Quando se ouve falar das
estrutras clínicas em psicanálise, muitas vezes a impressão que fica é de que
se trata de uma descrição comportamental que se repete em muitas pessoas. A
lógica que fundamenta esses comportamentos não é explícita, fica sempre reduzida
a esses comportamentos histéricos ou obsessivos, tipo: “obsessivo gosta de
racionalidade”, “a histérica quer roubar a cena”, e etc.
No entanto, esses comportamentos
são apenas casos, conteúdos da lógica que rege o inconsciente.
Tomem por exemplo o famigerado Complexo de Édipo. Foi a maneira que Freud achou
na época de abordar o buraco negro do inconsciente. Mas o édipo não é estrutural; querer matar o pai e casar com a mãe é um
comportamento, não é a estrutura lógica que o determina. Foi preciso a
existência de um Lacan pras pessoas entenderem que essa anedota chamada édipo
se fundamentada na estrutura do significante. A lógica do significante é o que
determina haver complexo de édipo, que é um modo de expressão dessa lógica mesma;
porém não é a única. Apenas pensem num complexo de édipo de uma família
moderna, onde há duas mães, por exemplo. Realmente, o menino vai querer casar
com a mãe e matar o pai... E a menina vai entrar no complexo de castração
comparando o pênis do pai com a falta de pênis da mãe...
Não se trata de ‘romances
familiares’, ou coisa do gênero. A radicalidade do conceito de inconsciente é
hierarquicamente superior a quaisquer conteúdos que possamos imaginar. Por isso
só a lógica pode formular o limite para seu entendimento. Não fundamentar uma
abordagem clínica nessas premissas é fazer clínica de conteúdos, é entender a
situação que se apresenta em termos de valores, casos, e não de estrutura, quer
dizer, de vazio. Qual é a raiz lógica que fundamenta as estruturas clínicas
psicanalíticas? Não pode ser “o obsessivo gosta de racionalidade”; isso é
casuístico demais. Pois o que é racionalidade? Aí vem uma cascata de sentido; e
isso é igual cu: todo mundo tem o seu. O que quero destacar aqui é o fundamento
mínimo da lógica obsessiva, para mostrar como ela até se relaciona com seus
conteúdos, mas uma operação analítica na clínica só é propriamente analítica
quando incide sobre esse processo lógico mínimo que fundamenta as manifestações
obsessivas.
Freud, quando começou a estudar
os obsessivos, percebia esses conteúdos nos seus casos: obsessivos eram pessoas
que tinham pensamentos horríveis, sem saber porque, e se sentiam muito culpados
por isso: sofriam muito. Outra característica comum entre eles é o fato de
terem muitas dúvidas, especialmente sobre coisas impossíveis de saber (morte,
por exemplo), e essas dúvidas por sua vez levam a pessoa a não conseguir tomar
decisões na vida, e enquanto não tomam tais decisões, as coisas permanecem como
estão: sofríveis. Como dizia Freud, o cara prefere adoecer a tomar uma decisão
na vida. Por que isso? “Ah, porque ele não teve pai”, e todo esse papo edípico
judaico, como fosse algo ‘natural’ ter pai, e sem isso a pessoa fica doente.
Independente de pais, família, etc., o inconsciente é uma lógica, que inclusive
possibilita a existência da família; mas ela não é a única organização social
possível, e não é a fundamental, já que devido ao ‘deserto do real’, como diz
Zizek, o ser humano não tem qualquer organização social necessária, natural. O
real é a impossibilidade de haver essa organização social humana como natural:
é sempre artificial. Inclusive a família, ou seja, o pai, a mãe, o filho...
De modo que o dito obsessivo é
assim, obsessivo é assado: mas o que é uma estrutura obsessiva, que faz ele ser
assim ou assado? Pois enquanto analista, pouco me interessa ele ser assim ou
assado, como se eu tivesse que determinar o que ele deve ser – ou não ser. Me
interessa é como intervir para que eu justamente não faça isso, que eu não lhe
dê conteúdo algum, mas lhe dê o vazio de onde ele poderá determinar se será
assim ou assado. O que é praticamente impossível, pois quando se diz alguma
coisa, está-se em cheio no conteúdo. Daí o diz-afio: como dizer o vazio?
Entendamos a lógica.
No seu núcleo, o obsessivo é
alguém que tem muitas dúvidas; em bom brasileiro, ele é alguém que não sabe se
caga ou sai da moita. Essa indecisão faz a relação do obsessivo com o tempo ser
a mais prolongada possível: não sei o que fazer, então não posso decidir
enquanto não souber. Mal sabe ele que só saberá o que decidir quando de fato
decidir... De modo que o obsessivo não resolve, não termina as coisas: eles
ficam flutuando entre os lados da decisão (“fazer isso ou aquilo?”), e a sua
situação indecisa se estende em direção ao infinito. É irritante. E aí fazem
estudo racionalíssimos (obsessivo é racional né) sobre os prós e os contras de
cada pólo da decisão, estudos mais e mais minuciosos, fractalmente, para que só
fique estudando e não decida o que fazer. Ou então ele faz uma coisa e depois
faz algo oposto, e volta pra primeira coisa, e volta pra oposta... Oscilando
pra não decidir com qual realmente ficar: tenta ficar com as duas.
Agora imagine a porção de
problema e aporrinhação que as indecisões causam: as ciosas da vida têm
limites, prazos. A pessoa fica na indecisão e perde o prazo, perde o momento de
fazer algo que gostaria, mas estava em dúvida se fazia. E por aí vai.
Então, afinal: o que é um sintoma
obsessivo, para além de ser racional, indeciso, procrastinador? Qual o seu modo
de funcionamento?
Entendamos aqui que a mente
humana é um aparelho de indiferenciação de oposições, que Freud chamou de
princípio de prazer. O ser humano se satisfaz com qualquer coisa. E, quando
digo qualquer coisa é QUALQUER COISA mesmo, sem quaisquer tipos de inibições,
restrições ou proibições. O que é outra maneira de dizer que quaisquer
possibilidades satisfazem o inconsciente. É só você ir à parte obscura da
internet, chamada Deep Web que você verá o que quero dizer. Isso quer dizer que
entre me satisfazer com isso (chamemo-lo de +) ou aquilo (-), o princípio de
prazer quer os dois em um só, ou seja, não quer que haja aí uma oposição: não
quer ter que escolher um ou outro, pois escolher um exige a perda do outro. E,
se tem uma coisa que o princípio de prazer não quer é perder.
De modo que a dúvida obsessiva, o
seu protelamento, a sua indecisão,
seus pensamentos impuros, cujos sintomas são, por exemplo, rituais de lavar a
mão depois de cagar cantando parabéns pra si mesmo (como woody allen mostra no
filme ‘whatever works’), são derivados da lógica obsessiva, que se formula da
seguinte maneira: o obsessivo se defende
da disjunção da realidade. A realidade de cada um, assim como a própria physis,
é disjunta: ou se tem pênis ou se tem vagina; ou se cai pra baixo ou se cai pra
cima; ou caso ou compro uma bicicleta; ou isso, ou aquilo; em suma: ou (+) ou
(-). O problema do obsessivo é justamente querer funcionar no que Freud chamou
de princípio de prazer (tentando não haver oposição, escolha) em oposição ao princípio
de realidade (que impõe a disjunção): ele adoece de querer ser E não ser... E
fica tentando ora ser, ora não ser, porque não decide qual dos dois vai ser...
Vemos então, de maneira muito
simples até, o cerne da questão obsessiva: a defesa contra a disjunção. Toda a
realidade é composta de oposições: ou sou isso, ou aquilo. Estar em um dos
lados dessa oposição é não estar do outro lado: se sou, logo não não sou. E a
perda desse outro lado da oposição é o que aterroriza o obsessivo: não posso
perder nem um grão da minha vida, senão, não estou vivo. Aí está a grande
dúvida obsessiva: estou vivo ou morto? Diante de todas essas dúvidas e
sintomatizações o obsessivo não quer que surja a oposição. Isso porque surgir a
oposição é perder a compleição que no fundo ele deseja, e acha ser possível.
Não é possível estar em (+) e em (-) ao mesmo tempo: a realidade não é apenas
disjunta, a realidade é a própria
disjunção. Assim, diante da bifurcação de um caminho, o obsessivo fica parado
em frente a ela, teorizando qual via pegar... Enquanto isso, envelhece e não
anda.
PS: se você já escolheu um título pro texto, não está mais na lógica obsessiva. Se não, ainda tá achando que não dá na mesma fazer uma escolha ou outra. Mas qualquer escolha dá na mesma, qualquer escolha dá na mesma perda...
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