanálise, muitas vezes a impressão que fica é de que se trata de uma descrição comportamental que se repete em muitas pessoas. A lógica que fundamenta esses comportamentos não é explícita, fica sempre reduzida a esses comportamentos histéricos ou obsessivos, tipo: “obsessivo gosta de racionalidade”, “a histérica quer roubar a cena”, e etc.

No entanto, esses comportamentos são apenas casos, conteúdos da lógica que rege o inconsciente. Tomem por exemplo o famigerado Complexo de Édipo. Foi a maneira que Freud achou na época de abordar o buraco negro do inconsciente. Mas o édipo não é estrutural; querer matar o pai e casar com a mãe é um comportamento, não é a estrutura lógica que o determina. Foi preciso a existência de um Lacan pras pessoas entenderem que essa anedota chamada édipo se fundamentada na estrutura do significante. A lógica do significante é o que determina haver complexo de édipo, que é um modo de expressão dessa lógica mesma; porém não é a única. Apenas pensem num complexo de édipo de uma família moderna, onde há duas mães, por exemplo. Realmente, o menino vai querer casar com a mãe e matar o pai... E a menina vai entrar no complexo de castração comparando o pênis do pai com a falta de pênis da mãe...

Não se trata de ‘romances familiares’, ou coisa do gênero. A radicalidade do conceito de inconsciente é hierarquicamente superior a quaisquer conteúdos que possamos imaginar. Por isso só a lógica pode formular o limite para seu entendimento. Não fundamentar uma abordagem clínica nessas premissas é fazer clínica de conteúdos, é entender a situação que se apresenta em termos de valores, casos, e não de estrutura, quer dizer, de vazio. Qual é a raiz lógica que fundamenta as estruturas clínicas psicanalíticas? Não pode ser “o obsessivo gosta de racionalidade”; isso é casuístico demais. Pois o que é racionalidade? Aí vem uma cascata de sentido; e isso é igual cu: todo mundo tem o seu. O que quero destacar aqui é o fundamento mínimo da lógica obsessiva, para mostrar como ela até se relaciona com seus conteúdos, mas uma operação analítica na clínica só é propriamente analítica quando incide sobre esse processo lógico mínimo que fundamenta as manifestações obsessivas.

Freud, quando começou a estudar os obsessivos, percebia esses conteúdos nos seus casos: obsessivos eram pessoas que tinham pensamentos horríveis, sem saber porque, e se sentiam muito culpados por isso: sofriam muito. Outra característica comum entre eles é o fato de terem muitas dúvidas, especialmente sobre coisas impossíveis de saber (morte, por exemplo), e essas dúvidas por sua vez levam a pessoa a não conseguir tomar decisões na vida, e enquanto não tomam tais decisões, as coisas permanecem como estão: sofríveis. Como dizia Freud, o cara prefere adoecer a tomar uma decisão na vida. Por que isso? “Ah, porque ele não teve pai”, e todo esse papo edípico judaico, como fosse algo ‘natural’ ter pai, e sem isso a pessoa fica doente. Independente de pais, família, etc., o inconsciente é uma lógica, que inclusive possibilita a existência da família; mas ela não é a única organização social possível, e não é a fundamental, já que devido ao ‘deserto do real’, como diz Zizek, o ser humano não tem qualquer organização social necessária, natural. O real é a impossibilidade de haver essa organização social humana como natural: é sempre artificial. Inclusive a família, ou seja, o pai, a mãe, o filho...

De modo que o dito obsessivo é assim, obsessivo é assado: mas o que é uma estrutura obsessiva, que faz ele ser assim ou assado? Pois enquanto analista, pouco me interessa ele ser assim ou assado, como se eu tivesse que determinar o que ele deve ser – ou não ser. Me interessa é como intervir para que eu justamente não faça isso, que eu não lhe dê conteúdo algum, mas lhe dê o vazio de onde ele poderá determinar se será assim ou assado. O que é praticamente impossível, pois quando se diz alguma coisa, está-se em cheio no conteúdo. Daí o diz-afio: como dizer o vazio? Entendamos a lógica.

No seu núcleo, o obsessivo é alguém que tem muitas dúvidas; em bom brasileiro, ele é alguém que não sabe se caga ou sai da moita. Essa indecisão faz a relação do obsessivo com o tempo ser a mais prolongada possível: não sei o que fazer, então não posso decidir enquanto não souber. Mal sabe ele que só saberá o que decidir quando de fato decidir... De modo que o obsessivo não resolve, não termina as coisas: eles ficam flutuando entre os lados da decisão (“fazer isso ou aquilo?”), e a sua situação indecisa se estende em direção ao infinito. É irritante. E aí fazem estudo racionalíssimos (obsessivo é racional né) sobre os prós e os contras de cada pólo da decisão, estudos mais e mais minuciosos, fractalmente, para que só fique estudando e não decida o que fazer. Ou então ele faz uma coisa e depois faz algo oposto, e volta pra primeira coisa, e volta pra oposta... Oscilando pra não decidir com qual realmente ficar: tenta ficar com as duas.

Agora imagine a porção de problema e aporrinhação que as indecisões causam: as ciosas da vida têm limites, prazos. A pessoa fica na indecisão e perde o prazo, perde o momento de fazer algo que gostaria, mas estava em dúvida se fazia. E por aí vai.

Então, afinal: o que é um sintoma obsessivo, para além de ser racional, indeciso, procrastinador? Qual o seu modo de funcionamento?

Entendamos aqui que a mente humana é um aparelho de indiferenciação de oposições, que Freud chamou de princípio de prazer. O ser humano se satisfaz com qualquer coisa. E, quando digo qualquer coisa é QUALQUER COISA mesmo, sem quaisquer tipos de inibições, restrições ou proibições. O que é outra maneira de dizer que quaisquer possibilidades satisfazem o inconsciente. É só você ir à parte obscura da internet, chamada Deep Web que você verá o que quero dizer. Isso quer dizer que entre me satisfazer com isso (chamemo-lo de +) ou aquilo (-), o princípio de prazer quer os dois em um só, ou seja, não quer que haja aí uma oposição: não quer ter que escolher um ou outro, pois escolher um exige a perda do outro. E, se tem uma coisa que o princípio de prazer não quer é perder.

De modo que a dúvida obsessiva, o seu protelamento, a sua indecisão, seus pensamentos impuros, cujos sintomas são, por exemplo, rituais de lavar a mão depois de cagar cantando parabéns pra si mesmo (como woody allen mostra no filme ‘whatever works’), são derivados da lógica obsessiva, que se formula da seguinte maneira: o obsessivo se defende da disjunção da realidade. A realidade de cada um, assim como a própria physis, é disjunta: ou se tem pênis ou se tem vagina; ou se cai pra baixo ou se cai pra cima; ou caso ou compro uma bicicleta; ou isso, ou aquilo; em suma: ou (+) ou (-). O problema do obsessivo é justamente querer funcionar no que Freud chamou de princípio de prazer (tentando não haver oposição, escolha) em oposição ao princípio de realidade (que impõe a disjunção): ele adoece de querer ser E não ser... E fica tentando ora ser, ora não ser, porque não decide qual dos dois vai ser...

Vemos então, de maneira muito simples até, o cerne da questão obsessiva: a defesa contra a disjunção. Toda a realidade é composta de oposições: ou sou isso, ou aquilo. Estar em um dos lados dessa oposição é não estar do outro lado: se sou, logo não não sou. E a perda desse outro lado da oposição é o que aterroriza o obsessivo: não posso perder nem um grão da minha vida, senão, não estou vivo. Aí está a grande dúvida obsessiva: estou vivo ou morto? Diante de todas essas dúvidas e sintomatizações o obsessivo não quer que surja a oposição. Isso porque surgir a oposição é perder a compleição que no fundo ele deseja, e acha ser possível. Não é possível estar em (+) e em (-) ao mesmo tempo: a realidade não é apenas disjunta, a realidade é a própria disjunção. Assim, diante da bifurcação de um caminho, o obsessivo fica parado em frente a ela, teorizando qual via pegar... Enquanto isso, envelhece e não anda. 

PS: se você já escolheu um título pro texto, não está mais na lógica obsessiva. Se não, ainda tá achando que não dá na mesma fazer uma escolha ou outra. Mas qualquer escolha dá na mesma, qualquer escolha dá na mesma perda...

Nenhum comentário:

Postar um comentário