quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Felipão e Circo

Felipão foi anunciado como o novo técnico da Seleção de Futebol, aquele circo do qual o brasileiro é o grande palhaço (vide CBF, FIFA, Copa do Mundo, Ricardo Teixeira, etc.). Não que isso tenha importância suficiente para que eu escrevesse um texto, mas o que pesquei disso (ou fui fisgado) foi uma declaração que ele fez na sua primeira entrevista como técnico. Sabemos que fizeram sacanagem com o Mano Menezes, que parecia estar começando a engatar um pouco o time. Demitiram-no logo após ganhar um título, apesar de ter perdido o jogo final mas vencido nos pênaltis. Aí o Presidente da CBF, tal de Marins, coloca simplesmente os dois últimos campeões com a seleção: Parreira e Felipão. Só porquê eles já ganharam quer dizer que vão ganhar essa? O melhor técnico atualmente é o Muricy. Porquê não ele?

Enfim, foda-se esse circo.

O interessante aqui vocês já vão ver: o Felipão, ao ser questionado sobre a pressão que vai haver sobre os jogadores (e, claro, sobre ele mesmo), disse uma frase que, como diz Lacan, ressoou. "Se o jogador entrar sem pressão nenhuma, pensando que o objetivo é jogar a Copa, não pode ser assim. Fui jogador do interior. Eu era bom. O pessoal dizia que não, mas eu era bom. E tem pressão. Eles têm que saber. Nossos jogadores sabem que seria um dos títulos mais importantes que o Brasil já conquistou. Tem que trabalhar bem esse aspecto. Se não tiver pressão, vai trabalhar no Banco do Brasil, senta no escritório e não faz nada" (disponível em: http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/11/bb-diz-torcer-para-que-conquistas-do-volei-inspirem-felipao-na-selecao.html) - disse, enquanto atrás dele figurava o nome do Itaú, patrocinador da Seleção. 

Claro que o Banco do Brasil ficou uma arara com essa fala, e publicou nota 'lamentando' a declaração. Segue trecho: "O Banco do Brasil lamenta o comentário infeliz do técnico Luiz Felipe Scolari e afirma que se orgulha por contar com 116 mil funcionários que todos os dias vestem a camisa do Banco, com as cores do Brasil, e trabalham com dedicação e compromisso para atender com excelência às necessidades de nossos clientes e do nosso país" (Ibid). Ou seja, não é que os funcionários trabalhem sem pressão, eles trabalham com dedicação e compromisso. Mas não sob pressão. O BB trata muito bem seus client... ops, funcionários.

Já a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro também ficaram putos com Felipão.  Seu presidente disse: "Não só o trabalhador do Banco do Brasil sofre pressão, mas também os dos outros bancos. Por mês, cerca de 1.200 funcionários são afastados no país por problemas de saúde, por pressão dos bancos que pressionam os bancários a cumprirem metas absurdas e a venderem produtos que os clientes não querem comprar" (ibid). Assino embaixo. É toda hora bancário ligando oferecendo dinheiro, oferecendo empréstimo. Aluna minha me comentou que ofereceram-lhe 2.000 reais para ela pagar em suaves prestações que totalizariam 4.000 reais. "Te empresto e vc fica um tempão se fudendo pra me pagar o dobro"! Zygmunt Bauman é muito claro quanto a isso: "Nós hipotecamos o futuro", ou seja, de tanto dever e não poder pagar por ele (futuro), alguém irá tomá-lo de nós - vide crise de '2008'. É ruim, hein!

Bom, se a Psicanálise serve pra alguma coisa, é pra que pelo menos as pessoas saquem as dimensões do que quer que se diga. Lacan chamou isso de diz-menções e Freud nos ensinou a manejar a técnica para conduzir o tratamento do dito para isso, para as ressonâncias. Cito a Interpretação de Sonhos: "Os pensamentos oníricos a que chegamos por meio da análise revelam-se como um complexo psíquico da mais intrincada estrutura possível" (Grifo meu). Pequena pausa para você refletir sobre a frase. Prossigo: "Suas partes mantêm entre si as mais variadas relações lógicas. representam primeiros planos e panos de fundo, condições, digressões e ilustrações, sequências de prova e contra-argumentações. Não falta a esse material nenhuma das características que nos são familiares por nosso pensamento de vigília, Ora, quando tudo isso tem de ser transformado num sonho, o material psíquico é submetido a uma pressão que o condensa enormemente a uma fragmentação interna e a um deslocamento que criam, por assim dizer, novas superfícies" (p. 678). E Lacan é simplesmente textual quando diz "eu garanto que, numa frase, se possa fazer com que qualquer palavra venha dizer qualquer sentido" (LACAN). É o que vou fazer agora, tentando também com isso mostrar com esse exemplo um dos artifícios possíveis para que se esteja na posição analítica.

Repito: Felipão diz que não há pressão no banco do Brasil. Me pergunto se algum dos jogadores que serão reservas na Copa pensarão nesta frase; ou se os que já se consideram reservas pensaram nela. Isso porque 'Banco do Brasil' ressoa, pois é homofônico, como 'banco [de reservas] do Brasil', jargão altamente usado no linguajar futebolístico. Lacan diz que "é o equívoco, a pluralidade de sentido, que favorece a passagem do inconsciente no discurso". Assim, não há pressão no 'banco do Brasil'? Quem trabalha lá? E mais, quem é o dono?: é o técnico que está assumindo o posto de Pai da "família banco do Brasil" (como diz trecho da carta do BB): Luiz Felipe Scolari. Felipão está dizendo que não há pressão nele, nem na comissão técnica, nem nos reservas (que são quem trabalham no Banco), mas sim em quem está em campo ("Se o jogador entrar [em campo, é claro] sem pressão nenhuma, pensando que o objetivo é jogar a Copa, não pode ser assim"). É, logicamente, uma maneira de ele tirar o corpo fora se o Brasil perder a Copa. Ele não quer se sentir pressionado por uma eventual derrota. É como se ele dissesse (aliás, não é como se ele dissesse, é o que ele está dizendo logicamente, ou seja, a la Deus, falando certo por linhas tortas): a derrota será dentro de campo, dos que realmente jogam, dos que estão pressionados, oras!, e não de quem senta no 'banco' (Felipão disse "senta no escritório") e 'não faz nada', fica só olhando o jogo, sem pressão alguma. De modo que, repito, logicamente (e eu traço essa lógica neste parágrafo), a fala de Felipão ressoa em outro sentido, no qual, curiosamente, ele está falando de si mesmo (como sempre estamos), enquanto trabalhador do banco do Brasil. 

Se essa lógica lhes parece forçada, ilógica, absurda, que não faz sentido, 'nada a ver', apenas lembrem das frases do Freud e do Lacan que vou recitar: "Os pensamentos oníricos a que chegamos por meio da análise revelam-se como um complexo psíquico da mais intrincada estrutura possível". Não é à toa que pedi uma pausa naquele momento. Isso quer dizer: da mais intrincada lógica possível. Uma lógica em que nunca há apenas um sentido para o que se coloca. "Eu garanto que, numa frase, se possa fazer com que qualquer palavra venha dizer qualquer sentido", diz Lacan, pois, como disse Freud, "suas [do pensamento, do dito] partes mantêm entre si as mais variadas relações lógicas". Eu diria "suas partes mantêm entre si toda e qualquer relação lógica possível". São frases de grande magnitude, muito importantes para se entender o suspensamento psicanalítico. E vocês querem lógica bizarra, forçada,  absurda, etc., e que ninguém ousa discutir? Vão estudar física quântica e verão o quanto logicamente a psicanálise está dizendo a mesma coisa, inclusive de modo até mais tragável... Pois, ora, se um elétron pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, uma palavra também pode.

O Inconsciente é a falta radical de sentido absoluto para o que quer que se diga, e Isso sempre pode ressoar, se desfazer como sentido para que possam surgir novos sentidos; eu ousaria dizer que a lógica da psicanálise é a lógica das possibilidades. A análise, e é isso o que seu nome significa, é precisamente essa decomposição de um sentido para a recomposição de outro a partir desse mesmo material apodrecido. E para quê? Para que a pessoa aprenda a manejar cada vez mais (as) possibilidades do que quer que haja, ampliando assim a diz-menção da sua existência. Serve também pra que o palhaço não se contente apenas com Felipão e Circo...

PS: É interessante que a reportagem da Globo sobre a fala de Felipão tenha saído na seção de Economia, e não na de Esportes... O assunto é sério, né?



REFERÊNCIAS: 

FREUD, A Interpretação dos sonhos. ESB, vol. V.

LACAN, A Terceira. Disponível em: http://www.freud-lacan.com/articles/article.php?url_article=jlacan031105_2

BAUMAN, Zygmunt. Entrevista à Globo News. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=OcPD1pLdkoQ

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Homossexualidade: a importância de sua discriminação

O Projeto de Lei no. 122/06, que visa "criminalizar a discriminação motivada unicamente na orientação sexual ou na identidade de gênero da pessoa discriminada" (disponível em: http://www.plc122.com.br/entenda-plc122/#axzz2DY0u28gy), ou mais popularmente conhecido como lei da Homofobia, tem gerado calorosos debates entre Homossexuais e os Evangélicos, esses últimos representados na figura do Pastor Silas Malafaia, conhecido dos brasileiros por seu programa de televisão. Debates que inevitavelmente chegam ao tema da intolerância entre essas duas formações. De um lado, Malafaia é considerado homofóbico pelos homossexuais, e do outro, o próprio Malafaia os considera intolerantes por quererem impedi-lo de expressar e propagar suas opiniões, que são contra o estilo de vida homossexual. De modo que ambos se consideram tolerantes contra o Outro intolerante. Narcisismo das pequenas diferenças, ou guerra do gosto.

Malafaia, que, por sinal, fala muito bem, é também psicólogo (!). Ele é contra o projeto de lei. Isso porque, segundo ele, o projeto, que criminaliza a homofobia, na verdade criminaliza quaisquer posições contrárias ao homossexualismo. Cito a critica que Malafaia faz ao artigo 16o., paragrafo 5o. do projeto, que diz que "O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica." disponível em: http://www.vitoriaemcristo.org/_gutenweb/_site/hotsite/PL-122/):

"Aqui está o ápice do absurdo: o que é ação constrangedora, intimidatória, de ordem moral, ética, filosófica e psicológica? Com este parágrafo a Bíblia vira um livro homofóbico, pois qualquer homossexual poderá reivindicar que se sente constrangido, intimidado pelos capítulos da Bíblia que condenam a prática homossexual. É a ditadura da minoria querendo colocar a mordaça na maioria. O Brasil é formado por 90% de cristãos. Não queremos impedir ou cercear ninguém que tenha a prática homossexual, mas não pode haver lei que impeça a liberdade de expressão e religiosa que são garantidas no Artigo 5º da Constituição brasileira. Para qualquer violência que se cometa contra o homossexual está prevista, em lei, reparação a ele; bem como assim está para os heterossexuais. A PL-122 não tem nada a ver com a defesa do homossexual, mas, sim, quer criminalizar os contrários à prática homossexual — e fazem isso escorados na questão do racismo e da religião" (Disponível em: http://www.vitoriaemcristo.org/_gutenweb/_site/hotsite/PL-122/).

A questão em jogo é da liberdade de expressão versus crime de ódio ou homofobia. Como bem aponta o pastor - e com toda a retórica que caracteriza o seu discurso -, a Bíblia se tornaria criminosa, porque alguém pode se sentir ofendido com os ensinamentos que ela prega. E é bom abrir o olho quanto ao tiro pela culatra que essa lei poderia causar: criminalizar a liberdade de expressão. 

Por outro lado, a lei é importante, apesar de certos poréns. Ora, já é direito de qualquer cidadão, indiferentemente à sua orientação sexual, não ser agredido, ofendido moralmente, filosoficamente, etc., então, porquê fazer uma lei específica para homossexuais? Estariam eles querendo privilégios sociais, ao terem uma lei que se aplique especificamente a eles, para que evangélicos não os xinguem? Isso seria paradoxal quanto ao que eles mesmos reivindicam: tratamento igualitário. 

Sabemos que homossexuais travam uma grande luta em favor da igualdade de direitos, e que, graças a essa luta, muitas conquistas foram alcançadas, pois hojendia, comparativamente a cinquenta anos atrás, por exemplo, há uma maior indiferença quanto à sexualidade (homo ou hétero) das pessoas. Hojendia não há o mesmo nível de discriminação do que em tempos idos. Mas a luta não foi para que eles ganhassem o direito de serem tratados mais igualmente (ou mais indiferentemente, como prefiro colocar); foi para que esses direitos, que já são indiferentes a quaisquer orientações sexuais, fossem de fato aplicados a eles, coisa que não eram até que a luta homossexual conquistasse mais poder junto à sociedade e fizesse com que seus direitos fossem exercidos por ela. De modo que é importante destacar todos os preconceitos sofridos por essas pessoas que têm orientação homossexual, para que a sociedade se informe cada vez mais sobre o que é homossexualidade e como ela é apenas mais uma das orientações sexuais possíveis. Não tivessem feito se ouvir, os Homossexuais ainda estariam vivendo grandes discriminações, maiores do que as que vemos hoje.

Agora, o projeto de lei fala em criminalizar a discriminação contra os LGBT. O que é discriminar? O dicionário etimológico Lexikon diz o seguinte: "linha divisória, discernimento, combate", ou seja: diferenciação, o que coloca imediatamente a guerra do gosto, a guerra dos interesses de cada diferença social. Os homossexuais precisaram SE discriminar, ou seja mostrar como sua diferença, seu discernimento no mundo, precisava ser ouvido, para que fosse possível um tratamento mais igualitário (ou seja, mais indiferente, que não os discriminassem) pela sociedade. De modo que é importante haver uma discriminação de grupos sociais considerados 'minorias' (só se for em quantidade de poder, não em quantidade de adeptos), tais como ocorreu com negros, escravos, mulheres, etc. para que eles não sejam discriminados por serem 'diferentes'. E um projeto de lei como o 122 é exatamente uma tentativa de conferir uma maior capacidade de poder àquele grupo historicamente oprimido, e nesse ponto é inteiramente justificável essa discriminação. É preciso descriminar sua discriminação, ou seja, sua diferença no mundo - lembrando que o pai da computação, figura de inestimável valor na história da humanidade, Alan Turing, que era homossexual, foi condenado pela justiça britânica a tomar estrogênio (hormônio responsável por características femininas nos corpos), simplesmente por ser homossexual. É a criminalização da discriminação; sua diferença (opção sexual), sua discriminação, foi criminalizada.

Para ficar claro o que estou dizendo, estou jogando com duas definições de discriminação: uma (e fundamental) é a diferença; discriminar é diferenciar, e graças a Deus (e a lutas homossexuais por exemplo) temos hoje um maior poder de sermos discriminantes e discriminados, ou seja, exercer nossas diferenças dentro do mundo - melhor do que há 50 anos atrás. Já a discriminação à qual se refere o projeto de lei é não indiferenciar, por exemplo, as possibilidades de discriminação (orientação, diferenciação) sexual: a única discriminação possível é hétero. Ora, a luta homossexual (quer dizer, discriminar os homossexuais, mostrar e dar mais poder à sua diferença) é justamente por uma indiscriminação de opções sexuais: homens podem se beijar em público tanto quanto um homem e uma mulher, ou uma mulher e outra mulher. Isso é indiferença, indiscriminação quanto a que sexo beija ou deixa de beijar qual sexo. Daí a importância de haver discriminação da causa homossexual (assim como da causa negra, feminina, etc.), para que ela ganhe força e seja descriminada e indiscriminada no seio da sociedade.

Lembrei de alguém que nunca foi acusado (pelo menos que eu tenha ouvido falar) de discriminação (segunda definição): Tim Maia. Lembram do "só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher"? "O resto vale!" Liberdade de expressão ou homofobia?

PS: Seguem, em ordem, link para vídeo com o depoimento do pastor Silas Malafaia na Câmara contra o PL 122, e argumentações de Jean Wyllys, deputado federal ativista do movimento LGBT, contra Silas Malafaia.

http://www.youtube.com/watch?v=TCnAGmuXOUc&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=nSX0aIOJCgs



terça-feira, 13 de novembro de 2012

'Crime de ódio: liberdade de expressão?' ou 'Do cálculo do sarcasmo'

Negócio é o seguinte: dois artigos de revista, um da Veja, revista de maior circulação neste país da piada pronta, e o outro d'O Tempo, jornal de grande circulação em Belo Horizonte. 

No primeiro, tratava-se de criticar as supostas regalias que os homossexuais estariam demandando da sociedade, como se eles tivessem direitos especiais por serem homossexuais, e isso seria (de acordo com JR Guzzo) um tiro pela culatra, pois se eles querem ser tratados iguais, que parem então de pedir direitos só para eles. E cita pelo menos dois desses direitos "duvidosos": o direito homossexual de doar sangue e o de casar. Quanto ao primeiro, Guzzo diz que nem todos podem doar sangue, o que é fato. A população que não pode doar sangue são, segundo ele próprio, pessoas com diabetes, hepatites e cardiopatas (com certeza ele queria falar da AIDS, mas se conteve...). Ou seja, pessoas que estão com doenças não podem doar sangue - o que é completamente razoável, afinal, quem quer receber sangue que só vai fazer piorar a situação? Freud nos ensina que é importante escutar dois assuntos que nada têm a ver com o outro, mas que são enunciados em sequência: isso implica sua conexão (ou, em termos freudianos, sua associação 'livre'), de modo que os dois assuntos estão, sim encadeados. Com isso, deduzo que Guzzo simplesmente chamou os homossexuais de doentes, que não podem doar sangue porque talvez infectem os machos desse Brasil com viadagem. Mas ele não ficou por aí. Seu segundo argumento, o da restrição ao casamento entre homossexuais, foi ao subsolo do fundo do poço. Cito: "o mesmo acontece em relação ao casamento, que tem limites muito claros: o primeiro deles é que o casamento é, por lei, a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa". Bom, a primeira oração está correta; o casamento é, de fato, por lei, a união entre um homem e uma mulher. Ainda não está decretada uma lei que autorize o casamento homossexual. Já a segunda oração é simplesmente idiota: 'não pode ser outra coisa'. Isso é a coisa mais animalesca que se pode dizer, já que o ser dito humano é simplesmente a sede de quaisquer possibilidades de existência nesse universo.  Tudo pode ser outra coisa. E lembremos, é claro, que nenhuma lei nunca foi mudada neste país. Sempre vivemos com as mesmas leis desde o nosso nascimento enquanto nação, e nunca poderemos mudá-las...

Mas a coisa não parou por aí. Ainda em seu artigo Guzzo continua a tentar impor sua animalidade. Comentando outras restrições para o casamento, diz que quaisquer outras uniões, que não sejam entre homens e mulheres, não geram filhos, nem uma família, nem laços de parentesco. Com toda sua animalidade, Guzzo restringe o casamento à parte animal do ser humano: a produção, via cópula, de descendentes e laços de família. O ser dito humano pode fazer família em nível estritamente simbólico, como por exemplo, no caso mais famoso desse tipo de laço: 'somos todos irmãos filhos de Deus', com o qual opera o cristianismo. Inclusive já há orientações de políticas públicas que consideram como família vínculos não co-sanguíneos entre pessoas. Isso sem falar em filhos adotivos (como, de fato, todo filho é). 

Mas o subsolo do poço foi o seguinte: o último item de restrições para o casamento, segundo Guzzo, é mais radical. E cito com água na boca essa daqui: "um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo. Pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar". Ele está certo: hoje em dia, a lei não permite o casamento entre um cabra(-da-peste) e uma cabra. Tal como o casamento gay. A lei não permite. E, como uma lei não pode ser mudada...

Mas, apesar de tudo isso, tenho que concordar com uma parte de seu artigo. Segue: "qualquer artigo na imprensa que critique o homossexualismo é considerado "homofóbico"; insiste-se que sua publicação não deve ser protegida pela liberdade de expressão, pois "pregar o ódio é crime". Mas se alguém diz que não gosta de gays, ou algo parecido, não está praticando crime algum - a lei. afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou de seja lá o que for. Na verdade, não obriga ninguém a gostar de ninguém; apenas exige que todos respeitem os direitos de todos". Há diferença (apesar de muitas vezes ela ser indiscernível) entre pregar o ódio, que é previsto no código penal, e dizer que não se gosta de gays (o problema do indiscernível está justamente no 'ou algo parecido', a que Guzzo se refere), que realmente não é crime, é liberdade de expressão. Se não pudermos dizer que acaso não gostamos de gays, estamos em maus lençois...

Bom, pra finalizar essa primeira parte, sobre Guzzo, me pareceu que ele não quer ver, ou escutar, que, mesmo com os inúmeros 'progressos' alcançados pelos homossexuais na busca da uma indiferença de direitos (não vou falar em igualdade, pois ninguém é igual a ninguém, seja perante a lei, seja na ausência dela), há discriminação (ou seja, diferenciação), há tolerância para com eles... E se tem uma coisa que é nojenta nas hipocrisias desse planeta é a tal da tolerância (cf. abaixo, "Brasil, um País de Quem?"). Se o Brasil fosse um país sério, e não o país da piada pronta, iniciaríamos imediatamente uma campanha seriíssima (sem aspas) a favor do casamento entre homem-caba-macho e cabras (fêmeas, é claro... homossexualismo não!). Nada melhor do que fazer uma piada séria para combater uma séria piada sem graça.

Mas, e ainda, temos nosso segundo caso de bestialidade humana na semana. O colunista Walter Navarro (que às vezes por acaso escuto na BandNews com muito desgosto) me lança um artigo falando sobre a questão dos Guarani-Kaiowá. Começo pelo título do artigo: "Garani Kaiowá é o c... Meu nome agora é Enéias, p...". Sim, é realmente esse o título do artigo. Bem chulo, bem brasileiro. Nada contra falar palavrões em si em meios de comunicação de maior alcance, acho até importante. Mas no caso, o conteúdo do artigo mostra que não convinha o contexto desses palavrões. Vejamos por quê. 

Primeiro, ele começa criticando os outrora chamados ativistas de sofá: pessoas que se utilizam das redes sociais para propagar informações que acaso ajudem em alguma causa - como precisamente aconteceu com a questão Kaiowá. Se não tivessem havido os twitaços, nem a ampla repercussão nas mídias alternativas (como Facebook e twitter), o governo não teria sentido a pressão popular, nem teria marcado a reunião de urgência que marcou, na qual se decidiu pela revogação da reintegração de posse por parte dos fazendeiros que tiveram suas terras 'invadidas' pelos índios. Ele chama esse ativismo de "coisa mais chata, brega, hipócrita e programa de índio". Tudo bem, ele pode achar o que ele quiser disso... ele tem todo o direito de ser um idiota e se expressar como tal... 

E prossegue: "uma dessas chatas do Facebook reclamou da minha gozação dizendo que todo brasileiro é Guarani-Kaiowá. Eu não! Nunca nem ouvi falar, e se tiver que escolher, prefiro descender dos tapaxotas ou tapaxanas. Mas bom mesmo é de destapar...". Bom, ele realmente não tem que ser Guarani-Kaiowá, nem brasileiro e nem heterossexual. Isso é problema dele, o que ele é ou deixa de ser: por mim, podia inclusive desapareSER. Agora, já me parece cruzar a linha da liberdade de expressão para crime de ódio fazer pouco dos (nomes dos) índios, como os Tapajós. Mas cabe discussão.

Mas em seguida, o cara solta realmente a pérola do artigo: "Como diriam o Marechal Rondon e os Irmãos Villas-Boas: 'Índio bom é índio morto'! 'Matar, se preciso for, morrer nunca'". Se isso não configurar o crime de ódio, não sei mais o que o seria. Vejamos (ou melhor, leiamos, pra não ficar com cara de revista Veja) o que a lei 7716 do código penal, de 5 de Janeiro de 1989, diz em seu artigo 20: "Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa". A questão que fica é: o crime de ódio é liberdade de expressão? Se Navarro não for enquadrado, e punido conforme a lei, a resposta é sim, e tudo o que a lei classifica como crime de ódio tem que ser imediatamente considerada uma legítima liberdade de expressão. Caso contrário, resposta não. Pois não vejo como fazer troça, incitar a violência e a discriminação racial pode não ser crime de ódio. Lógico que cada caso é um caso, não é matéria simples fazer hermenêutica de lei, e as decisões têm que ser tomadas ad hoc. Mas neste caso... pouco-caso com os índios. 

Os dois artigos, da Veja e d'O Tempo, estão tratando do mesmo tema: liberdade de expressão x crime de ódio. No primeiro, se houver crime de ódio, ele se daria pela lógica ardilosa com que Guzzo tenta desclassificar a busca de direitos dos homossexuais. Se não houver, ele é simplesmente mais um animal que fala merda por aí: com todo o direito.

Mas o artigo de Navarro tem muito mais elementos enquadráveis no artigo 20 da lei 7716 (que na minha humilde opinião de leigo em direito, está ainda malescrita, por não distinguir com mais precisão o que significa discriminação, preconceito, etc). Além de todo o contexto, desde o título até a última linha, a frase clamando a morte dos índios é totalmente configurável como crime. 

PS 1: Bom, acabo de ver umas postagens que disseram que o próprio texto é uma ironia ou um sarcasmo. Se isso for, quanto melhor; mas seria bom uma desambiguação por parte do autor, pois o mal-entendito gerado foi bem grande, e, com certeza o prejudicou (haja visto que ele retirou sua página do Facebook do ar após o artigo circular na rede nesta manhã). Talvez ele tenha sido tão inteligente nesse artigo que nós, a "protérvia ignara" (termo que ele usa no texto), não conseguimos captar o refinadíssimo duplo-sentido do seu texto. Quem quis criar o mal-entendito foi ele... O problema é que um artigo assim corre o sério risco de ser o tiro pela culatra: ao invés de mostrar a crítica de forma sutil, esconde-a demais, causa um erro de comunicação (e ele, como comunicador, deveria saber calcular isso melhor). Como se diz: brincadeira tem hora (quer dizer, cálculo)...

PS 2: uma única frase do texto de Navarro pode corroborar a ideia de que se trata de ironia. Ao citar o Marechal Rondon, Navarro, troca os lugares das palavras 'matar' e 'morrer'. A frase original foi: "morrer se for preciso, mas matar nunca". Não sei se calculado ou não.

De modo que, para concluir, digo: o texto de Navarro é sarcástico? Se sim, é uma liberdade de expressão (ainda que mal calculada como sarcasmo); se não, crime de ódio.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Whatever doesn't kill you makes you... str@nger


Toda vez que algo traumático acontece na vida de alguém, algo muda. Nitidamente acontece um 'antes' e um 'depois' de cada porrada do Haver, ou seja, o antes e o depois de se deparar com a infinitude da existência, chamada Real. Um trauma é um acontecimento de contingencia que te lembra (erinnern) que é impossível morrer, quer dizer, é impossível não haver a existência, e esse é O Desejo humano por excelência. Traumas são eventos na existência que te apontam o desejo de que exista a inexistência (ou que inexista a existência): "pára tudo que eu quero descer" significa, como diz Édipo: "mé funai" ("antes eu não existisse", "antes eu não houvesse"). Mas não há para onde 'descer' da existência, não é possível morrer. Quando um corpo para de funcionar, isso não significa a Morte, pois a Morte seria o gozo absoluto, seria viver a própria morte, ter o gozo dela, experienciá-la. Mas pense bem: se for possível viver a Morte, se houver a existência da Morte, se eu experimentá-la, ela não será a Morte (de acordo com a lógica do conceito freudiano de pulsão de morte), pois o desejo de morrer é o desejo de que nunca tivesse havido desejo em primeiro lugar. E isso é impossível, pois HÁ o desejo, e é desejo de que não tivesse havido desejo! Se houver, qualquer coisa, inclusive ele próprio, o desejo deseja que não haja e que não tenha havido. O que é impossível de saída, pois o desejo que não haja desejo HÁ. Não é possível morrer, ou seja, haver experiência de Morte, haver a satisfação total que só a Morte traria, já que nada na vida, na existência, (se) satisfaz por inteiro. O trauma é passar pela experiência de quase-Morte, digamos assim, quando se saca que não há Morte, e é isso que traumatiza: haver, sem escapatória, condenados a satisfações aleijadas, pois nenhuma prótese cura a existência: condenados à Vida - isso sem pecado original.

Felizmente - ou não - podemos esquecer que não podemos morrer e chafurdamos na existência, ou melhor, nas coisas da existência: escolhemos um modo particular para tentar morrer, produzimos um sintoma. Que nada mais é que um cover aleijado daquela satisfação total(mente) impossível: simulacro da inexistência, simulacro da Morte (que não há). Por isso Lacan disse: "a Morte entra no domínio da fé". O desejo é acreditar na Morte, e isso é inclusive arreligioso. Mas, retomando, quando estamos chafurdados num sintoma, num modo particular de haver, ficamos estagnados, seguindo programas que se instalaram em nossa linguagem e isso nos normaliza, nos dita as normas de haver, o que nos animaliza. É muito fácil esquecer que se é humano: mais de 90% do tempo somos animais ou robôs. Somos normais, obedecendo ordens, programações culturais, familiares, sociais, etc. Tudo isso são tentativas frustradas de morrer. Os programas, os sintomas, são modos particulares de chegar à Morte, mas por meio da Vida, da existência. Aí fica-se morrendo a vida inteira num programa falido, que só serve para atrapalhar que se morra em outras formas de vida: ele resiste. É nesse momento que se procura alguma coisa, uma auto-ajuda, um espírito ou um psicanalista. 

Desses três, o único que vai utilizar o trauma como cura (isso inclusive a ponto de usar a auto-ajuda ou o espírito para tal) é o analista. Isso porque sua postura deveria ser a de conduzir aquele rebanho de sintomas que as pessoas o entregam para o cume da relação entre haver e não haver, ou seja, entre a vida e a morte, a existência e a inexistência. É apenas passando por esse lugar que pode haver reprogramação de uma pessoa, o que pode deslocar seus sintomas, ou diluí-los na economia psíquica, que é o que se conceitua como 'cura' na psicanalise: é mais como uma procura por cura, e os arranjos emergentes dessa procura são as próprias curas para o incurável, que é haver, ainda. A cura é um processo, tal como a verdade, e não um resultado, uma configuração estática. Mas a pessoa só se dá conta de que ela pode ser qualquer coisa (ou seja, (pro)curar-se) quando ela se dá conta que não pode fazer nada quanto à possibilidade de realizar seu verdadeiro desejo: morrer. Já que não vai se conseguir o que se realmente queria, qualquer coisa serve pra satisfazer um pouquinho... é só o que dá pra fazer mesmo... Aí, fica-se mais disponível para diferentes formas de viver, ou seja, diferentes formas de morrer. De modo que, quando de algum modo, em alguma situação da existência, isso acontece, quer dizer, quando se toma consciência de que não é possível a Morte (e isso é traumático), tanto faz como se vive... nisso, o sintoma fica mais patético... aí percebe-se que não se precisa dele, pois não é o único, pode-se arrumar outro. É o que geralmente acontece. E então a pessoa se estranha, estranha as novas possibilidades de ser. Imaginem, ou lembrem, como é passar de heterossexual a homossexual. Estranho! Isso acontece porque a pessoa passou por esse Cais Absoluto, em que a consciência da inexistência da inexistência indiferencia as formas normalizadas de existir, de haver, e abre a possibilidade de que formas estranhas compareçam, novos sintomas, que nada mais são do que os novos modos de crer na Morte.

Enfim, tudo isso para falar do filme do Batman, o Cavaleiro das Trevas, que tem a atuação primorosa de Heath Ledger, aquele ator que viveu o Coringa e morreu de suicídio após vivê-lo. Em certo ponto do filme, uma pessoa pergunta ao Coringa: "what do you believe in?", se referindo aos sintomas que ele mesmo acreditava que deviam imperar: honra, moral, etc. Ao que o Joker responde: "I believe whatever doesn't kill you simply makes you... stranger"! Muito melhor do que Nietzsche. Para quem não entendeu, é o seguinte: a frase original é em alemão e é: "o que não te mata, te faz mais forte". Traduzida pro inglês, fica "whatever doesn't kill you makes you stronger". Ao trocar 'stronger' (mais forte) por 'stranger' (mais estranho), o Coringa ressalta o lugar para onde o analista conduz os sintomas que se lhe apresentam: para o lugar onde não se morre, e do qual só se pode retornar como um estranho às formas até então vigentes de viver. Sacar que é impossível morrer é o que te faz estranhar quaisquer modos de viver, e isso abre outras possibilidades de viver, quer dizer, de morrer. Apurando mais um pouco a frase, vemos que "whatever" é melhor descrito como "o que quer que", de modo que "o que quer que não te mata, te faz mais estranho". Isso se traduz em: o que quer que te lembre que é impossível morrer te faz mais estranho.

O analista, para haver, deve ser Coringa...

domingo, 28 de outubro de 2012

Há Deus: Onimpotente, Inconisciente, Oniausente


"Não acredito em Deus porque nunca o vi. 
Se ele quisesse que eu acreditasse nele, 
Sem dúvida que viria falar comigo 
E entraria pela minha porta dentro 
Dizendo-me, Aqui estou! 
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos 
De que, por não saber o que é olhar para as cousas, 
Não compreende quem fala delas 
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.) 
Mas se Deus é as flores e as árvores 
E os montes e sol e o luar, 
Então acredito nele, 
Então acredito nele a toda a hora, 
E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. 
Mas se Deus é as árvores e as flores 
E os montes e o luar e o sol, 
Para que lhe chamo eu Deus? 
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; 
Porque, se ele se fez, para eu o ver, 
Sol e luar e flores e árvores e montes, 
Se ele me aparece como sendo árvores e montes 
E luar e sol e flores, 
É que ele quer que eu o conheça 
Como árvores e montes e flores e luar e sol. 
E por isso eu obedeço-lhe, 
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), 
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, 
Como quem abre os olhos e vê, 
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, 
E amo-o sem pensar nele, 
E penso-o vendo e ouvindo, 
E ando com ele a toda a hora."

(Alberto Caeiro, "Há Metafísica Bastante em não Pensar em Nada")


Certa vez estava eu nalgum lugar quando me formulei a seguinte pergunta: se Deus pode qualquer coisa, se Ele é onipotente, será que Ele poderia deixar de sê-Lo? Ou seja, poderia Deus deixar de ser Deus? Tipo assim: "ah, cansei dessa estória de existir!". É possível para Deus não ser Deus? Em outras palavras: Deus pode suicidar, do alto de seu Livre-Arbítrio?

A única resposta lógica, considerando que Espinosa disse "Deus sive Natura", ou seja, Deus é a própria existência, é não. Deus é condenado a existir e não tem possibilidade de não existir. Isso significa que Deus, por mais completo que seja, é definitivamente castrado da possibilidade de não sê-Lo. Lacan dizia que não há Outro do Outro, o que quer dizer que não há Deus de Deus. Deus é um só, e é tudo o que existe e tudo o que é possível existir. E para Ele, qualquer coisa é possível de existir, exceto uma: Sua não-existência. Deus  não foi criado (o que que havia antes de Deus? Não-Deus?) e nem morrerá (o que existirá se não for a existência?). E, se Deus deseja alguma coisa (quer dizer, se há Deusejo), é pular fora de si mesmo. 

Daí que, tendo isso em mente, é preciso reformular o estatuto divino de acordo com as possibilidades lógicas trazidas pela psicanálise. Deus tem três propriedades fundamentais, e se alguma delas forem contraditas, já não se trata mais de Deus. São elas: Deus é onisciente, onipresente, onipotente. Sabemos o que isso significa: Deus sabe tudo, está em tudo e pode tudo. 

Ora, como vimos, logicamente Deus até pode tudo, quando 'de dentro' da Sua existência: Ele pode ser qualquer coisa, como diz Fernando Pessoa, "as árvores e as plantas", e etc. No entanto, a castração divina vem na sua relação 'de fora': Deus não pode deixar de ser Deus, ele não pode ser outra coisa, ele não pode não existir (caso ele exista...). Enfim, temos aí a castração Originária de Deus: ele sempre houve, ou seja, não houve momento da existência (já que Deus está em tudo, em toda a existência) em que Deus não existisse, porque Deus é a (Sua) própria existência. Assim, reformulemos a impotência de Deus: ONIMPOTÊNCIA. Pois, dentro da existência, Deus pode ser qualquer coisa (onipotência, com 'o' minúsculo), mas não há Deus fora da (Sua) existência.

Outro ponto: se Deus não pode tudo, ele não sabe precisamente daquilo que ele não pode. Deus sabe o que é ser toda e qualquer coisa, mas não sabe o que é não ser Deus, ele não pode saber disso porque é impossível, é sua Onimpotência. De modo que Ele sabe de tudo o que ele pode ser, mas Deus não sabe do que Ele não pode ser. Literalmente, o Deusejo não sabe o que ele quer, ou seja, ele não tem acesso ao que ele quer, nunca teve e nunca terá, simplesmente porque não se conhece o Não-haver, a Não-Existência. Assim, Deus é INCONISCIENTE: dentro Dele, Ele pode saber de tudo (que ele pode ser), mas ele não pode saber do fora-de-Si (como um louco...). Onisciência ao contrário.

E, finalizando: se pensarmos o único desejo possível para Deus, o de justamente não sê-Lo, Ele não está em todo lugar. Ele não está Lá, bem onde ele não pode estar, onde ele não pode ser. Uma vez que é possível pensar a não existência de Deus (como acabo de fazê-lo), nesse lugar utópico, onde Deus não existiria, Deus não está: Deus não está Lá onde ele não pode ser. E esse é o único lugar em que Deus não está, por completo, de modo que, para a sua própria inexistência, Deus é ONIAUSENTE, quer dizer, completamente ausente da Sua inexistência, já que Ele só é onipresente na existência. Sua onipresença não engloba sua ausência, sua inexistência, apesar de ser possível pensá-lo.

Lacan dizia que Deus é inconsciente, defendendo que isso era a fórmula do ateísmo. Isso porque se Deus é inconsciente, logo ele deseja (o inconsciente sendo precisamente o Desejo); se ele deseja, logo algo lhe falta; se algo lhe falta, Deus não é onipotente (porque não pôde ter o que lhe falta), nem onisciente (pois o desejo não sabe o que quer), nem onipresente (não está onde o objeto de seu desejo  estaria, se houvesse). Não vejo porque isso levaria a um ateísmo, pelo contrário: esse é o verdadeiro lugar da ARRELIGIÂO. Arreligião porque o desejo humano é, como o desejo de Deus ('o desejo do homem é o desejo do Outro' - Lacan) onimpotente, inconisciente, oniausente, e, assim como Deus, ficamos querendo precisamente que haja o que não pode haver: a inexistência da existência (de Deus, já que Ele É a existência mesma). O desejo do homem é fundamentalmente arreligioso, porque ele coloca o desejo do próprio Deus. O prefixo 'a', indicativo de negação, significa que o desejo não coloca conteúdos dentro da existência tais como, Alá, o Céu, o Velho de Barba, e etc. Isso são as religiões. O desejo é arreligioso porque visa esse lugar onde não há,  não há nem mesmo Alá, ou Velhinho. Mas a postulação do desejo é atingir o que não existe, e isso é a religiosidade do Deusejo (porque Ele acha que existe a inexistência, ela é seu objetivo, seu alvo), mas sem conteudização religiosa, já que Ele precisamente não deseja conteúdos. Arreligião é o fundamento da estrutura mental dos homens, à imagem e semelhança do Deusejo do Outro.

Assim, diante da impossibilidade de haver Suicídio, podemos realmente dizer: HáDeus. Deus sempre dando adeus à possibilidade de suicidar-se, por mais que deseje - e é Seu Único Deusejo... De modo que, diante da impossibilidade de não haver Deus, Ele só faz o que é possível: ser Deus, ora pois-pois (como diz Fernando Pessoas)!

Ateu, quem, cara-pálida? Nem Deus é. O Deusejo sendo Arreligiosidade humana: crer na inexistência. Deus é imanente.

sábado, 27 de outubro de 2012

Brasil, um país de Quem?

"Mas o Brasil vai ficar rico!
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios numa LEIlão"

(Paródia de "Que país é esse?", de Renato Russo)

"Brasil, um país de todos"

(Slogan do Governo Federal na gestão LULA)

A situação do povo indígena Guarani Kaiowá, que vive no Mato Grosso do Sul, tem piorado cada vez mais. Há quarenta anos, eles foram expulsos de sua terra sagrada ('tekohá'), por fazendeiros e colonos que tomaram suas terras, e foram obrigados a migrar para outra região. Desde o ano 2000, o governo brasileiro declarou (e não decretou) a tekohá como indígena, porém o processo administrativo que decreta definitivamente a pertença da área não foi concluído até o momento.

No mês passado, cerca de 500 índios 'invadiram' (retomaram) parte de seu território sagrado, de onde tinham sido expulsos há 40 anos. Mas como ainda não está oficialmente decretado que a terra pertence a eles, sua 'invasão' tem sido questionada pelos fazendeiros, que querem a chamada reintegração de posse.

Pois bem, recentemente, a "Justiça" do MT decretou a reintegração de posse por parte dos fazendeiros, e desde então os Kaiowá decidiram que não sairão de seu tekohá por entenderem que têm o direito de viver em uma área que consideram historicamente sagrada e da qual foram expulsos em uma época em que não havia uma demarcação regulamentada para sua cultura. Desde então, tem aumentado a violência dos jagunços (pistoleiros contratados pelos fazendeiros) contra os Kaiowá.

Há alguns dias, os Kaiowá entregaram uma carta à Justiça Federal pedindo que, ao invés de expulsarem-os de sua tekohá, o Governo os mate e os enterre com os seus antepassados, pois não aceitam a decisão jurídica de mais uma vez serem expulsos. Segue trecho da carta: "Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Naviraí-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira”.

“A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas" (KAIOWÁ, 2012). Nos últimos 8 anos, mais de 250 índios foram assassinados no MS. Além disso, já houve 190 tentativas de assassinato, 176 suicídios, e 49 atropelamentos contra eles.

A decisão de reintegração de posse por parte da justiça provavelmente foi influenciada pelo setor pecuarista, interessado nas terras sagradas para expansão de seus lucros, que naquela região tem como porta-voz uma ex-atriz muito famosa, Regina Duarte, que interpretou Porcina, a mulher de Sassá Mutema na novela Roque Santeiro.

Enfim, fica claro e evidente que há uma oposição aí entre os interesses dos pecuaristas (seus negócios) e os interesses indígenas (morarem em terras que consideram sagradas).

Pois bem, a situação dos Kaiowás é totalmente articulável psicanaliticamente, e a pergunta que aqui formulo é a seguinte: que política é possível, na mediação de tais conflitos de interesses, a partir da lógica que a psicanálise trouxe, ou seja, a lógica do funcionamento psíquico (cujo discurso deveria fundamentar qualquer pensamento quanto às ações humanas)? Ariscarei aqui tentar responder de algum modo a essa pergunta.

Algumas coisas devem ser consideradas dadas nesse texto, pois não vou explicar a teoria psicanalítica inteira pra falar do assunto:

1 - O que querem os Kaiowás? O que querem os pecuaristas? O que quer o ser humano, fundamentalmente? Se a ideia freudiana de pulsão de morte serve para alguma coisa é para formular o seguinte: há o desejo e o que ele quer (seu suposto objeto) é precisamente não ser desejo mais, ou seja: não haver enquanto tal. Para o desejo, se houver qualquer coisa, mas qualquer coisa que seja, ele desejará que simplesmente não haja. Nem ele próprio. O desejo do homem é que não haja, e disso formulamos o conceito de Não-Haver, objeto impossível (porque não há) do desejo humano. Uma vez que não há o Não-Haver, não há objeto para o desejo humano, o ser humano buscará sua satisfação parcial em alguma coisa que deveras HAJA. Mas o fundamental da lógica da pulsão é que, se houver, o desejo é de que não haja, ou seja desejo de Outra-Coisa. Escrevemos então um sintagma, "Haver quer Não-Haver", que é nada mais do que Freud chamou de pulsão de morte.

Ora, não-há o objeto do desejo humano. Porque esse objeto não é nem objeto, ‘é’ simplesmente uma inexistência, ou, pra ser mais preciso, o Não-Haver. Não-Haver não há, logo, pra se atingir algum alvo, alguma satisfação (já que a absoluta é impossível), o desejo se volta para algo qualquer, que exista, que haja: retorna para o Haver. Mas aí é só um dos pedaços da existência, tipo desejar ser um 'índio', um 'brasileiro', um 'ser humano', um ‘médico’, etc. Alguma coisa, que obviamente não é todas: é só aquela coisa, parcialmente. Eu quero ser 'índio', e não 'não-índio'. O que cria instantaneamente uma oposição entre as coisas que existem: índios e não-índios, por exemplo. Tudo que há entra em oposição: isso e aquilo.

2 - Para a psicanálise, o que ela descobriu como fundamental no funcionamento da mente é que o ser humano tem sempre a possibilidade de transitar entre essas oposições: alguém que foi 'macho' a vida inteira pode de repente virar 'não-macho': vide homossexualismo, transexualismo, etc. O ser humano tem a possibilidade de escapar de suas determinações apriorísticas e ser Outro. Nisso reside o conceito de cura em psicanalise.

Dito isso, passemos adiante. A situação dos Kaiowás é idêntica à de Antígona, filha de Édipo, da peça teatral do grego Sófocles escrita há mais de dois mil anos. A história é simplesmente uma metáfora das posições possíveis da mente com relação às leis. Como disse, o juiz federal expulsou os índios de sua terra sagrada, impregnada de significações. A lei determinou isso. Mas que posições mentais são possíveis diante das leis? O que são as leis, psiquicamente? E a Justiça? Isso existe?

Antes, lembremos a história: Os pais de Édipo, os reis Laio e Jocasta de Tebas, vão a um oráculo que lhes diz que seu filho irá matar o pai e desposar a mãe, o que é contra a lei. Então deram a criança para um encarregado de matá-la, mas este fica piedoso e poupa Édipo. Ele foi criado por pais adotivos que o tratavam como filho e não lhe contaram sobre seus outros pais. Mas, um dia, alguém que estava com raiva dele disse-o que ele era adotivo. Após buscar saber sobre isso, descobre que era deveras adotivo e abandona a cidade de Corinto, onde morava.  Então, ao fugir da cidade, em seu caminho para Tebas, encontra a carruagem em que Laio estava e houve uma luta entre eles, para decidir que passaria primeiro pelo caminho onde só poderia passar um de cada vez. Édipo mata Laio e foge para Tebas. Na entrada da cidade a Esfinge, que a controlava, propunha um enigma para qualquer um que chegasse, e caso não adivinhasse, morreria. O enigma era "o que anda de quatro de manhã, de dois à tarde e de três à noite?". Resposta de Édipo: o homem. A esfinge cai no poço e Édipo entra na cidade para virar rei, por ter salvado a cidade da tirânica Esfinge. Ofereceram-lhe a recém viúva como esposa e o lugar do Rei falecido. Ele foi aclamado por todos.

No entanto, Édipo recebe uma notícia de que há uma peste sobre a cidade, matando muita gente. Manda então chamar o poeta e adivinho Tirésias, para ajudar com o problema. Ele diz a Édipo que a peste assola porque ele casou com sua mãe e matou seu pai, o que é contra a lei. Por isso a cidade está sendo punida. A princípio Édipo nega, diz se tratar de jogada política, mas acaba entendendo a própria história e aceitando a culpa pelo mal-estar da cidade. Sua mãesposa Jocasta se enforca ao descobrir a tragédia e Édipo pega os broches dela e fura os próprios olhos para não ver a merda que tinha feito. E, de acordo com a lei que vigorava, se bane da cidade e vive pedindo esmola, até retornar à cidade natal, Colona, onde luta contra sua culpa, pois ele não sabia que eram sua mãe e seu pai que estavam em jogo em Tebas. Enfim, morre.

Édipo deixou quatro filhos, Antígona, Ismênia, Etéocles e Polinício. Após Édipo se banir de Tebas, seus filhos homens alternavam o poder: cada um ficava um ano. Começou com Polinício, e depois Etéocles, que não quis mais sair, o que desencadeou uma guerra entre os dois. Polinício foi a uma cidade vizinha, Argos, e convocou um exercito para demitir Etéocles. Etéocles foi o babaca, pois não quis sair quando devia, mas como Polinício trouxe estrangeiros, ele ficou como o mau-caráter, por atacar a própria cidade. Os dois irmãos se matam na guerra. E Creonte, irmão de Jocasta, tio de Édipo, toma o trono. Ele manda fazer honras a Etéocles, que havia lutado em favor da cidade contra os estrangeiros e proíbe o enterro de Polinício, que atacou a própria cidade. Ele deveria ser comido pelos animais ao ar livre como uma carcaça. Antígona não aceita e vai enterrar o irmão, pois enterrá-lo com justiça e dignidade é algo sagrado, de uma lei maior do que a da cidade, que é a Lei dos deuses. Seu vínculo com o irmão era de uma ordem superior. Por ter desobedecido à lei, Antígona foi condenada à pena de morte. Enquanto estava presa, suicidou-se.

Enfim, não vou me alongar sobre o mito, mas temos elementos suficientes para mostrar que há uma clara relação das situações de Antígona e dos Kaiowá. O que temos que analisar são as posições possíveis da mente humana diante das leis, e a consequente demanda de justiça que elas implicam, para mostrar que política a psicanálise (ou qualquer pensamento fundamentado com as mesmas bases) pode apontar para o mal-estar.

Se pensarmos em Édipo no lugar de rei, seguindo a lei do parricídio e cumprindo-a à risca, ao ponto de banir-se a si mesmo da cidade, mesmo tendo feito algo da qual não tinha como ter sabido, isso significa dar uma consistência à lei, sem possibilidade de equivocá-la, ou seja, sem considerá-la sob um ponto de vista ad hoc. A lei deve funcionar como está escrita. Ao pé da 'leitra'. "Em Édipo Rei a pessoa está referida à lei do mundo, à autoridade" (2009, p. 78) diz MD Magno, psicanalista brasileiro. Ele chama essa posição psíquica de ‘Invocação da lei’, algo que funciona no regime do recalque de outras possibilidades de interpretação da lei. "Matou o pai, tem que ser escorraçado, não importa se sabia ou não". É a lei segundo Carl Schmitt, cuja tirania se impõe a partir dos valores vigorantes em determinada época. Cito: "O valor maior tem o direito e até mesmo o dever de submeter o valor inferior, e o valor, como tal, tem toda a razão de aniquilar o sem-valor como tal" (SCHMITT, 1961, p. 75) Isso é tipo o seguinte: botar uma pessoa, que foi pega em flagrante roubando uma caixa de leite, na cadeia e inocentar o Dirceu por falta de provas, apesar de inúmeros indícios: cumpra-se a lei. Em um caso, ‘roubou, vai pra cadeia”; em outro “a lei diz que não se pode punir sem falta de provas”.

Assim, temos uma posição mental diante da lei: invocá-la, sedimentá-la: "há a injunção da lei, ordenada não se sabe de que poder, que vige no interior da cidade. O parricídio e o incesto como crimes são um sintoma da cidade instituído por um poder. Então, Édipo Rei mostra a pessoa centrada no enunciado da lei. (...) é o império da lei, em seu sentido menor, dentro da ordem do mundo. Lembrem-se de que é a lei que institui o crime e se institui pelo poder" (MAGNO, 2009, p. 78).

Após a grande tragédia, quando Édipo vai para Colônia, ele começa a se desculpabilizar, com o apoio de Antígona, no sentido de que ele não sabia da situação na qual se encontrava. Ele não sabia que o homem da carruagem, o qual matou, era seu pai, e nem que a rainha de Tebas era sua mãe. De modo que essa própria desculpabilização quanto ao seu crime é uma equivocação da lei. É algo do tipo "se bem que eu não sabia..." de modo que talvez não devesse ser punido por essa lei insensata com a qual me culpo. Talvez a lei deva ser revista, relativizada, equivocada: “Data Vênia”.

Daí, temos Antígona. O que ela faz é, além de equivocar a lei de Creonte, revogá-la. E invoca a lei da pulsão: não há lei mundana para a pulsão, de modo que tudo lhe é possível. Nenhuma solução legal abrange seu escopo. "Aí está a Pessoa Real como estranha, estrangeira à lei" (MAGNO, 2009, p. 80). Qualquer lei lhe é injusta, pois ela está referia à lei maior, que sabe que não há lei no mundo que dê conta de nossa experiência de mal-estar de haver e desejar não-haver: "eu tenho meu modo de haver, de dar conta do próprio mal-estar de haver, absolutamente singular, que nunca, nenhuma lei poderá universalizar" É como se Antígona tivesse dito: "eu VOU enterrar o meu irmão, VIVA OU MORTA, criminosa ou não", indiferentemente. Está para-além das oposições das leis e dos julgamentos (bom/mau, certo/errado, etc.), seguindo estritamente ALEI da Pulsão: ‘vou tentar Não-Haver desse meu modo singular’, quer dizer, diante do insuportável da impossibilidade de Não-Haver, invento um jeito de Haver que é meu modo singular de suportá-la, seja isso legal ou ilegal.

E é aqui que entra a questão da justiça. "Dentro do escopo do que temos dito, toda demanda de justiça é requerimento de reconhecimento da singularidade da pessoa enquanto real" (MAGNO, 2009, p. 99), para além das oposições, das diferenças. Qualquer decisão jurídica implica inadimplência para com o Justo porque não considerou minha possibilidade pulsional, que quer não-haver, portanto nada do que se decida dentro do Haver satisfaz completamente. "Cada pessoa, enquanto Real, encontra sua verdadeira identidade em sua posição no Haver. Identidade esta que não é descritível, jamais comparece explicitada nas formações do Ser, do dizer, da cultura, etc." (Ibid, p. 103), justamente porque não dá conta da singularidade do desejo humano. A Lei maior é a Lei do Desejo, que chamaremos ALEI por não ser nenhuma dessas leis menores que vigoram em certas culturas devido às tiranias dos valores. As justiças (no plural, mesmo) são também constituídas pelos valores vigentes, dominantes em determinado contexto. A indiferenciação desses valores ("se isso é bom, se isso é mau, EU vou enterrar meu irmão") mostra a irredutibilidade do desejo humano, que é sua única e verdadeira identidade. Todos somos idênticos perante ALEI, todos temos o mesmo desejo de impossível, porém, dentro do possível, a justiça vai separando as possibilidades em permitido/proibido,  bom/mau, dentro das oposições. O desejo humano está para além dessas oposições, em que tanto o permitido quanto o proibido são possíveis. Nesse lugar, todas as possibilidades se vinculam, e é aí que mora a humanidade do ser humano.

Antígona quer que sua singularidade seja incluída no mundo, na lei. Mas a lei se recusa a fazê-lo. Assim como os Kaiowás. O vínculo sagrado entre os Kaiowás e seus antepassados, tal como o vínculo de Antígona com Polinício é de uma ordem mais abrangente do que os demais; não é da ordem das diferenças: não se rata de que Polinício seja o irmão de Antígona, não se trata de que os antepassados são parentes dos Kaiowás, mas se trata da ordem da singularidade.  O que isso significa? Que, para além de todas as identificações com as quais nos constituímos, tal como 'brasileiro', 'índio', 'católicos', 'evangélicos', 'irmãos' etc., a condição fundamental, ou seja, a identidade do 'ser humano é a de simplesmente haver no mundo, indiferente a quaisquer identificações. E essa é uma vinculação não pelas diferenças (tipo 'índio', 'irmão', 'parente' que são diferenças dentro do Haver, da Existência), mas da Identidade fundamental das singularidades: "SOU ÚNICO, COMO TODO MUNDO! Incluam isso em algum lugar do Haver ao invés de excluírem minha singularidade em prol da sua singularidade". Isso é da maior importância e é o que fundamenta uma nova mentalidade ‘polética’ com relação às leis e à justiça.  Slavoj Zizek também reconhece isso. Ele diz que não podemos tratar do problema da luta de classe (que chamaremos de agonística, ou simplesmente luta das diferenças, das oposições) com base numa filosofia das diferenças, através de uma tolerância para com elas. Não se trata de tolerar os índios. Pois, segundo ele mesmo, "a tolerância significa 'me deixe em paz, não me acosse. Se você se aproximar demais vou me sentir acossado e isso eu não tolero’”. Em outras palavras, essa política de tolerância das diferenças acaba sendo intolerância. Um exemplo claro disso é a invasão do Iraque pelos EUA. Bush não tolerava a falta de tolerância do regime de Saddam Hussein e foi lá impor a tolerância (dita democracia). Ou seja, o país da Tolerância não tolerava a Intolerância: Tola errância. Não é essa a polética que a psicanálise propõe. Para ela, o que quer que haja deve ser considerado, deve ter o direito de haver. Assim como Polinício. O que Antígona está dizendo, no fundo é que 'houve Polinício' e ele deve ter o lugar dele nesse mundo 'que a terra há de comer'. Ele já tinha morrido, mas Antígona reclamava que não o matassem de novo, como se ele não tivesse havido. Esse é o Vínculo Absoluto: todos nós, sejamos bons, maus, certos, errados, índios, caraíbas, havemos, e temos esse direito. Da mesma forma os índios: "nossos antepassados existem, e nós também. Temos esse direito", é como se dissessem.

Essa polética, essa política do Real (MILNER, 2006, p. 77), praticamente impossível de se executar, é o que MD Magno chamou de Diferocracia, claramente se opondo à democracia, que é o regime de tolerância das diferenças eleitas pela ‘maioria’ (cf. os EUA). "Diferocracia não é um conceito das filosofias da diferença. Isto porque estas pensam e operam no regime do Ser, das oposições, dos alelos. Elas defendem as diferenças enquanto tais dentro da ordem cultural, social, dos saberes, dos conhecimentos, em que tudo se organiza e se explicita como oposição, e portanto, em última instância, como diferença pura em emergência. Entretanto, o que dá base ao pensamento da diferocracia não é o mero reconhecimento da diferença, pois esse permanece no jogo das diferenças [tolerâncias], e sim o reconhecimento da Identidade do Real para cada um. Discutir a respeito da diferença, como ela é e como funciona é infinito. Já referir-se à experiência que todos têm de Haver tout court, sem qualquer discussão, é uma experiência radical de cada um e não tem discussão. Quando minha referência é a minha singularidade, o reconhecimento da singularidade de cada um e de que essa singularidade é causadora de movimentos os mais diversos na ordem do Ser, [ser brasileiro, índio, etc...], aí então respeito a diferença e a coloco como intocável. Isto com base na identidade e não com base nas próprias diferenças. Vejam que falo de uma força maior de garantia das diferenças, mas que está fora das diferenças: a força Real da Identidade permanente, a singularidade de cada um. Dado que cada um é singular, sabe-se lá que movimentos, diferenças ou loucuras esta singularidade produzirá, e temos que respeitá-las todas, pois estamos no antes respeito de cada singular. (...) há que respeitar cada singularidade segundo sua expressão dentro do Ser. Do ponto de vista político, no mundo que temos, isto é inexequível" (Magno, 2010, p. 104), porque exigiria das pessoas a indiferença quanto aos valores e é em relação a isso que ainda não estamos preparados. "No estado de mente ao qual me refiro, é preciso não levar em conta a diferença pela diferença, pois a diferença pura e simples é irritante para a diferença. Levá-la em conta recai no regime da tolerância. Não se trata, portanto de tolerar o próximo por ser diferente, e sim do direito que ele tem de ser diferente em função de sua identidade. (...) Em termos de psicanálise, a postura política do psicanalista em seu trabalho é acolher todas as diferenças do mesmo modo [indiferentemente]. Não importa se, na ordem jurídica da cultura, a atitude de uma pessoa seja considerada crime, pois o psicanalista está no movimento de entender e levar isto à sua identidade para que ela, no esclarecimento de sua posição de identidade no mundo, consiga até fazer diplomacia com esse mundo, e não receba de saída um sopapo de julgamento a respeito de sua identidade"(MAGNO, p. 105).

Essa postura insustentável, de indiferença quanto às oposições no mundo é o crucial para que algum dia haja de fato a instauração dessa polética diferocrática. "Então, o único princípio é que os regulamentos sejam tais que não ofusquem o surgimento de um sujeito [uma singularidade], que não sufoquem a fala, que não erijam a surdez como regra. (...) Liberalismo que deseja que a lei diga o mínimo possível de propriedades [cf. "Eleições e classes paradoxais", abaixo] e se atenha ao mais abstrato [a singularidade Real do Vínculo Absoluto]" (MILNER, 2006, p. 79). Ou, como diz Magno, "há que arranjar meios de garantir as diferenças, por piores que sejam" (MAGNO, 2008, p. 121). "Vejam como é difícil lidar com isso se considerarmos qualquer singularidade como sagrada. E mais, sabemos que uma singularidade, no campo do mundo, pode ser prejudicial à outra [vide os ruralistas, por exemplo]. Por isso, as políticas de mundo têm que, mediante todos os artifícios possíveis, inclusive tecnológicos, inventar modos de manter a existência de ambas sem que haja destruição recíproca. Mas o que a democracia faz é dizer que tal singularidade não pode se expressar e a trancafia [por exemplo, neste momento os índios estão confinados a uma pequena área de sua tekohá, cercados de jagunços à espreita]. Ora, isto é igual ao que qualquer macaco sabe fazer" (MAGNO, 2009, p. 107)

Antígona e os Kaiowás nos dão o exemplo dessa política Real, em que diante das leis do mundo, das leis da cidade, fazem referência à ALEI Real como impossibilidade de se atingir o não-haver, implicando que toda forma de existência deve ter seu direito dentro do mundo, até porque  simplesmente não é possível extingui-la: como os Kaiowás mesmos já disseram, tal como Antígona, "decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos" (KAIOWÁS, 2012, grifo meu). Se matarmos todos os Kaiowás, isso não os fará desaparecer; pelo contrário, os dará uma força que nunca tiveram antes na história desse país. Tornarão-se (aliás, já são, visto as tentativas de fazer com que eles não hajam) mártires imortais da Humanidade, como tantos outros, e quem vai morrer com eles será justamente mais um pedaço d'Ela, como em tantas outras vezes.


REFERÊNCIAS:

KAIOWÁS. Abaixo-assinado Não á Extinção do povo Guarani-Kaiowás - Revogação do despacho expresso pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Disponível em: http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N30735

MAGNO, MD. A Rebelião dos Anjos: Eleutéria e Exousía. Rio de Janeiro: Novamente Editora, 2009.

____________. AmaZonas: A Psicanálise de A a Z. Rio de Janeiro: Novamente Editora, 2008.

MILNER, Jean-Claude. Os Nomes Indistintos. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006.

SCHMITT, Carl. La Tirania de los Valores. Trad. Anima Schmitt de Otero. In: Revista de Estudios Políticos, Madrid, 115, Enero-Frebrero 1961. Extraído de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Schmitt#cite_note-autogenerated1-7

ZIZEK, Slavoj. The Reality of the Virtual. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=fa3OHpMWYc0

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Eleições, classes paradoxais, burrice e canalhice

Quero ser livre insincero
Sem crença, dever ou posto.
Prisões, nem de amor as quero.
Não me amem, porque não gosto.

(Fernando Pessoa "Quero ser livre insincero")



Fim de eleições em Belo Horizonte no ano de 2012. O prefeito Lacerda foi reeleito no primeiro turno. Devo dizer que uma das coisas que ainda me impressionem em política é a cegueira que toma conta das pessoas quando apoiam um candidato (quem sabe 'canditado'...) ou um partido. 

O contexto é o seguinte: Márcio Lacerda, o prefeito, tem um modo de governo que para certas classes sociais (ou melhor, para classes dessas classes) é considerado cruel, desumano, elitista, corporativista, e etc. Para outras classes de outras classes, ele é visto como "o melhor prefeito do Brasil", em grande parte por ter sido eleito com tal título por uma pesquisa 'suspeita' que foi veiculada na mídia acentuadamente. Essas são as duas principais classes que se me apresentaram, e que formavam, entre si, uma 'oposição'

Lembremos que, por quatro anos, até dois meses antes das eleições, os dois elementos da oposição (seus dois alelos, tecnicamente), PT e PS(D)B eram aliados políticos, defendendo os mesmos 'ideais' (leia-se: cargos), sobre quem era o melhor prefeito para nossa cidade. A separação se deu devido às 'divergências' quanto aos seus próprios 'ideais': Lacerda havia prometido 'ideais' ao PT e não entregou. Assim, o PT, puto de raiva e às pressas, resolve lançar o vice de Lacerda, Roberto de Carvalho, como candidato de 'oposição' nessas eleições. Porém, no último minuto, após uma reunião de cúpula do partído, ficou decidido que Roberto de Carvalho retiraria a sua candidatura para dar lugar a Patrus, que o PT sabia ter muita simpatia junto à 'esquerda' belorizontina (leia-se, principalmente: classe artística - e simpatizantes da causa -, que, após muitos entraves com  o prefeito, se institucionalizou como oposição especialmente com o 'movimento fora Lacerda'). Desnecessário dizer que isso irritou o ex-vice-prefeito, mas talvez o alto escalão tenha pensado que é pelo bem do Partido.

De modo que, então, a legenda 'PTS(D)B' se cindiu em PT e PS(D)B, criando uma 'oposição'. Assim, chegou-se à configuração à qual me referi no começo, em que coexistem o tinhoso Márcio lacERDA e aquele que encarna os ideais da cultura, de uma cidade diferente, "de ação e coração", livre da gestão PS(D)B.

Quanto a isso, abro um parêntese, quando os PTistas acusam Márcio lacERDA de realizar desocupações mediante violência àqueles que não têm onde morar, esquecem que o VICE-PREFEITO era PTista, tal como recalcam que a gestão que tanto passaram a criticar era da sigla 'PTS(D)B'. Fecho parêntese.

E nas redes sociais choveram mensagens denunciando as podridões que M. lacERDA fez no governo, enquanto depositavam em PaTrus a esperança de um novo dia, em que todos seríamos tratados como 'humanos' (whatever that means...). vi mensagens do tipo "Sim, patrus! somos responsáveis", e tals. E essa classe de 'responsáveis', era, em grande maioria, pessoas ligadas às artes de algum modo, seja profissionalmente, seja indiretamente, seja por amor. Realmente nem vi manifestações apaixonadas de apoio a M. lacERDA. Até porque Lacerda comprou apoio político, não precisa ser espontâneo... O que é de se pensar...

Mas, retomando meu raciocínio, criou-se essa 'oposição': Lacerda no qual a maioria votaria, segundo as pesquisas, mas que não tem lá muito apoio explicitamente apaixonado como no caso do Patrus, e o PTista, cujo partido, oriundo da cisão com o PS(D)B agora se apresentava como 'alternativa' à gestão horrorosa do Lacerda (e só dele - tanto que o movimento é o 'fora LACERDA', e não 'fora roberto de carvalho').

Para formular uma leitura psicanalítica dessa situação me utilizarei de Jean-Claude Milner, um linguista estudioso de Lacan, que é muito bom de se ler. Cara preciso, sucinto e denso. Pois bem , ele tem um conceito que trata do que ele chama de 'classes paradoxais'. Uma classe é uma nomeação que rotula certa situação em uma determinada significação. Por exemplo: "ah, aquela mulher é uma histérica!", com aquele ar jocoso. "histérica" aqui representa uma classe (cujo nome é 'histérica) que contém certos atributos, ou propriedades: 'exagerada', 'fingidora', 'chata', etc. Assim, uma classe se funda em quaisquer atributos que acaso cofiramos aos nomes, os quais, por sua vez, se prestam a quaisquer deles. Temos várias classes, inclusive classes clássicas, que são o 'trabalhador', o 'burguês', o 'humano', etc. Inclusive esse é o fundamento de todo e qualquer agrupamento, todo e qualquer Laço Social: que o sujeito estabilize seu ser em algumas das propriedades dessas classes: 'filho', 'brasileiro', etc.

Ora, a ideia de classe paradoxal que milner nos fornece é algo interessantíssimo: ela é uma nomeação de classe cuja função é precisamente a de desagrupamento. Aqui, cito um parágrafo meio extenso: em psicanálise "quando alguém diz 'o neurótico, 'a histérica', 'o perverso', 'o obsessivo', dá a entender, sob as espécies do singular genérico, a unicidade de um sujeito, que lhe é homônimo (...) Quem de fato vai acreditar que se trata de classes fundadas em propriedades, quem vai acreditar que os neuróticos se assemelham entre si e se opõem a um complementar? Ou, pelo menos, quem vai acreditar que é isso que o nome visa, quando é do ponto da análise que ele se articula? Mas no instante mesmo que, por homonímia, a psicanálise retoma os nomes recebidos, ela sabe, ou devia saber, que se trata aí de semblante: algo, para além, subsiste e não está esgotado na classe representável.. Algo que diz, mas não o que os neuróticos têm de mutuamente substituível e sim o que cada um deles tem de insubstituível; é que o laço que, segundo toda aparência, é constituído pelo nome comum só tem de substância o que separa para sempre os ligados. E, se entendermos esses últimos pelo que os faz se assemelhar, deveríamos estar, ao mesmo tempo, seguros de ter perdido o que, pelo nome, era visado de real. O nome de 'neurótico', de 'perverso', de 'obsessivo' nomeia ou finge nomear a maneira neurótica, perversa, obsessiva, que tem um sujeito de ser radicalmente dessemelhante de qualquer outro" (p. 91).

Admito muita emoção a citá-lo, pois é muito bonita e precisa a sua escrita. Mas o que quero frisar disso é que a classe paradoxal é um modo de-classificar, quer dizer, um modo maroto de usar um nome de classe para desclassificar. Lacan, quando fundou sua escola de psicanálise, tentou ao máximo impedir que se formasse uma igreja ao seu redor, para que a teoria psicanalítica não ficasse intocável por suas próprias sábias palavras e tentasse constantemente se renovar, sempre, a despeito do próprio Lacan. Por isso, ele 'diz-solveu'-a, dizendo: "vocês podem ser lacanianos, se quiserem. Quanto a mim, eu sou freudiano".. O estranhamento, o 'tchan' da frase é: "Lacan não-lacaniano? Como assim?" Esse é um exemplo de uma classe paradoxal. Essa é uma postura de indiferença com relação às classes, pois os atributos ou propriedades delas não podem ser totalmente unívocos, mas comportam um elemento de equivocidade e possibilidades de sua sub-versão. Se uma classe serve para assemelhar, agrupar, a classe paradoxal comporta a presença de uma auto-diferença em seu próprio seio, onde o duplo-sentido, sempre possível, desvela a falta de sentido radical para as atribuições que fazemos às classes. 

O que é ser lacaniano? O que é ser PTista? O que é ser 'de' tal ou tal partido? Diante da multipliCIDADE de (o)posições ideológicas, políticas, partidárias, que se constituem classes ao fortalecer sua (o)posição quanto às demais, a classe paradoxal vem mostrar que uma maior indiferença quanto às oposições serve para reduzir a burrice e a canalhice que tanto assolam eleitores e candidatos (não necessariamente nessa ordem). Isso porque, como conceitos, burrice e canalhice têm uma relação bem próxima. Para Milner - seria trágico se não fosse cômico -, a burrice tem um axioma: "não existe corte que desfaça o Laço" (p. 102) (leia-se laço social). Isso significa que a burrice é simplesmente que "tudo o que se diga, que o ser persevere sem ser afetado pelo fato de ser falante, que a linguagem una e comunique, que haja algum discurso que não seja semblante, eis alguma palavras enunciadas pela burrice, ou, pelo menos, por ela aplicados". (p. 103). Assim, burrice é acreditar no significado do que se diz, decantando-o cada vez mais; burrice é crer em Deus, o Laço Supremo, que para cada um tem um rosto; burrice é acreditar no Amor, cujos mal-entendidos expõem sua indelével fratura sexual. Burrice é crer em "deixa o homem trabalhar" ou "prefeito de ação e coração" (slogans de Lacerda e Patrus), como se um estivesse de fato trabalhando ou o outro tivesse de fato um coração. Resumindo, é crer que estamos INTEIROS, 'juntos e misturados', nesses PARTIDOS. A burrice é "a paixão pelo próprio laço" (p. 104). Completo eu: ser burro é crer ser (burro)...

De modo que, se por um lado, a classe paradoxal é precisamente aquela nomeação que não serve para agrupar, mas sim dispersar, causar um corte com o Laço, a burrice é a crença nesse próprio Laço, ignorando apaixonadamente, ou seja, resistindo à própria possibilidade de dispersão desse laço - como PTistas, PMDBistas, lacanianos... É crer que o Laço é tudo e Todo. Não é. Não necessariamente. 

Agora, não é porque constatamos que o Laço é burro que vamos ser canalhas de dizer foda-se ao Laço, foda-se o semblante, sendo inclusive burros de achar que isso é possível. O canalha - vou chamar de babaca de agora em diante -, o babaca, tenta recusar ser burro e acaba sendo os dois. Isso é que mais vemos nos políticos atualmente: mandam os semblantes à merda e agem simplesmente como se eles  (laços) não existissem, ou seja, faz o que quiser com o dinheiro 'público' (que é semblante) e se apropria dele (mostrando que de 'público' aquele dinheiro só tem o semblante, já que é simplesmente dinheiro na mão dele, e ele pode fazer o que quiser, inclusive roubar). Canalha também é quem não vota ou anula ou abstém: acha que não tem que preocupar com política, sem saber que sabe que dizer que não se envolve com política é tomar uma posição política. Quem é canalha também é burro: burrice é condição da canalhice. Ele é burro por achar que vai escapar do semblante ao ser canalha (que é só mais um semblante). E é canalha pelo mesmo motivo. Pois escapar de um semblante só leva a outro: é sair de um buraco pra cair em outro. 

Por isso é que a postura psicanalítica pode nos ajudar a reduzir a burrice e a canalhice: uma maior indiferença quanto aos semblantes que as nomeações partidárias, ideológicas, etc. nos atolam implica em uma política (ou melhor, uma polética) mais alinhada com o Real que é o para-além das oposições político-partidárias e ideológicas, em que as diferenças são mais indiferentes, em que possamos (como o Inconsciente) acolher e incluir elementos de quaisquer dessas oposições, sem sermos burros ou canalhas em relação a elas. 

Votar, sim; escolher, sim; tomar partido, sim; mas tentando sempre exercitar a indiferença, a classe paradoxal, quer dizer, resistir à burrice e à canalhice de supor que ou é tudo Um ou não é nada. Sem paixão ao Laço: menos amor, menos amor (como quem diz: menos ódio, menos ódio)... ou pelo menos, "ame ao próximo como se não fosse a ti mesmo", porque, de Narciso, tá cheio de gente no mundo... votando e se elegendo. Lacan deu o exemplo de tentar que não se construa uma igreja com o seu 'partido' lacaniano... (e fracassou, certamente...) Fernando Pessoa disse: "prisão, nem de amor as quero".

Como diz a 'Gina Indelicada': entre Michel Teló e Gusttavo Lima, prefiro o 'ou'"... 'Democracia' (se é que esse nome presta) começa aí...